Antigamente, ela e Thiago também tiveram um papagaio.
Custara cinquenta moedas, comprado em uma feira de flores.
Todos os dias, ele ensinava a ave a falar incansavelmente, repetindo uma e outra vez: "Amor, eu te amo."
O papagaio era lento e levou muito tempo para aprender, mas ela o adorava como um tesouro.
Depois, o pássaro fugiu por uma janela mal fechada.
Ela chorou a noite inteira.
Essas memórias distantes e o rosto distorcido de Camila diante dela começaram a se sobrepor.
"Por que? Por que ele simplesmente não consegue te esquecer!" os olhos de Camila estavam vermelhos.
"Vocês já estão divorciados, por que ele ainda não consegue me amar completamente!"
Ela agarrou o pulso de Isabela com tanta força que suas unhas quase rasgaram a pele, revelando uma loucura histérica em seus olhos:
"Entre você e eu, ele só pode escolher uma."
"Hoje, vamos fazê-lo tomar essa decisão."
Dito isso, Camila puxou-a para o mar.
Capítulo 9
A água gélida do mar causava uma dor excruciante em todo o corpo.
Isabela caiu no oceano e imediatamente sentiu uma asfixia avassaladora.
Sua mente percorreu, como um filme, a memória da última vez que caíra na água.
Foi quando ela ainda estava no ensino médio.
Ela e Thiago namoravam à beira de um rio depois da escola.
Naquele dia, a margem estava escorregadia, ela perdeu o equilíbrio e caiu na água.
Em pleno inverno rigoroso, ele saltou sem hesitar e a resgatou.
Depois de confirmar que ela estava bem, ele a abraçou e chorou de nervosismo.
Foi a primeira vez que o viu chorar; ele a abraçou com tanta força, dizendo que quase pensou que a perderia.
Naquela vida, a coisa que ele mais temia era perdê-la.
Por isso, no dia em que ela pediu a separação, ele chorou tanto.
Seus olhos avermelhados e as lágrimas caindo como contas de um colar rompido foram como uma tortura prolongada para o coração dela.
Exatamente como esta cerimônia de casamento.
Isabela afundava no mar, pensando: desta vez, será que ele virá salvá-la?
A água aos poucos cobriu seu nariz e boca, passando por cima de sua cabeça; a asfixia intensa a fez começar a se debater na água.
Justo nesse momento, ela sentiu uma força imensa que a amparou, erguendo-a para fora da superfície.
Ela inspirou bruscamente, tentando virar a cabeça para ver a pessoa...
Mas viu apenas ombros largos, com a camisa branca colada aos braços dele.
Antes mesmo de ver o rosto do homem, ela perdeu a consciência.
Quando acordou, Isabela estava deitada no convés, ao lado de um salva-vidas também encharcado.
Não muito longe, Thiago segurava Camila, verificando nervosamente se ela estava ferida.
Camila encostava-se no peito dele, queixando-se com a voz fraca:
"Foi ela quem me empurrou... ela me culpou por ter roubado você e disse que uma tola tão rica não deveria ter me cedido..."
Ela puxava a gola da camisa de Thiago: "Thiago, por pouco eu nunca mais veria você."
Thiago cerrou os punhos e beijou a testa dela com pena.
Ao olhar para Isabela, seus olhos eram afiados como lâminas.
"Isabela, você está tão perversa que me causa nojo."
"Espero que nunca tivéssemos nos conhecido."
Dito isso, ele a envolveu em uma toalha de banho grossa, pegou Camila no colo e entrou na cabine.
Isabela observava as costas dele.
Uma brisa marinha soprou, parecendo congelar todos os seus ossos.
Ela mastigava lentamente as palavras que ele acabara de dizer.
Sim... se ele nunca a tivesse conhecido, certamente teria agora um casamento feliz e uma família perfeita.
Em vez de desperdiçar tantos anos nessa tortura mútua.
Quando o navio atracou, Isabela pediu roupas emprestadas a um atendente e voltou para a mansão.
De acordo com o plano do comissário, esta noite um grande incêndio destruiria a casa, deixando um corpo no local.
Ela, por sua vez, mudaria de identidade, assumiria uma nova vida e continuaria a tarefa inacabada de sua mãe, investigando a verdade sobre o crime de venda de órgãos humanos da organização internacional.
A mansão estava vazia; todos os criados haviam seguido Thiago para sua nova residência.
O casarão estava deserto, restando apenas incontáveis memórias compartilhadas.
Isabela foi ao quarto principal.
O anel de noivado já tinha sido levado por ele. Seu peito sentia-se vazio, como se uma grande parte tivesse sido arrancada.
Ela entrou no closet, onde ainda restavam muitas roupas que ele não levara.
As pontas de seus dedos percorriam as peças; ela queria levar algo dele, apenas para ter uma lembrança.
Seus dedos pararam de repente.
Era o sobretudo preto que ele usara ao tirar as fotos de casamento.
Ela tirou a peça e a vestiu sobre os ombros.
Em transe, lembrou-se de muitos anos atrás, do instante em que foi envolvida pelo aroma dele e abraçada profundamente.
Neste momento, será que ele já estaria abraçando outra mulher?
Capítulo 10
Na noite de núpcias, Thiago recebeu um telefonema.
"Sr. Thiago, o senhor nos pediu para encontrar um par de olhos adequado para transplante, e já conseguimos."
Thiago assentiu em silêncio.
Até hoje, ele ainda não sabia por que Isabela havia perdido o olho esquerdo.
Ele perguntou muitas vezes, mas ela sempre desviava do assunto.
Agora, ele já não queria mais saber a tal razão.
Encontrar um par de olhos adequado era a última coisa que ele faria por ela.
"Providenciem a cirurgia o mais rápido possível", disse ele, preparando-se para desligar.
A voz do outro lado da linha o interrompeu:
"Sr. Thiago, descobrimos mais algumas coisas."
Ele mal conteve a impaciência: "O que?"
"Descobrimos que o olho esquerdo da Srta. Isabela não foi removido devido a um acidente, mas sim porque ela se submeteu a uma cirurgia de doação."
Em um instante, as veias de Thiago saltaram e ele não conseguia acreditar:
"O que você disse!"
Ele cerrou os punhos e perguntou com rispidez:
"Quando ela doou?! Por que não há registros médicos? Eu não pedi para vocês investigarem antes?"
A pessoa do outro lado pediu desculpas repetidamente.
"Desculpe, Sr. Thiago, antes investigamos apenas registros de hospitais regulares e não encontramos nenhuma cirurgia de doação, por isso deduzimos que o dano ao olho esquerdo foi acidental."
"Desta vez, para encontrar um transplante compatível, ampliamos o escopo da investigação."
"Descobrimos que, há sete anos, ela fez uma cirurgia de doação ocular em uma pequena instituição médica clandestina em Jiangcheng."
"Como era uma clínica subterrânea e a cirurgia foi ilegal, não havia conexão com a rede nacional, por isso não encontramos nada a princípio..."
Thiago já não conseguia falar.
Uma suspeita que atingiu sua alma surgiu em seu coração.
Sua voz soou terrivelmente rouca:
"Para quem ela doou o globo ocular?"
A pessoa do outro lado disse: "Não conseguimos identificar o receptor específico, apenas que este globo ocular foi enviado ao Primeiro Hospital de Jiangcheng..."
Imediatamente, um estrondo como um trovão soou nos ouvidos de Thiago.
Ele levantou a mão inconscientemente e tocou seu olho esquerdo.
Muitas vezes, ele se olhou no espelho.
Aquele olho esquerdo sempre lhe causou uma estranha sensação de familiaridade.
Era, na verdade, de sua amada, com quem convivera dia após dia.
O coração de Thiago tremia violentamente, cenas do passado passavam por sua mente.
Ele balançava a cabeça, com o olhar perdido, murmurando para si mesmo:
"Eu não entendo... por que? Por que ela fez isso?"
Amando-o tanto, e ainda assim afastando-o uma e outra vez.
Thiago, torturado pela angústia, discou o número de Isabela.
No entanto, por mais que ligasse, ninguém atendia, restando apenas o tom de chamada.
...
Enquanto isso, Isabela desligou a tela do celular, ignorando o toque insistente.
Com dificuldade, ela carregou baldes de gasolina e os espalhou por toda a mansão.
Na cama do quarto de hóspedes, um corpo já estava preparado para substituir o dela.
Daquele dia em diante, a pessoa Isabela deixaria de existir neste mundo.
Ela pegou o isqueiro e ateou fogo nas cortinas da casa.
...
Thiago, olhando para o celular que não completava a chamada, sentiu um desconforto indescritível crescer em seu peito.
Ele pegou as chaves do carro e correu para a garagem.
Na escuridão da noite, o veículo disparou como uma flecha.
Nesse momento, ele não se importava com mais nada.
Ele só queria encontrá-la, trancá-la em seus braços e perguntar: o que aconteceu ao longo desses anos?
Se ela lhe desse uma palavra, não importava o que ela dissesse, ele acreditaria; o que quer que ela tivesse feito, ele estava disposto a perdoar.
O carro se aproximava da mansão e, ao fazer a curva, ele viu um fogo imenso no fim da estrada.
Thiago sentiu um sobressalto e avançou como um louco.
No fim da rua, aquela mansão que ele levara quatro anos para construir meticulosamente, o lugar que ele chamava de lar, estava envolta em chamas furiosas que tingiam o céu de vermelho.
◇ Capítulo 11
O coração de Thiago era como um vulcão prestes a explodir.
Diante das chamas, a raiva e o desespero se entrelaçavam, fazendo-o perder a razão. Ele correu em direção ao fogo, sem se importar com a própria vida.