Ela tornou-se uma piada espalhada entre a multidão, e cada menção era como uma lâmina espetando-a.
Júlia exibiu uma expressão de desculpa: “Sinto muito, irmã Bianca, seu marido está tão preocupado comigo, você não vai se importar, vai?”
Os lábios de Bianca tremeram, enquanto via Júlia cobrir a boca, fingindo estar assustada.
“Ah, esqueci que a irmã Bianca é deficiente auditiva, ela não consegue ouvir!”
Assim que o deboche foi proferido, todos explodiram em gargalhadas.
O corpo de Bianca tremia ligeiramente; a malícia infinita fazia seus ouvidos zumbirem, mas ela só podia suportar a vergonha e fingir calma.
“Calados.”
A voz baixa de Marcelo não era alta, mas fez o grupo silenciar imediatamente.
Ele massageou as têmporas, como se tentasse conter algo: “Nesta competição de arranjos florais, não vou deixar Bianca participar; o campeonato ainda será seu.”
O coração de Bianca estremeceu.
Ela já perdeu a conta de quantas vezes Marcelo a impediu de participar de competições.
Ela pensava que era ciúmes, que ele queria que ela ficasse ao seu lado, mas nunca imaginou que era por medo de que ela roubasse o brilho de Júlia.
Marcelo continuou: “Júlia, você sabe muito bem que eu só amo você nesta vida; até a nossa aliança de casamento tem o seu nome gravado.”
Júlia riu e deu um leve empurrão em Marcelo, incentivando-o: “Pare de falar, sua esposa Bianca veio verificar o que você estava fazendo.”
Marcelo hesitou, focando sua visão embaçada em Bianca antes de se levantar rapidamente e tossir.
“Bianca, por que você veio?”
Ele notou o ouvido vazio de Bianca, franziu a testa inconscientemente, segurou sua mão e, como sempre, a protegeu enquanto saíam.
O calor contagiou seus dedos frios, e os olhos de Bianca se encheram de lágrimas.
“Já vai embora? Quando o Príncipe vai deixar a gente brincar com a Bianca?”
As pessoas no camarote ainda queriam provocar, mas Marcelo lançou um olhar cortante que imediatamente silenciou a sala.
Ao ver Marcelo defendendo Bianca, Júlia girou a taça de vinho e fez um biquinho.
“Marcelo, você é tão bom com Bianca que até eu fico com inveja.”
Marcelo parou e soltou uma risada leve.
“Se não fosse por você, eu não estaria encenando toda essa pantomima para ela ver; ela deveria é te agradecer.”
Capítulo 3
Uma única frase, como milhares de flechas afiadas, atravessou o peito de Bianca.
Pela primeira vez, ela odiou ter recuperado a audição tão depressa.
Rápido demais para que ela pudesse se preparar, sendo ferida profundamente por Marcelo, a pessoa que esteve ao seu lado por sete anos.
Embora fosse início do outono, um calafrio percorreu todo o corpo de Bianca.
Marcelo levou Bianca para o carro e, naturalmente, pegou o aparelho auditivo reserva na caixa para colocá-lo nela.
Foi um movimento tão natural, mas, ao retirar a mão, ele a viu com o rosto banhado em lágrimas.
Em sete anos juntos, esta era a primeira vez que ele a via chorar.
Marcelo ficou um pouco confuso e estendeu a mão para limpar suas lágrimas, mas foi evitado pelo rosto dela que se virou.
A mão de Marcelo parou no ar, vendo-a enxugar as lágrimas e olhar pela janela.
“Não é nada, o vento entrou nos meus olhos agora pouco.”
Bianca mal virou o rosto, e as lágrimas já cobriam suas bochechas novamente.
Marcelo apertou a mão de Bianca, sem insistir em perguntas.
No curto trajeto, ele olhou para o celular mais de dez vezes.
Pelo reflexo do vidro do carro, ela viu a nuvem azul no avatar da rede social, que era exclusiva de Júlia.
Bianca fechou os olhos, mas não conseguiu esconder o constrangimento em seu olhar.
Ao retornar à Mansão da Colina, Marcelo foi direto para o escritório trabalhar.
Bianca colocou todas as coisas relacionadas a ele em caixas de papelão e as deixou na sala de descarte destinada à coleta de lixo.
Até as flores cuidadosamente preservadas no armário, escolhidas especificamente para Marcelo, foram jogadas no lixo.
Com os olhos vermelhos, ela abaixou os dedos trêmulos, incapaz de conter a dor no peito.
Acompanhado por passos pesados, Marcelo saiu do escritório, afastou o cabelo dela e deixou um beijo quente.
Percebendo que ele queria ir além, Bianca desviou-se discretamente.
“Você bebeu hoje, descanse primeiro.”
Marcelo hesitou, então a abraçou novamente: “Tudo bem.”
A decoração do quarto estava bem mais vazia, já que muitos objetos estavam ligados a Bianca.
Ele não se importou, apenas inalou o leve aroma de flores que vinha dela e disse com voz rouca: “Da próxima vez, deixe esse tipo de tarefa de arrumar o quarto para os empregados.”
Bianca encostou-se em seu peito, em silêncio, deixando as lágrimas inundarem seus olhos.
Ela não jogou fora apenas as flores, mas também seu sentimento e apego por Marcelo.
Uma noite difícil de dormir.
Bianca teve inúmeros pesadelos, sonhando que Marcelo a abandonava e, por mais que corresse, não conseguia alcançá-lo.
Acordando sobressaltada, Bianca tateou inconscientemente ao lado.
Vazio.
O quarto estava vazio, apenas com a luz desoladora da lua caindo sobre ela.
Suas têmporas latejavam; os sintomas do transtorno pós-traumático pareciam estar retornando.
Bianca pegou o celular para enviar uma mensagem ao Dr. Lino e desceu para ficar sentada sozinha no sofá da sala.
“Bianca? O tempo está tão frio, por que está sentada aqui?”
Marcelo entrou pela porta e, quando ia pegar um cobertor para ela, uma voz estridente soou.
“Já é uma mulher feita e não sabe se cuidar, não admira que, depois de tanto tempo casada, ainda não tenha engravidado!”
A Sra. Menezes varreu a sala decorada com flores com desdém, tapando o nariz com desprezo.
“Tantas flores que dão vontade de espirrar, o que você está fazendo sentada aí? Não viu que eu cheguei? Ainda não serviu o chá! Você perdeu a audição, não os braços!”
O coração de Bianca estremeceu; ela tentou se levantar e, antes que pudesse dizer algo, começou a tossir.
Marcelo segurou a mão dela para aquecer seus dedos gelados.
“Mãe, não fale assim com a Bianca, ela não tem culpa de ter a saúde frágil.”
A Sra. Menezes revirou os olhos, tirou um convite de noivado com letras douradas da bolsa e jogou na mesa.
“Dante vai noivar com Júlia amanhã, lembrem-se de comparecer, não tragam vergonha para a família Menezes!”
Ao terminar a frase, a pressão em seu pulso aumentou bruscamente, fazendo as pálpebras de Bianca tremerem de dor.
O olhar de Marcelo vacilou, e ele soltou a mão dela para servir o chá.
Se os nós dos dedos dele, ao segurar a xícara, não estivessem brancos de tanta força, Bianca quase teria pensado que o descontrole de Marcelo fora um delírio.
A Sra. Menezes não se importou com a atitude do filho, apenas continuou examinando Bianca de cima a baixo.
“Não passa de uma inválida; como não conseguiu casar com Dante, veio estragar a vida de Marcelo. Você acha que ele realmente te ama?”
“Se meu neto nascer surdo como você, eu nunca vou te perdoar!”
“Não sei o que Marcelo viu em você, no dia em que ele pedir o divórcio, será uma benção dos céus!”
O rosto de Bianca ficou pálido, e a figura cruel da Sra. Menezes balançava diante de sua visão.
Após a Sra. Menezes sair altiva, tudo ficou escuro para Bianca, e ela perdeu a consciência completamente.
Não sei quanto tempo se passou, mas em um estado semiconsciente, ela ouviu a voz hesitante do Dr. Lino.
“Sr. Marcelo, a senhora já está grávida de 2 meses. Se ela tomar os remédios abortivos como das outras vezes, não poderá mais ter filhos no futuro...”
O coração de Bianca congelou; ela reuniu todas as forças para abrir os olhos e ouviu Marcelo, de costas para ela, dizer calmamente:
“Chega, misture o anticoncepcional no calmante dela. Já foram 15 frascos, não fará diferença desta vez.”
Capítulo 4
Os ouvidos de Bianca zumbiam, e a última parede de seu coração desmoronou repentinamente.
De repente, o cordão vermelho em seu pulso caiu no chão sem aviso prévio.
Suas cordas vocais tremeram violentamente, e ela pegou o cordão fino partido com os olhos marejados.
No terceiro ano de casamento, para conseguir engravidar, Bianca e Marcelo subiram a escadaria de dez mil degraus de um templo segurando flores de agapanto por dez meses seguidos, pedindo por um filho.
Fizesse sol ou chuva, nunca faltaram um dia sequer.
No 300º dia, o abade do templo os deteve com dois cordões vermelhos.
“Dois benfeitores, não é mais preciso trazer oferendas. Usem estes cordões e voltem para casa.”
“O cordão cai, o destino se desata; se não há herdeiros, é porque não há caminho.”
Ele fez uma reverência, recitou essas palavras e partiu calmamente.
Dois simples cordões vermelhos pareciam ter entrelaçado a vida de ambos.
Todos os dias, ao dar aulas e arranjos florais, ela evitava o cordão no pulso, com medo de que se desgastasse.
Hoje, porém, ele se rompeu completamente.
Rompeu-se no dia em que Bianca descobriu a verdade sobre sua infertilidade, no instante em que Marcelo pronunciou aquelas palavras.