A escuridão durou apenas alguns segundos.
Mas foi o suficiente para mudar tudo.
Quando as luzes da Torre Esmeralda voltaram, nada parecia estável.
O vidro do meu escritório refletia a cidade de São Paulo como sempre.
Mas eu já não confiava mais no que parecia normal.
Liam estava parado perto da janela.
Lucas segurava a mochila com mais força do que antes.
E eu ainda sentia a última frase do meu pai ecoando na sala.
“Eles são prova.”
Prova de quê?
Ninguém respondeu.
Nem ele.
Ricardo Vasconcelos havia desaparecido do corredor como se nunca tivesse estado ali.
Clara estava ao telefone com a segurança, mas sua voz tremia.
“Senhor Henrique… o sistema do subsolo voltou a responder.”
Eu virei imediatamente.
“Subsolo qual?”
Ela engoliu seco.
“O setor antigo. Nível -3. Está mostrando atividade.”
Lucas levantou a cabeça.
“Ela está lá.”
Eu olhei para ele.
“Quem?”
Ele não respondeu.
Mas seus olhos disseram tudo.
Isabela.
Antes que eu pudesse reagir, meu painel de segurança interno piscou.
Uma pasta apareceu automaticamente.
Sem origem.
Sem autorização.
Apenas um título:
“CÂMERA 04 – ARQUIVO RECUPERADO”
Eu toquei na tela.
E o mundo mudou de novo.
A imagem começou tremida.
No início, só escuridão.
Depois, um carro.
Preto.
Vidros escuros.
Chuva forte batendo no para-brisa.
Uma mulher estava no banco de trás.
Isabela.
Meu peito apertou sem permissão.
Ela não parecia a mulher que eu lembrava.
Era mais pálida.
Mais cansada.
Mais desesperada.
E segurava duas crianças pequenas contra o peito.
Liam e Lucas.
Mais novos.
Mais frágeis.
A gravação mostrava ela olhando constantemente para trás.
Como se algo estivesse seguindo.
A voz dela surgiu baixa, cortada.
“Eles nos encontraram… eu sabia.”
A câmera tremia.
O motorista não aparecia.
Só as mãos no volante.
Mas algo nele era errado.
Muito controlado.
Muito preciso.
Isabela puxou os meninos mais perto.
“Se algo acontecer comigo, vocês vão para ele.”
Lucas no vídeo chorava.
“Quem é ele, mamãe?”
Ela hesitou.
E respondeu:
“Henrique.”
Meu nome atingiu a sala como um choque.
Eu dei um passo para trás sem perceber.
Clara levou a mão à boca.
“Senhor… isso é…”
Eu não deixei ela terminar.
Continuei olhando.
Isabela no vídeo começou a chorar.
Mas não era um choro comum.
Era um choro de alguém que já sabia o final.
“Ele vai achar que eu estou mentindo… mas não estou.”
A câmera tremeu mais forte.
O carro parecia acelerar.
Ou fugir.
Ou ser perseguido.
E então uma sombra apareceu no vidro traseiro.
Um carro atrás deles.
Muito perto.
Isabela virou rápido.
E sua voz mudou completamente.
“Ele não pode ver vocês.”
Ela abriu uma pequena caixa.
Dentro havia um objeto.
O mesmo medalhão.
Mas agora inteiro.
Ela colocou no pescoço de Lucas.
Depois em Liam.
E falou:
“Se ele perguntar… vocês não lembram de mim.”
Lucas no vídeo gritou:
“Eu não quero esquecer você!”
Isabela segurou o rosto dele.
“Você vai esquecer… para sobreviver.”
A imagem cortou por meio segundo.
E voltou mais escura.
O carro agora estava parado.
Estrada vazia.
Chuva mais forte.
O silêncio era pesado.
Isabela estava fora do carro agora.
De joelhos.
Falando com alguém fora da câmera.
“Eu fiz o que você pediu.”
Uma voz masculina respondeu.
Não era clara.
Mas era fria.
Controlada.
“Eles estão seguros?”
Isabela hesitou.
Depois respondeu:
“Sim.”
Mas sua voz não acreditava nisso.
E então a imagem ficou instável.
O áudio falhou.
E o vídeo cortou abruptamente.
Eu fiquei imóvel.
A sala inteira parecia menor.
Clara sussurrou:
“Isso… foi gravado quando?”
Eu não respondi.
Porque a data estava no canto.
Cinco anos atrás.
O mesmo período em que eu tinha abandonado Isabela.
Liam puxou minha manga.
“Ela disse que você ia lembrar agora.”
Eu me virei devagar.
“Você lembra disso?”
Ele negou.
“Só sonho.”
Lucas falou mais baixo.
“Mas a gente sente quando alguém está mentindo pra gente.”
Meu estômago apertou.
Porque aquilo não era linguagem de criança.
Era sobrevivência.
Eu virei para o sistema.
“Quem liberou esse arquivo?”
Clara digitou rápido.
“Não tem origem registrada… parece recuperação automática de backup externo.”
“Backup de onde?”
Ela hesitou.
“Servidor antigo da empresa.”
Eu congelei.
Porque minha empresa não tinha servidores antigos acessíveis.
Exceto…
Os que meu pai controlava.
Nesse momento, o interfone explodiu novamente.
“Senhor Henrique… temos acesso não autorizado no subsolo.”
Eu apertei o botão.
“Quem está lá?”
A resposta veio nervosa.
“Não sabemos. Mas o sistema reconheceu… identidade familiar.”
Familiar.
Eu olhei para os meninos.
E algo dentro de mim começou a quebrar em partes pequenas.
Ricardo estava mentindo?
Ou protegendo algo pior?
Antes que eu pudesse decidir, o elevador do andar executivo abriu de novo.
Mas não era ele desta vez.
Era um homem diferente.
Terno escuro.
Olhar frio.
Sem pressa.
Oliver Guimarães.
Conselheiro do conselho administrativo.
Eu nunca gostei dele.
Ele nunca precisava falar alto.
Porque sempre parecia saber mais do que deveria.
Ele olhou para as crianças primeiro.
Depois para mim.
Depois para o vídeo ainda aberto na tela.
“Interessante,” ele disse.
Eu não movi um músculo.
“Você não deveria estar aqui,” eu respondi.
Ele sorriu levemente.
“Mas estou.”
Clara ficou atrás de mim, tensa.
Lucas deu um passo para trás automaticamente.
Oliver olhou para ele.
“Eles cresceram rápido.”
Meu sangue esfriou.
“Você conhece eles?” eu perguntei.
Ele não respondeu direto.
“Eu conheço o projeto.”
Silêncio.
A palavra caiu pesada.
“Projeto?” eu repeti.
Oliver caminhou lentamente pela sala.
“Seu pai nunca te contou o que realmente acontece no subsolo da empresa?”
Eu olhei para ele.
“Se você sabe alguma coisa, fala agora.”
Ele parou.
E pela primeira vez olhou diretamente para mim.
“Essas crianças não são só seus filhos.”
Lucas apertou minha mão.
“Eles são parte de algo maior.”
Clara sussurrou:
“Senhor… sensores do subsolo acabaram de falhar todos ao mesmo tempo.”
Oliver sorriu.
“Parece que alguém finalmente abriu a porta errada.”
O interfone explodiu mais uma vez.
Mas agora a voz era diferente.
Mais urgente.
“Senhor Henrique… alguém está subindo.”
“Quem?”
A resposta veio baixa.
Quase impossível.
“Eles disseram… que são da Isabela.”
Silêncio.
Lucas levantou a cabeça lentamente.
E disse algo que congelou tudo:
“Ela disse que eles iam voltar.”
Eu olhei para ele.
“Quem vai voltar?”
Ele respondeu:
“Os que estavam com ela no carro.”
E naquele instante…
todas as luzes da Torre Esmeralda apagaram de novo.
Mas desta vez…
não voltou.
E no vidro escuro do meu escritório…
alguém do outro lado bateu.
Três vezes.
TOC. TOC. TOC.
E uma voz feminina sussurrou do corredor:
“Henrique… você precisa abrir.”
CONTINUA…