Capítulo 08: A Bateria
O Bastion era uma máquina, e como toda máquina, precisava de energia. Lívia aprendera isso da pior maneira.
Enquanto caminhava pelos setores inferiores — autorizada por Julian após uma demonstração de "lealdade" ao não entregar Dante imediatamente — ela sentia que o ar ali embaixo era diferente. Era pesado, estalando com uma carga residual de ozônio tão forte que seus dentes doíam.
Ela deveria estar procurando por arquivos sobre a rede de Zara, como prometera a Julian em uma encenação de submissão, mas seus instintos a puxavam para o outro lado, para a ala que os técnicos chamavam de "Núcleo de Estabilização".
O setor não era vigiado com a mesma severidade que a sala de treino. Parecia um local de manutenção, um labirinto de cabos de cobre grossos como troncos de árvores e compressores que rugiam como feras enjauladas. Lívia seguiu a vibração.
A marca índigo em seu pulso latejava com uma urgência violenta, uma pulsação rítmica que parecia responder a algo que estava escondido logo atrás de uma parede de concreto reforçado.
Ela encontrou o painel de acesso. Não era trancado com o código complexo da ala superior, mas com um simples scanner biométrico que, por algum motivo que ela não ousou questionar, aceitou sua assinatura energética — o Bastion a reconhecia como "parte do sistema".
A porta deslizou, revelando uma câmara que deveria ter sido uma cela, mas era, na verdade, um sarcófago tecnológico.
Lívia parou, o ar morrendo em seus pulmões. O horror não foi imediato; foi uma erosão lenta da sua realidade.
No centro da sala, suspenso por fios prateados que perfuravam sua pele como agulhas de um marionetista sádico, estava um homem. Ou o que restara de um.
Bastian Valerius.
Ele era o reflexo sombrio de Julian. Tinha os mesmos traços, a mesma estrutura óssea, mas onde Julian era fogo, Bastian era um abismo. Ele estava inconsciente, conectado a uma vasta rede de monitores e transformadores que drenavam algo que brilhava com uma luz pálida e doentia.
O som da sala não era o zumbido da eletricidade, mas um gemido contínuo, uma frequência que parecia vir da própria carne do rapaz.
— Não pode ser... — Lívia sussurrou, o som morrendo na vastidão da câmara.
Ela se aproximou, o horror crescendo como uma onda de maré. Bastian não era um prisioneiro; ele era o gerador.
A mutação dele, ao contrário da de Julian que era explosiva e destrutiva, era magnética, uma fonte constante de energia que o Bastion usava para alimentar todos os sistemas de suporte à vida.
Ele estava sendo sugado até a última gota, mantido em um limbo de agonia eterna para que as luzes do Bastion pudessem brilhar.
Lívia viu o painel ao lado. Os níveis de drenagem estavam no máximo. Estabilização de Núcleo.
Julian não precisava apenas dela; ele precisava de Bastian para manter o próprio equilíbrio térmico, usando o irmão como um estabilizador químico.
— Você não deveria estar aqui.
A voz veio da escuridão da porta. Não era Julian. Era o Dr. Silas, cujos olhos por trás dos óculos tinham a frieza de um bisturi.
Lívia girou, o coração martelando contra as costelas. — O que vocês fizeram com ele? Ele é irmão do Julian!
— Ele é o sacrifício necessário — Silas explicou, caminhando calmamente pela câmara como se estivesse em uma sala de jantar. — O Sr. Valerius não consegue controlar o fogo sozinho.
O código genético de Bastian atua como um dissipador. Sem o sofrimento dele, o Bastion seria apenas uma cratera fumegante. É uma conta matemática, Lívia.
Uma vida para manter mil vivas. O Sr. Valerius é um homem pragmático. Ele entendeu que, para reinar, é preciso ter mãos sujas de sangue.
Lívia sentiu uma náusea insuportável. A imagem de Julian, o homem que a beijara com tanta urgência, o homem que parecia ter uma alma quebrada debaixo daquela armadura, agora ganhava um contorno vil. Ele não era apenas um experimento quebrado; ele era o arquiteto da tortura do próprio irmão.
— Ele é um monstro — ela murmurou, a voz trêmula de ódio.
— Ele é um sobrevivente — Silas corrigiu, indiferente. — Assim como você será, quando chegar a hora de sua integração. O Sr. Valerius protege você porque você é a peça de reposição. Quando a carga de Bastian não for mais suficiente, você ocupará o lugar dele. Você é a água que vai arrefecer o fogo definitivo.
O choque foi tão brutal que Lívia sentiu a própria marca índigo arder, um brilho cegante saindo de seus pulsos, uma reação instintiva ao medo. Ela deu um passo para trás, a consciência se fragmentando. Todo o luxo, os diamantes, a "proteção" de Julian... tudo era apenas uma espera em um corredor da morte luxuoso.
Ela não aguentou. O horror que transbordava do sarcófago de Bastian, o cheiro de ozônio e desespero, a verdade sobre o seu futuro — tudo convergiu em um único momento.
Lívia soltou um grito, um som gutural que não parecia humano. Foi um grito de revolta, de luto pelo mundo que perderam e pelo homem que ela quase, quase permitiu que a tocasse.
O grito desencadeou uma descarga de energia hidráulica. A umidade do ar ao redor dela condensou-se instantaneamente, transformando-se em jatos de água que dispararam em todas as direções, estilhaçando os monitores de Silas e cortando os fios de controle que alimentavam as máquinas. O sistema de segurança do setor soou um alarme ensurdecedor.
— Pare com isso! — Silas gritou, tentando proteger o próprio rosto enquanto jatos d'água, movidos por uma vontade bruta, destruíam o equipamento.
Lívia não parou. Ela viu a pele de Bastian, pálida e marcada, e sentiu uma conexão que não podia explicar. Ela era a única que podia ver a humanidade ali. Ela era a única que podia parar aquilo.
A porta explodiu em faíscas. Julian entrou, a aura de fogo ao seu redor diminuindo a pressão do ar. Quando ele viu Lívia, viu Bastian, e viu os monitores em chamas, o rosto do Tirano se contraiu em uma expressão que ela nunca vira antes. Não era raiva. Era medo.
— Lívia, saia daí agora! — ele ordenou, a voz um estrondo de autoridade.
— Você o mantém vivo para te servir? — ela gritou de volta, a água girando ao redor de seus pés como um vórtice furioso. — Você é a coisa mais cruel que já pisou nesta terra!
— Você não entende o que acontece se eu o libertar! — ele deu um passo à frente, ignorando os arcos elétricos que saltavam dos cabos soltos.
— Eu entendo que você é um covarde que precisa drenar o próprio sangue para não se queimar! — ela disparou, e o impacto daquela frase atingiu Julian como uma bala.
Ele parou, o fogo ao seu redor vacilando. Por um momento, a máscara de Tirano desmoronou completamente, revelando o menino da maca, o garoto torturado que precisava daquele horror para existir. Mas a fragilidade durou apenas um segundo. A autoridade retornou, fria e absoluta.
— Silas, tire-a daqui. Se ela resistir, seda-a — Julian ordenou, as costas voltadas para ela, incapaz de encarar os olhos de horror de Lívia.
— Não! — ela gritou, estendendo a mão para Bastian, mas os guardas já a imobilizavam.
Enquanto era arrastada para fora do núcleo, Lívia olhou para trás. Julian ainda estava parado lá, um homem cercado por chamas, olhando para o irmão torturado. Ela viu a forma como seus ombros tremiam. Ele não era apenas o vilão daquela história; ele era o prisioneiro mais trágico de todos.
Mas aquilo não a consolava. Na verdade, tornava tudo pior. Porque agora ela sabia a verdade: Julian Valerius não era apenas alguém que precisava ser derrubado. Ele era um sistema que precisava ser extinto, custasse o que custasse.
Enquanto as portas de metal se fechavam atrás dela, isolando o gemido de Bastian e a figura solitária de Julian na câmara, Lívia Salles, a sobrevivente, morreu.
A mulher que foi arrastada para o seu quarto de vidro era outra. Ela era a água que agora sabia que precisava inundar o Bastion até que nada sobrasse — nem o Tirano, nem a sua própria marca, nem a agonia que eles chamavam de vida.
Ela se sentou na cama, trêmula, o brilho da marca índigo desbotando lentamente no escuro. A cortina de diamantes que ele lhe dera estava jogada no chão, empoeirada. Ela tocou o próprio pescoço, sentindo o vazio onde a joia antes descansava.
Julian a amava, à sua maneira doentia. Mas naquele dia, Lívia entendeu que o amor dele não era um presente. Era a última fase do experimento.
E ela, Lívia Salles, jurou que, antes de ser a próxima bateria, ela faria o Bastion inteiro arder de uma forma que nenhum fogo — nem mesmo o de Julian — seria capaz de apagar.