Capítulo 70: Emoção! O Destino Traçado
Ricardo fixou o olhar intenso em Alice. Seu pomo de Adão moveu-se.
— Que segredo?
Alice fechou as mãos em punhos ao lado do corpo; seus cílios tremiam, denunciando a ansiedade. Ela reuniu coragem e disparou:
— Na verdade... aquela nossa primeira noite... foi a minha primeira vez.
A mente de Ricardo pareceu explodir como um trovão. Seu perfil tensionou-se bruscamente e seu olhar tornou-se ainda mais escuro e profundo. Como ela não dizia nada, Alice mordeu o lábio com força e lançou-lhe um olhar de irritação.
— Você não acredita?
Ricardo ainda estava em choque, mas antes que falasse, ela continuou:
— Nem toda mulher sangra na primeira vez. — Ela baixou o olhar, constrangida. — Eu caí várias vezes aprendendo a andar de bicicleta quando criança, talvez tenha causado alguma ruptura ali...
As palavras foram interrompidas pela voz grave e magnética dele:
— Eu acredito!
Alice levantou o indicador, pedindo silêncio.
— Deixe-me terminar. Do ponto de vista anatômico, o hímen é uma membrana mucosa anular que geralmente já possui uma abertura natural para a passagem do fluxo menstrual; não é uma barreira totalmente fechada.
Ela o encarou com a racionalidade típica de uma legista.
— Algumas mulheres possuem uma membrana muito elástica, que sofre apenas microfissuras quase imperceptíveis no primeiro ato. Em outros casos, o sangramento é tão ínfimo que é diluído pelas secreções. Além disso, exercícios intensos, uso de absorventes internos ou quedas — como as minhas de bicicleta — podem causar o rompimento precoce. A medicina já provou que o sangramento não é um critério confiável para determinar a virgindade.
Ricardo ouvia a explicação técnica em silêncio. Sua mandíbula continuava rígida, mas a ponta de suas orelhas ficou levemente avermelhada.
— Desde o momento em que você falou, eu não duvidei — disse ele com a voz rouca. — Meu silêncio é por culpa. Eu não fui nada gentil naquela noite.
O coração de Alice falhou uma batida. O olhar dele estava ardente e focado, carregado de um remorso visível.
— Eu te machuquei. Me perdoe.
O pedido solene a deixou sem jeito. Ela ajeitou o cabelo, resmungando com um tom manhoso:
— Só agora você percebeu que me machucou?
Mas logo suavizou o tom: — Não foi só culpa sua. Eu também te provoquei muito e... bem, não agi exatamente como uma iniciante.
Ricardo a observava como se quisesse sugá-la para dentro de si. Alice colocou a mão na cintura e o encarou:
— Por que está me olhando assim?
Um sorriso impossível de conter surgiu nos lábios de Ricardo.
— Só estava pensando... você foi casada por dois anos com o Mateus e nunca...
Alice não fugiu da pergunta.
— No começo ele tinha problemas de desempenho. Depois que se curou, ele já estava me traindo com a Camila.
Ricardo arqueou a sobrancelha. — E se ele estivesse bem, vocês ainda estariam juntos?
— Provavelmente. Eu cheguei a gostar dele no passado — admitiu ela.
Ricardo soltou um "hum" seco e voltou a colocar a fronha no travesseiro. Suas costas largas pareciam um pouco rígidas, e Alice não resistiu a sorrir. Ela aproximou-se e cutucou o braço dele.
— O que foi? Ficou com ciúmes?
Achou que ele negaria, mas ele respondeu com um "sim" baixo.
— Um pouco.
Alice sentiu um brilho de satisfação.
— Mas isso é passado. Nós não tínhamos sintonia, senão eu não teria entregado o que eu tinha de mais precioso para você, não é?
Ricardo largou o travesseiro e segurou os ombros de Alice, encarando-a com seriedade absoluta.
— Eu não tenho fetiches por virgindade. Para mim, o valor de uma pessoa não é medido pelo passado de seu corpo. Eu gosto de você porque você é a Alice — a mulher brilhante na mesa de necropsia, a profissional firme nas cenas de crime, a pessoa independente, resiliente e de sorriso radiante.
— Mas devo admitir: saber que fui o primeiro me deixa muito feliz.
Não era uma felicidade de posse, mas a emoção de se sentir valorizado.
— Obrigado por confiar em mim.
Alice sentiu o nariz arder de emoção. Afastou as mãos dele, brincando:
— Chega de sentimentalismo. Já chorei demais por hoje. Termine de arrumar a cama que eu vou fazer companhia para a vovó.
Dito isso, saiu correndo do quarto.
No quarto da idosa, Alice sentou-se na beira da cama e segurou a mão da senhora.
— Vovó.
A luz amarelada iluminava o cabelo branco da idosa. Ela sorriu com doçura. — Alice.
Alice sussurrou no ouvido dela: — Por que a senhora ainda não dormiu?
— O Ricardo te trouxe hoje, e isso me deixou muito feliz. Você deve ser uma moça muito boa, senão ele não te apresentaria a mim.
Alice paralisou por um instante. A idosa a chamara de
Ricardo
, não de Júnior.
Antes que Alice pudesse processar, a senhora continuou:
— Na verdade, eu guardo um segredo há muitos anos. Agora que você apareceu, quero te pedir um favor. Diga uma coisa ao Ricardo por mim.
Alice apertou a mão da idosa. — Pode falar, vovó.
— Diga a ele para parar de sentir culpa — a voz da senhora era cansada, mas firme. — Peça para o Ricardo viver a própria vida. Ele não deve ficar preso ao passado. Ele é um menino de ouro e merece encontrar a própria felicidade.
Alice arregalou os olhos, incrédula. — A senhora... a senhora sabe?
A idosa deu tapinhas na mão de Alice.
— Minha filha, meus olhos não enxergam e meus ouvidos falham, mas eu criei o Júnior. O cheiro dele, a estrutura das mãos, os hábitos... eu conheço meu neto.
— Todos esses anos que o Júnior não voltou, foi o Ricardo que cuidou de mim. Como eu não perceberia? — Sua voz embargou, mas ela se recompôs. — O Ricardo é um anjo. Ele mentiu para me poupar do sofrimento, eu sei. Ele cumpriu o papel de neto por todos esses anos, e sei que ele sofre em silêncio. Eu não quis desmenti-lo para não machucá-lo, mas quero que ele seja livre para ser feliz.
A idosa segurou firme a mão de Alice. — Alice, prometa que dirá isso a ele. Diga que eu não o culpo, nem culpo o destino. Eu só quero que ele fique bem. Tenho certeza de que o Júnior e o pai dele pensam exatamente a mesma coisa.
Alice sentiu o peito transbordar e as lágrimas caíram sem controle.