Capítulo 05: Sussurros e Diamantes
A grade de ventilação, uma fresta quase invisível no topo da parede de metal, vibrou. Lívia, que fingia dormir, manteve a respiração ritmada.
— Não olhe para cima. O ar neste lugar tem ouvidos e o vidro tem olhos. — A voz de Valéria soou como o arranhar de unhas em metal. — Silas e Vane estão apostando quanto tempo você leva para colapsar. Eles não querem te salvar, Lívia. Querem você na mesa de dissecação.
Lívia sentiu o estômago revirar. — Por que me conta isso? O que você ganha?
— O direito de ver o Tirano cair — Valéria sibilou. — Ele te deu a coleira de diamantes hoje à tarde, não deu? Tome cuidado. Quando o presente brilha demais, é porque a corrente está ficando curta.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Lívia sentiu o peso do ar. Ela sabia que estava sendo observada, não apenas por câmeras, mas por algo mais profundo — a própria essência de Julian que parecia permear o Bastion.
Minutos depois, o painel de acesso apitou. A porta deslizou. Julian entrou. Ele não usava a máscara da indiferença hoje; seus olhos alaranjados brilhavam com uma intensidade que fazia os pelos dos braços de Lívia se arrepiarem. Ele carregava uma caixa de veludo, o movimento de seus dedos era hipnótico.
Ele parou diante dela, a distância quase ofensiva.
— Você não tocou na sua refeição — ele notou, a voz saindo como uma nota grave de violoncelo.
— Eu não sinto fome, Julian. Sinto tédio — Lívia retrucou, mantendo a postura ereta. — E sinto a claustrofobia de ser mantida como um espécime.
Julian soltou um riso seco e caminhou ao redor dela, os passos ecoando no metal como os de um lobo em uma jaula. — O mundo lá fora é uma vala comum, Lívia. Aqui, eu estou te oferecendo um trono. Ou prefere voltar para a lama?
— Eu prefiro a liberdade — ela disparou. — Mesmo que ela seja curta.
Ele parou à sua frente, a mão fechando-se em torno do queixo dela com uma firmeza que não permitia fuga, mas que não a machucava. — Liberdade? — ele repetiu, sarcástico. — A liberdade que te entregou para os dentes daqueles monstros? Você não quer liberdade. Você quer alguém para te dizer que você é importante.
Ele abriu a caixa. O colar de diamantes cintilou, refletindo a luz fria do quarto.
— Isso é um símbolo de status — ele disse, enquanto prendia a joia no pescoço dela. O toque de seus dedos, mais uma vez, enviou a marca índigo pulsando por todo o colo de Lívia. — Enquanto você usar isso, todos no Bastion saberão que você é intocável. Eles têm medo de mim, Lívia. Portanto, terão medo de você.
Lívia olhou para o reflexo deles no vidro. O contraste era brutal: a sobrevivente de pele suja e cicatrizes, agora adornada como uma rainha decadente.
— Você acha que diamantes compram lealdade? — ela sussurrou, encarando-o nos olhos. — Ou você só precisa se certificar de que, se eu for embora, você pelo menos saiba onde estou?
Julian inclinou a cabeça, os olhos faiscando. — Você é muito mais inteligente do que o seu antigo capitão jamais foi. E isso é o que me fascina. Guilherme te tratava como uma ferramenta. Eu te trato como um ativo de luxo.
— Ativo de luxo... — ela repetiu, sentindo o gosto amargo do termo. — Você não consegue admitir, consegue? Que você precisa que eu esteja aqui porque, sem mim, você é apenas um homem queimando vivo em sua própria pele.
A mão de Julian tensionou-se levemente. Ele se inclinou, a boca a milímetros da orelha dela, o calor irradiando como uma onda de choque.
— Se eu precisasse admitir algo, seria que você é a única coisa neste apocalipse que eu ainda não fui capaz de incinerar. — Ele se afastou, recuperando a pose de Tirano. — Use o colar. Mostre a eles quem você é. Deixe que o Coronel Vane veja o que eu reivindiquei.
Ele virou-se para a porta, mas Lívia o interrompeu.
— E se eu decidir que não quero ser seu ativo?
Julian parou, o perfil esculpido em sombras. — Então, minha querida, você descobrirá por que todos neste lugar têm tanto medo do meu fogo. Não é pela dor que ele causa... é pela forma como ele apaga a existência de qualquer um que tente levar o que é meu.
Ele saiu, deixando o cheiro de ozônio e o peso dos diamantes.
Lívia tocou a joia. O aviso de Valéria ardia em sua mente, mas a provocação de Julian criara uma fissura em sua armadura. Ele era um homem quebrado, alimentando-se de uma dependência bizarra. Ela não era mais uma prisioneira; ela era a única pessoa que conseguia atingi-lo.
Lá fora, nas câmeras, Julian observava Lívia. Ele via o brilho das pedras refletindo em seus olhos, via a forma como ela agora estudava o reflexo do corredor. Ele sorriu, um sorriso sombrio. Ele não precisava que ela o amasse — ainda não. Ele só precisava que ela estivesse ali, no centro de sua tempestade, até que não restasse nada da Lívia que Guilherme conheceu.
— Ela vai tentar quebrar o vidro — Julian sussurrou para o monitor vazio. — E quando ela conseguir... eu estarei esperando do outro lado.
No Bastion, o jogo de xadrez havia começado. E Lívia, adornada em diamantes, sentia o poder fluir. Ela tinha uma bateria para proteger, um tirano para manipular e um mundo para incendiar. Ela tocou a grade de ventilação novamente.
— Valéria — ela sussurrou para o vazio. — Prepare-se. O jogo mudou.
O corredor ficou em silêncio. Apenas a luz do colar, captando a iluminação estéril, brilhava como um aviso. A rainha do Bastion estava começando a reinar.