《Eu Morri no Meu Casamento — Mas Era Mentira》PARTE 2

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O silêncio dentro do Hospital Santa Cecília era diferente do silêncio da morte.

Era um silêncio administrativo.

Frio.

Limpo demais.

Como se alguém tivesse apagado o caos do incêndio e substituído por protocolos.

No terceiro andar, ala VIP, uma porta branca permanecia fechada com duas câmeras de segurança e um aviso discreto:

“PACIENTE EM OBSERVAÇÃO CRÍTICA – ACESSO RESTRITO”

Dentro do quarto, Isabela Monteiro Vasconcelos abriu os olhos.

Por alguns segundos, ela não entendeu onde estava.

O teto era branco demais.

O ar tinha cheiro de álcool e queimado ao mesmo tempo.

E o corpo… não respondia direito.

Ela tentou levantar a mão.

Tremia.

Ligada a ela, uma máquina apitava em ritmo constante.

“Eu… tô viva?”, ela sussurrou.

A voz saiu rouca, como se tivesse sido raspada pelo fogo.

A porta se abriu imediatamente.

Uma médica entrou rápido.

Dra. Helena Reis.

Expressão controlada, olhos cansados.

Ela fechou a porta atrás de si.

“Você não devia estar acordada agora.”

Isabela tentou virar o rosto.

“Rafael… ele—”

A médica levantou a mão, interrompendo.

“Não fala agora. Sua respiração ainda está instável.”

Isabela piscou.

“Eu vi ele… ele me deixou…”

Silêncio.

Dra. Helena olhou para a prancheta.

E então disse algo que não combinava com medicina.

“Oficialmente, você morreu ontem às 22h47.”

Isabela sentiu o corpo congelar.

“O quê?”

A médica respirou fundo.

“Foi emitida uma certidão de óbito emergencial. Incêndio em alta complexidade. Identificação inicial baseada em fragmentos de vestuário e… reconhecimento indireto.”

Isabela tentou sentar.

Dor atravessou o peito.

“Não… eu estou aqui.”

Dra. Helena se aproximou.

“Você está viva. Mas para o sistema… você não está mais.”

Do lado de fora do hospital, um carro preto parou em silêncio absoluto.

Porta traseira abriu.

Rafael Albuquerque Vasconcelos desceu.

Terno amassado. Olheiras profundas.

Patrícia estava ao lado dele, ainda com manta hospitalar nos ombros.

“Eles disseram que já confirmaram o corpo?”, ela perguntou baixo.

Rafael assentiu sem olhar para ela.

“Sim.”

Patrícia respirou fundo, como se estivesse tentando não sorrir.

“Então acabou.”

Mas Rafael não respondeu.

Ele encarava o hospital.

Algo nele não parecia aliviado.

Parecia incompleto.

No quarto VIP, Dra. Helena ajustava o soro.

“Você teve queimaduras leves no braço e intoxicação por fumaça. Foi retirada a tempo.”

Isabela apertou o lençol.

“Quem me tirou?”

A médica hesitou meio segundo.

“Um bombeiro.”

“Qual o nome dele?”

“Lucas Andrade.”

Isabela repetiu mentalmente.

Lucas.

Dra. Helena continuou:

“Ele insistiu que você ainda estava viva quando todos achavam que o quarto tinha desabado.”

Isabela fechou os olhos.

Flash do fogo.

Mãos puxando ela.

Uma voz firme.

“Fica comigo.”

Ela sussurrou:

“Ele salvou minha vida…”

Mas a médica não parecia confortável.

“Não é só isso.”

Isabela abriu os olhos.

“Então o que é?”

Dra. Helena colocou um envelope na mesa ao lado da cama.

“Isso foi encontrado no seu camarim depois do incêndio.”

Isabela olhou.

O envelope tinha selo do hotel.

E estava queimado nas bordas.

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Com mãos trêmulas, ela abriu.

Dentro havia apenas uma coisa:

Uma cópia da certidão de óbito.

Com seu nome.

Isabela Monteiro Vasconcelos.

Morta.

Confirmada.

Ela engoliu seco.

“Isso é falso.”

Dra. Helena respondeu sem emoção:

“Não. É oficial.”

No mesmo instante, no corredor do hospital, Lucas Andrade caminhava rápido.

Uniforme ainda sujo de fuligem.

Ele parou na frente de uma porta de segurança.

Tentou abrir.

Trancada.

Ele bateu.

“Nurse Helena! Abre!”

A porta abriu só uma fresta.

Dra. Helena apareceu.

“Você não deveria estar aqui.”

Lucas entrou forçando.

“Ela acordou?”

A médica hesitou.

“Sim.”

Lucas respirou fundo.

“Então confirma uma coisa pra mim.”

Helena ficou séria.

“Qual?”

Ele abaixou a voz:

“Aquele incêndio não foi acidente, foi?”

Silêncio pesado.

A médica não respondeu.

Mas o silêncio respondeu por ela.

No quarto, Isabela estava sozinha por alguns minutos.

Ela olhou para o próprio braço.

Bandagens.

Pele sensível.

Memórias quebradas.

E uma certeza crescente dentro dela:

Aquilo não tinha sido um acidente.

A porta abriu de novo.

Lucas entrou.

Isabela olhou diretamente para ele.

Ele parou.

Os dois ficaram se encarando por um segundo longo.

“Você é o bombeiro…”, ela disse.

Ele assentiu.

“Lucas.”

Ela tentou se sentar.

“Você me tirou de lá.”

Ele desviou o olhar.

“Sim.”

“Por quê?”

Lucas hesitou.

“Porque você não devia estar trancada naquele quarto.”

Isabela franziu o cenho.

“Como assim ‘trancada’?”

Ele respirou fundo.

E colocou algo na mesa.

Um objeto metálico.

Parte de uma trava de porta.

“Isso estava preso na sua porta.”

Isabela olhou.

“E daí?”

Lucas olhou direto nos olhos dela.

“Não foi incêndio que te prendeu lá dentro.”

Silêncio.

“Foi alguém.”

No mesmo momento, no estacionamento do hospital, Patrícia estava sozinha dentro do carro.

Ela abriu a bolsa.

E retirou algo escondido em um lenço.

A pulseira de pérolas.

A mesma que estava no camarim.

Ela passou os dedos lentamente.

“Desculpa, Isabela…”

Um sorriso leve.

“Mas isso aqui vale mais do que você imagina.”

Ela abriu a pulseira.

E dentro do fecho…

um microchip dourado.

Ela respirou fundo.

“Então é isso…”

No quarto, Lucas falava baixo:

“Seu camarim foi trancado de fora. E o sistema de emergência do hotel foi desligado por dois minutos.”

Isabela ficou pálida.

“Dois minutos?”

Ele assentiu.

“Tempo suficiente pra fogo se espalhar e ninguém conseguir voltar.”

Isabela apertou o lençol.

“Quem faria isso?”

Lucas hesitou.

E então disse:

“Alguém que sabia exatamente onde você estaria.”

Silêncio.

Isabela lembrou.

Patrícia tossindo.

Rafael saindo com ela.

A porta fechando.

Ela sussurrou:

“Rafael…”

Lucas não confirmou.

Mas também não negou.

Do lado de fora, Rafael finalmente entrou no hospital.

Corredor branco.

Passos lentos.

Ele parou na recepção.

“Quero ver a paciente Isabela Vasconcelos.”

A recepcionista olhou a tela.

Franziu o cenho.

“Senhor… essa paciente não existe mais no sistema.”

Rafael congelou.

“Como assim?”

Ela virou o monitor para ele.

Nome apagado.

Registro encerrado.

Óbito confirmado.

Ele deu um passo para trás.

“Não… isso não pode estar certo.”

Atrás dele, Patrícia chegou.

E viu a tela também.

Mas ao contrário dele…

ela sorriu.

No quarto VIP, Isabela olhava para Lucas.

“Se eu morri oficialmente…”

Ela respirou fundo.

“Quem foi enterrado no meu lugar?”

Lucas não respondeu imediatamente.

Ele apenas abriu um arquivo no celular.

Mostrou uma imagem.

Um corpo coberto.

Etiqueta hospitalar.

E um nome diferente.

Isabela sentiu o chão desaparecer dentro dela.

“Quem é essa mulher?”

Lucas respondeu baixo:

“É isso que eu estou tentando descobrir.”

Ele pausou.

E então completou:

“Porque ela foi enterrada com a sua identidade.”

Isabela ficou em silêncio.

A máquina ao lado dela apitou mais rápido.

Ela olhou para o próprio pulso.

Como se seu corpo tivesse acabado de deixar de ser confiável.

E então disse:

“Então alguém está usando a minha morte…”

Lucas assentiu.

“Como prova de que você não pode voltar.”

Do lado de fora do hospital, Patrícia entrou no carro.

Ligou o celular.

Uma mensagem apareceu:

“Status confirmado. Ela está oficialmente morta.”

Ela respondeu:

“Perfeito.”

E guardou o chip dentro da bolsa.

Mas antes de fechar, ela olhou para o hospital uma última vez.

E murmurou:

“Agora começa a parte que você não devia ver, Isabela.”

No quarto, Isabela olhou para Lucas.

E pela primeira vez desde o incêndio…

ela entendeu o verdadeiro terror.

“Se eu não estou viva no sistema…”

ela sussurrou.

“Então quem sou eu agora?”

Lucas não respondeu.

Porque no fundo…

ele também não sabia.

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