Capítulo 1: Esse canalha quer me matar
Alice Guimarães nunca imaginou que teria a chance de renascer!
O que ela menos esperava era que o momento do seu renascimento fosse justamente nesta noite: a noite em que Bernardo Fontes, após cair em uma armadilha e ser drogado, voltava para casa e a usava como o seu único "antídoto".
Na sua vida passada, ela permitiu que ele fizesse o que quisesse. Mas, desta vez...
— Solte-me! Bernardo, se você não quiser terminar o dia como um inválido, me solte agora mesmo!
O homem, tomado por uma arrogância frenética, congelou por um instante. Ele apertou a cintura fina e delicada de Alice, rosnando:
— Alice Guimarães? Parar agora? O que você pensa que eu sou?
Os dois se encararam com olhares gélidos. Alice tinha os olhos cheios de fúria e um ressentimento profundo pelo homem sobre ela.
Lindo, misterioso, refinado. Dono de uma linhagem poderosa e de uma habilidade incomparável. Ele era um dos solteiros mais cobiçados de São Paulo, o herdeiro da prestigiosa família Fontes e o líder mais implacável da nova geração. Ele era, também, o homem com quem Alice insistira desesperadamente em se casar.
— Saia de cima de mim!
Alice desviou o olhar cheio de ódio e desferiu um chute.
Em sua vida anterior, ela foi uma boba apaixonada. Do tipo que teve um fim trágico e miserável. Agora que o destino lhe dera uma nova chance, se ela não mudasse o rumo das coisas, seria uma completa idiota.
Bernardo, ágil, segurou o tornozelo de Alice e disse friamente:
— Alice! Não se esqueça de que somos casados. Este é o seu dever como esposa.
Sua voz estava rouca e sombria, claramente sofrendo sob o efeito da droga em seu sistema.
Alice sentiu uma pontada súbita de dor no peito. Sim, ela era a esposa de Bernardo, mas em seis meses de casamento, eles nunca haviam dividido a cama. Se ele não tivesse sido enganado por alguém esta noite, por que voltaria para a mansão e a usaria apenas para se aliviar?
Na vida passada, por amá-lo, Alice permitiu que ele a moldasse e a usasse como bem entendesse. Ela amou esse homem por dez anos. Em toda a alta sociedade de São Paulo, quem não sabia que Alice Guimarães era obcecada por Bernardo Fontes? Para se casar com ele, ela chegou a implorar para que os patriarcas das duas famílias selassem uma união por conveniência.
Bernardo se casou com ela apenas para cumprir o desejo dos mais velhos.
Pobre Alice, que para agradá-lo, escondeu sua verdadeira personalidade e se dedicou a ser uma esposa virtuosa, gentil e submissa. Durante três anos de casada, ela foi como uma sombra dedicada, apenas para morrer tragicamente nas mãos da "amante" dele, Isadora Matos. Pior ainda, a família Guimarães foi à falência devido às armações de Isadora; seus pais terminaram na miséria e seu único irmão foi induzido ao vício e teve uma morte prematura.
Ela não aceitava morrer daquela forma!
Para sua surpresa, renasceu no auge de sua fase mais submissa, seis meses após o casamento, exatamente nesta cena humilhante.
A Alice renascida não sentia nada além de ódio pelo homem diante dela. Com força, ela mordeu o pescoço de Bernardo. O gosto metálico do sangue misturou-se ao desejo que pairava no ar.
A dor fez Bernardo recuperar um pouco da consciência. Ele olhou para Alice, sem entender. Um segundo atrás, essa mulher parecia aceitá-lo com devoção; como ela pudera se tornar outra pessoa no último instante? Foi como se, em um segundo, o anjo tivesse se transformado em demônio.
— A-li-ce Gui-ma-rães!
Ele sibilou o nome dela, quase incapaz de conter a fúria.
Alice puxou o cobertor para cobrir seu corpo quase nu e declarou friamente:
— Durante a constância do casamento, se o marido ignora a vontade da esposa e a força a manter relações sexuais, isso se configura como estupro marital.
Bernardo ficou atônito. Alice o amava há dez anos e, desde o casamento, vivia para agradá-lo. Esta noite, ele estava disposto a tocá-la; ela não deveria estar agradecida? Como ela ousava chutá-lo da cama e ainda lhe dar uma lição de direito?
Sentindo sua dignidade desafiada, o homem se levantou e a olhou de cima para baixo:
— Está fazendo joguinho?
Alice soltou uma risada de desprezo. Quanta audácia. Quem deu a ele tanta confiança? Ah, ela se lembrou: foi ela mesma, na vida passada.
Ser a sombra desse canalha teve um preço alto demais. Agora que voltou, ela tinha que focar em dinheiro e carreira, não nele.
Respirando fundo, ela disse pausadamente:
— Se eu não quero, você é um estuprador. E eu posso te denunciar!
— Alice, pare de fingir inocência. Nestes seis meses, você me seduziu inúmeras vezes. Não era exatamente isso o que você queria?
— Não importa se eu estou fingindo ou não. O fato é que você não vai me tocar agora. Se não consegue se segurar, vá atrás da sua querida Isadora.
Alice abandonou a postura gentil de sempre e rebateu com agressividade. Bernardo, com o rosto lívido, segurou o braço dela com força:
— Espere!
Fosse por raiva ou pelo efeito da droga, seus olhos estavam vermelhos e o sangue fervia em suas veias.
— Agora há pouco você estava fingindo timidez e pedindo para eu ir devagar, e agora quer me denunciar por estupro? Alice, você é uma hipócrita. Estou te avisando: guarde seus joguinhos longe de mim.
— Que cara narcisista — Alice murmurou. Ela pegou seu robe na cabeceira e se preparou para ir ao banheiro.
— Você me xingou? — O homem se aproximou subitamente. Sua voz era rouca e carregada de desejo enquanto ele agarrava o pescoço dela.
Alice suspeitou, por um momento, que aquele canalha realmente quisesse matá-la.
— Me denunciar? Tente, se tiver coragem.
O tom baixo e carregado de deboche a fez gelar. Se fosse a Alice de antes, ela se entregaria de bom grado. Mas nesta vida? Ele que continuasse sonhando.
Alice não escondeu mais suas habilidades e usou as técnicas de autodefesa que aprendera na vida anterior.
— Alice Guimarães!
— Bernardo, você não tem vergonha na cara!
— Diga isso de novo! — Ele se inclinou e mordeu o pescoço dela.
A dor aguda fez Alice praguejar internamente. "Esse cara é mesmo um animal!". No segundo seguinte, ela se desvencilhou com agilidade, correu para o banheiro e trancou a porta.
Bernardo passou a língua pelos lábios, seus olhos profundos e ardentes brilhando com um reflexo estranho. Ela mudara. Não era mais aquela mulher previsível e sem graça. Ele olhou para baixo, sentindo o desejo que não cedia, encarou a porta do banheiro e, por fim, vestiu-se e saiu do quarto.
Meia hora depois.
O som das sirenes ecoou pela Mansão do Horizonte, assustando a todos. Quando dois policiais apresentaram suas credenciais e entraram no hall da vila, os empregados ainda estavam em choque.
Alice, agora vestida com uma roupa de casa bege bem conservadora, chorava indignada diante dos oficiais:
— Meu marido tentou me forçar contra a minha vontade.
No andar de cima, Bernardo, vestindo um robe de seda preto, ouviu aquilo e sentiu o rosto escurecer como ferro. Atrás dele, um homem jovem e elegante cobria a boca, tentando desesperadamente conter uma crise de riso.
Alice lançou um olhar para os dois no andar de cima. O que o Rafael estava fazendo ali? Ah, claro. Dr. Rafael, o médico prodígio do hospital de São Paulo, o melhor amigo e médico particular de Bernardo. Como ela se recusou a ser o "remédio", ele chamou o Rafael.
Foram rápidos. Ela pretendia pegá-lo em flagrante. Embora Bernardo tivesse um status lendário em São Paulo, diante das denúncias dramáticas de Alice, ele teve que suportar meia hora de sermão dos policiais.
Se não fosse por Rafael, que temia que Bernardo perdesse a paciência com as autoridades e interveio explicando que tudo não passava de um "mal-entendido", a situação teria sido ainda mais sombria.
O todo-poderoso herdeiro dos Fontes acabara de sofrer a maior humilhação de sua vida. Ele jamais deixaria a culpada sair impune. Alice mal havia terminado de fazer metade das malas quando foi prensada contra a parede por ele.
Um beijo feroz e avassalador a atingiu. Alice mordeu a língua do homem com força. Em instantes, o gosto metálico e doce do sangue inundou sua boca.
— O quê? O Dr. Rafael está perdendo o jeito e não conseguiu anular o efeito da droga, senhor Fontes? Vai ter que insistir em um "amor forçado" com a esposa que você tanto despreza?