Durante a internação, entre as idas e vindas de acompanhantes, apenas Xavier permanecia no hospital o tempo todo.
Talita "via" que ele passava madrugadas trabalhando no notebook ao lado dela e o ouvira atender dezenas de ligações sem parar.
Ela tentou convencê-lo a ir para casa descansar, mas não conseguiu vencer a persistência dele.
Até que, alguns dias depois, o pai de Xavier ligou de repente, dizendo que havia uma reunião na qual ele obrigatoriamente precisava comparecer.
Como era na própria Cidade N, Xavier foi forçado a sair, embora olhasse para trás repetidamente antes de cruzar a porta.
Capítulo 43
Como Xavier Silva precisava sair, Sofia Santos veio para substituí-lo nos cuidados.
Por ser período de férias escolares, ela não tinha tanto trabalho quanto Murilo Rocha.
Sofia ligou cedo avisando que, devido ao horário de pico, estava presa no trânsito.
"Tali, não saia do lugar por nada, ouviu? Se precisar de algo, chame a enfermeira", recomendou Sofia com doçura.
Talita assentiu calmamente e, lembrando-se de que a outra não a via, respondeu devagar: "Entendi, Sofia."
Após desligar, Talita ficou comportada na cama, ouvindo o som vindo da televisão para passar o tempo.
Entediada de tanto ficar deitada, ela decidiu se levantar para caminhar um pouco pelo quarto; já estava familiarizada com cada canto do ambiente.
"Não há perigo", murmurou para si mesma, avaliando a situação.
Ela começou a vagar lentamente, indo da porta à janela e da janela à porta, como se estivesse dando um passeio.
Ao se aproximar da porta mais uma vez, ouviu uma discussão abafada no corredor que se aproximava rapidamente.
Talita encolheu-se instintivamente ao ouvir a algazarra.
A escuridão total diminuía seus reflexos e, quando deu por si, sentiu uma dor aguda na testa.
A porta foi escancarada com violência pelo lado de fora, atingindo em cheio Talita, que estava logo atrás.
Com o impacto, ela foi girada com força e perdeu o equilíbrio.
Houve um baque surdo quando ela desabou no chão.
Em um instante, sentiu uma dor de cabeça dilacerante. Antes de mergulhar na inconsciência, ainda ouviu o grito de pavor de Sofia.
...
Fora do centro cirúrgico, o rosto de todos da família Rocha estava sombrio.
Sofia transbordava culpa: "Se eu tivesse chegado um pouco mais cedo, talvez..."
Murilo tocou o ombro de Sofia para confortá-la.
Zilah também tentava conter as emoções: "Sofia, a culpa não é sua. Se não fosse aquele arruaceiro, a Tali estaria segura no quarto. Ela não merecia passar por esse sofrimento."
Xavier Silva estava parado ao lado, com o rosto gélido, sem dizer uma única palavra.
Ninguém sabia o terror que ele sentira ao ser avisado, no meio de uma reunião, que Talita fora levada às pressas para a cirurgia.
Se a preocupação com Talita não ocupasse todo o seu pensamento, ele provavelmente teria matado o agressor.
Um médico saiu de repente da sala de cirurgia segurando um papel.
"Aviso de estado crítico, preciso que um familiar assine...", o médico tinha um olhar de profundo pesar; eles haviam se preparado tanto para aquela paciente.
E agora, tudo fora arruinado por um homem que, após agredir a esposa e não encontrá-la, resolveu invadir cada quarto do hospital em um surto de loucura. Se não fosse por isso, a paciente estaria bem.
O Sr. Rocha assinou o documento com as mãos tremendo, e Zilah não conseguiu mais conter o choro.
Murilo e Sofia também estavam com expressões péssimas.
Xavier olhava para a luz acesa do centro cirúrgico, tenso como uma corda prestes a romper.
Um sentimento de autodesprezo o consumia; ele não parava de pensar que, se não tivesse saído hoje, nada disso teria acontecido.
Sua Tali estaria bem.
Lá dentro, instrumentos frios se moviam sem parar. Os médicos trocavam frases curtas, ocasionalmente franzindo o cenho.
Do lado de fora, o grupo não desviava o olhar da porta, temendo perder qualquer sinal.
O tempo passava minuto a minuto.
Novos avisos de estado crítico eram assinados um após o outro; parecia que os médicos estavam em uma corrida contra a morte.
Todos rezavam por um milagre.
Enquanto isso, Talita sentia-se presa em um ciclo estranho.
Ela estava em casa, mas ninguém conseguia vê-la.
Gritava por seus pais, por Murilo e, em imagens que giravam, viu Xavier parado diante de um túmulo.
Ela berrava o nome dele, mas ele não percebia sua presença.
Exausta, Talita parou no lugar, mas percebeu que algo estava errado com Xavier.
Ele segurava uma faca afiada.
Capítulo 44
Talita correu para tentar impedi-lo, mas atravessou o corpo dele como um fantasma.
Ao se virar, viu Xavier levantar o rosto, como se sentisse algo. Ele olhou em sua direção e esboçou um leve sorriso, como se estivesse prestes a se libertar.
O coração de Talita afundou ao ver a lâmina afiada perfurar o peito dele; no instante seguinte, o sangue jorrou.
Uma dor de cabeça insuportável a atingiu, e seu coração parecia se partir em mil pedaços.
Ela queria gritar, mas não emitia som algum.
Em meio ao torpor, um desejo feroz de viver a dominou.
Ela não queria ver seus pais infelizes, nem seu irmão mergulhado no luto, e muito menos ver Xavier desistindo da própria vida por causa dela.
Ela lutou desesperadamente para acordar.
Talita reuniu todas as suas forças e, finalmente, pareceu romper a barreira da escuridão.
Um lampejo de luz surgiu diante de seus olhos e ela ouviu o grito surpreso da equipe médica: "O coração da paciente voltou a bater!!!"
Logo em seguida, mergulhou novamente nas trevas.
Do lado de fora, o médico mal havia cruzado a porta com um semblante pesado que fez a esperança dos familiares murchar.
Mas, no segundo seguinte, um grito veio de dentro da sala.
Foi como um raio de luz que reacendeu a esperança da família Rocha e de Xavier.
Tudo ainda era incerto.
...
Entre a cirurgia e as manobras de ressuscitação, passaram-se quase trinta horas.
Para Xavier, o tempo pareceu uma eternidade. Ele permaneceu estático, como uma estátua.
Durante aquele período, ele sentiu como se não estivesse pensando em nada e, ao mesmo tempo, tivesse planejado tudo.
No começo, sua mente revisitou cada dia desde o primeiro encontro com Talita; depois, começou a pensar no que faria se... caso a perdesse.
Cada detalhe estava armazenado em sua mente. As trinta horas em pé já haviam ultrapassado o limite humano.
Mas Xavier não sentia nada.
Ele viu o Sr. Rocha assinar um aviso de estado crítico após o outro, mas não teve coragem sequer de se aproximar.
Antigamente, sempre que Talita se machucava em resgates, ele ficava aterrorizado e cheio de cuidados.
Naquela época, Talita costumava rir dele, chamando-o de covarde, e ele negava sorrindo.
Mas agora ele admitia: ele era um covarde.
Um covarde tão grande que o simples pensamento de perdê-la o fazia tremer de pavor.
Com os olhos injetados, Xavier encarava a luz da cirurgia e implorava em silêncio:
"Por favor, Talita, salve-me."
Talvez a força de sua vontade e as preces da família tenham sido poderosas o suficiente.
A luz do centro cirúrgico finalmente se apagou. A equipe que saiu trazia um cansaço profundo nos olhos, mas exibia uma alegria rara no rosto.
"A cirurgia foi um sucesso. A paciente demonstrou um desejo de viver incrível no último momento; ela salvou a si mesma."
As lágrimas de Zilah correram livremente, e os olhos de Sofia ficaram vermelhos de alívio.
Nos ouvidos de Xavier, as palavras soaram como um mantra de absolvição.
Ele tentou dar um passo à frente, mas suas pernas, paradas por tanto tempo, estavam tão dormentes que ele vacilou.
Acabou encontrando apoio na parede ao lado. O Sr. e a Sra. Rocha viram a cena e trocaram um olhar com um brilho suave de compreensão.
Talita foi levada para a UTI.
Os pais de Talita foram para casa descansar um pouco antes do próximo turno; Xavier e Murilo seguiram para o consultório do médico.
"Para ser sincero, a situação da Srta. Rocha superou nossas expectativas."
"No início, chegamos a considerar o óbito. Mas o desejo de viver dela foi tão forte que fez seu coração voltar a bater..."
A breve descrição foi suficiente para arrepiar os dois homens presentes.
"E quanto ao futuro dela...", Murilo perguntou apressado.
"É difícil dizer."
Capítulo 45
"O que quer dizer com isso?" A voz de Xavier estava rouca e seus olhos sombrios; seu coração não parava de oscilar.
Sob o olhar intenso daqueles dois homens, o médico sentiu um calafrio.
Ele tentou manter a calma e olhou para eles com compaixão: "Embora a Srta. Rocha tenha sobrevivido, o cérebro é a área mais complexa do corpo. O resultado final é imprevisível."
Os dedos de Xavier se contraíram; seu coração doía a ponto de estar quase anestesiado.
Murilo estava com uma expressão péssima; por ser médico, sabia exatamente o que aquilo significava.
"Quais são as possibilidades mais prováveis?" Xavier foi o primeiro a se recompor, ignorando o brilho quase insano em seus olhos.
O médico hesitou e falou pausadamente: "O melhor cenário é ela acordar e recuperar a visão; seria uma alegria para todos. O segundo é ela acordar, mas permanecer cega. O terceiro é ela não acordar por muito tempo, entrando em estado vegetativo."
Os dois homens altos ficaram rígidos, com expressões indecifráveis.
"E a última possibilidade...", o médico hesitou antes de suspirar, "...se ela não conseguir superar este período crítico, a vida dela ainda corre risco."
As palavras do médico fizeram o coração de ambos despencar.
Ao saírem do consultório, o clima entre Murilo e Xavier era de extrema tensão.
Caminhando pelo corredor, Murilo parou de repente: "Eu me arrependo... não deveria ter deixado a Tali saber dessa possibilidade."
O coração de Xavier estremeceu. Ele massageou os olhos inchados: "Eu não me arrependo. Murilo, eu acredito que ela vai acordar."
"Ela com certeza vai acordar."
Murilo observou o homem passar por ele com passos largos, sentindo um misto de emoções.
Tinha que admitir: Xavier talvez conhecesse Talita melhor do que ele.
...
Três meses se passaram voando e tudo parecia ter voltado ao normal.
Contudo, havia quem ainda estivesse preso naquele inverno rigoroso, incapaz de sair.
O assistente olhava para o patrão de rosto severo, sem ousar respirar alto.
Os diretores dos departamentos, sentados à mesa, tremiam de medo de levar uma bronca por qualquer deslize.
Desde que voltara do feriado de Ano Novo, o temperamento do chefe tornara-se ainda mais imprevisível.
O assistente suspeitava que tivesse algo a ver com uma mulher, mas não tinha coragem de bisbilhotar a vida pessoal do patrão.
O clima na sala de reuniões era sufocante.
Enquanto anotava a ata, o assistente rezava:
"Que algum anjo apareça para nos salvar!"
Assim que o pensamento cruzou sua mente, o celular de Xavier tocou.
Contendo a irritação, ele atendeu.
Do outro lado, a voz de Murilo soou carregada de emoção: "Xavier, a Tali acordou!"
O barulho estridente da cadeira arrastando no chão assustou a todos, que pensaram que algo terrível ocorrera.
Mas Xavier apenas pegou o paletó e saiu correndo da sala.
Os presentes na reunião ficaram se olhando, sem entender nada.
No hospital.
Em sua cama, Talita Rocha olhava para as flores coloridas ao seu redor com um interesse renovado.
Foi no período de cegueira que ela percebeu o quanto ansiava pela luz e pelas cores do mundo.
Agora, observando a primavera radiante e os brotos nos plátanos do lado de fora da janela, sentia um calor reconfortante no peito.
Seus pais e os outros já a haviam visitado; logo que acordou, foi cercada por médicos para exames.
Eles falavam em milagre, mas Talita sentia apenas que despertara de um longo sonho.
E agora, o sonho finalmente chegara ao fim...
A porta do quarto foi aberta bruscamente. Talita olhou instintivamente em direção à entrada e viu Xavier Silva, com uma aparência um tanto desgrenhada.
Seu coração amoleceu. Xavier agia com cautela, como se tivesse medo de que aquele momento fosse um delírio.
Talita abriu um sorriso lindo e disse:
"Xavier Silva, quanto tempo."
FIM