— Está tudo bem, já passou. — Ricardo a abraçava apertado, com a voz trêmula.
— Desculpe, eu cheguei tarde.
Clara tremia nos braços dele, incapaz de proferir uma palavra. Bernardo estava caído no chão, com os olhos ainda fixos na direção de Clara.
O anestésico fazia efeito rapidamente; sua consciência dissipava-se aos poucos, mas seus lábios ainda se moviam, repetindo as mesmas palavras:
— Perdão... o bebê...
Os membros da equipe de resgate aproximaram-se, algemaram-no e o colocaram em uma maca.
— Ele será levado para um hospital psiquiátrico — disse Ricardo em voz baixa. — O laudo pericial já foi feito: esquizofrenia acompanhada de paranoia e delírios obsessivos. Ele passará o resto da vida lá.
Clara não olhou para trás.
Ela se apoiou no peito de Ricardo, ouvindo o som de Bernardo sendo arrastado e seus delírios tornando-se cada vez mais fracos.
O crepúsculo mergulhou totalmente no horizonte. No salão arruinado do navio, restaram apenas as luzes da equipe de resgate e o som das ondas batendo contra o casco.
— Vamos para casa — disse Ricardo suavemente.
Clara assentiu, apertando a mão dele. Ao cruzar a porta da cabine, ela lançou um último olhar para aquele transatlântico.
Ele flutuava silencioso no mar, como uma lápide gigante e fendida, enterrando dez anos de um assassinato cometido em nome do amor.
À frente, as luzes do barco de resgate iluminavam a superfície do mar. Parecia um caminho. Um caminho em direção a uma nova vida.
Três meses depois.
Ala de isolamento de um hospital psiquiátrico.
Bernardo estava sentado junto à janela, olhando para fora com um olhar vazio. Uma enfermeira entrou para lhe dar a medicação; ele a aceitou mecanicamente e a engoliu.
— O tempo está ótimo hoje, não acha, Senhor Bernardo? — disse a enfermeira com doçura. — Gostaria de dar um passeio no jardim?
Bernardo não respondeu. Ele baixou a cabeça e olhou para as próprias mãos.
Aquelas mãos que um dia receberam o cachecol de Clara, que tricotaram para ela um agasalho de lã todo torto, que a abraçaram forte na neve quando ela estava com febre.
E que também, com as próprias mãos, a acorrentaram e a jogaram nas profundezas do mar. Que mataram o filho deles.
— O bebê... — ele murmurou.
A enfermeira suspirou e retirou-se. A porta se fechou, e ele ficou sozinho novamente no quarto.
Bernardo encolheu-se lentamente, escondendo o rosto entre os joelhos.
Ele teve um sonho. No sonho, Clara ainda vestia o uniforme do colégio e sorria para ele sob a luz do sol:
— De agora em diante, você será o meu ajudante, eu vou te proteger!
E ele respondia:
— Então eu também vou te proteger.
O sonho acabou. A luz do sol que entrava pela janela era agressiva. Ele levantou a mão para cobrir os olhos. Lágrimas escorreram entre seus dedos, silenciosas.
Desta vez, não haveria mais ninguém para enxugar suas lágrimas.
Ele passaria o resto dos seus dias na fronteira entre a loucura e a lucidez, relembrando solitário a mulher que ele mesmo matara e o filho que nunca chegou a ver a luz do dia. Até o fim de sua vida.
Do outro lado do mar...
Clara estava no convés do barco de resgate, com a brisa soprando seu cabelo curto. Ricardo a abraçou por trás, apoiando o queixo no topo da cabeça dela:
— No que está pensando?
— Em nada — disse ela suavemente. — Só sinto que... o tempo hoje está maravilhoso.
O sol inundava o mar, fazendo a água brilhar intensamente. Parecia um oceano de diamantes lapidados.
Ou como a luz que volta a brilhar depois que as lágrimas secam. Ela se virou, abraçou Ricardo e escondeu o rosto em seu peito.
— Obrigada.
— Pelo quê?
— Por ter me encontrado.
Ricardo a apertou mais forte e beijou seus cabelos:
— Bobagem.
Ao longe, gaivotas voavam em círculos com gritos límpidos.
O mar era de um azul profundo.
O céu era vasto.
E o barco deles navegava em direção ao lugar onde o sol nasce.
FIM