O meu marido arriscou a vida no campo de batalha para salvar um alto oficial e, desde então, sua carreira decolou até ele ser promovido a Coronel. Ele estabeleceu nossa casa na capital, mas a mulher que ele levou consigo foi a viúva de seu irmão, Isabela Rios.
Segurando nosso filho pequeno nos braços, eu o puxei chorando: "Leve-me com você!"
Ele tocou o topo da minha cabeça com a ponta dos dedos, usando um tom de voz tão suave que parecia uma lâmina.
"Bia, seja boa e espere por mim em casa. Assim que eu me estabelecer em Brasília, voltarei imediatamente para buscar você."
Na minha vida passada, acreditei nessa mentira e esperei amargamente por vinte e cinco anos no interior. O que recebi em troca foi vê-lo como um homem poderoso na capital, enquanto Isabela exibia-se orgulhosamente como a esposa do diretor.
Eu, por outro lado, envelheci precocemente, consumi minha juventude e, carregando um corpo cheio de dores e doenças, morri sem nunca vê-lo cumprir sua promessa.
Ao abrir os olhos novamente, percebi que havia renascido quinze anos atrás. Nesta vida, ninguém mais vai me manipular!
Ignorando os gritos de Dona Adelaide, peguei meu filho e fui atrás dele na cidade, disposta a fazer um escândalo no Conselho Tutelar e na Delegacia da Mulher!
Aquele homem sem caráter e aquela víbora sonsa... a juventude, a dignidade e a vida que me devem, eu farei com que paguem mil vezes mais!
...
O vento do início da primavera ainda trazia o rigor do inverno. Beatriz Farias trazia a última tigela de mingau da cozinha quando sua mão escorregou e a tigela se espatifou no chão. O mingau espalhou-se por todo o piso, e o vapor subiu no ar frio por um segundo antes de desaparecer.
"Sua inútil e desperdiçadora!"
O tapa de Dona Adelaide veio mais rápido que o xingo. Beatriz sentiu o golpe no rosto e seu corpo cambaleou, fazendo com que seus joelhos caíssem exatamente sobre os cacos da tigela quebrada.
Doiu. Uma dor excruciante. Mas ela não se mexeu, nem soltou um som.
Dona Adelaide, porém, não parou por aí. Ela agarrou Beatriz pelos cabelos e a puxou do chão com força.
"O que pensa que está fazendo ajoelhada aí? Querendo se fazer de vítima para quem? Vou te avisar: hoje você não come nada! Como eu fui acabar com uma nora tão azarada e gastadeira como você!"
Beatriz foi forçada a erguer a cabeça, sentindo o couro cabeludo arder. Olhando para aquele rosto amargo da sogra, por um momento ela pensou que ainda estava sonhando.
Ela não havia morrido exatamente no momento em que os sinos da virada do milênio tocaram? Ela estava encolhida em um vão debaixo de um viaduto, dando seu último suspiro em meio à doença, fome e frio.
Não. Isso não era um sonho. Era quinze anos atrás, o terceiro ano após a suposta "morte em serviço" de seu marido!
Ela havia acabado de chegar do trabalho na roça, faminta após um dia inteiro, e tentou tomar um pouco de mingau, mas suas mãos tremiam tanto que não conseguiu segurar a tigela. Na vida anterior, ela também ficou ali ajoelhada sobre os cacos, com os joelhos sangrando e o estômago vazio, ouvindo os insultos da sogra a noite toda. No dia seguinte, teve uma febre que durou três dias. Ninguém cuidou dela; ela sobreviveu sozinha por pura teimosia.
Depois de se recuperar, continuou trabalhando, sendo insultada e sendo humilhada. Foram vinte anos assim. Quando morreu, ainda carregava as cicatrizes daquele dia nos joelhos.
Beatriz baixou o olhar e viu o sangue escorrendo. Vermelho vivo, não aquele tom escuro e sem vida de sua vida passada. Ela ainda era jovem. Seu sangue ainda estava quente.
"Está olhando o quê? Ficou ofendida agora?" Dona Adelaide deu um beliscão forte em sua cintura. "Com a comida contada, cada boca a mais é um prejuízo. Você acha que as coisas caem do céu? Augusto se foi e nós dois estamos passando necessidade, e você ainda quer comer do bom e do melhor?"
Beatriz não respondeu, apenas levantou-se lentamente.
Após terminar de xingar, a sogra voltou para a sala de jantar. A porta não estava totalmente fechada, e Beatriz podia ver seu filho, Thiago, sentado à mesa com ela. Cada um tinha um prato cheio de arroz branco com carne de porco e macarrão, comendo com gosto. Quanto ao mingau, nem sequer era servido à mesa; era dado ao cachorro da casa.
Ela observou a luz amarelada que vinha da sala e as sombras da avó e do neto projetadas na parede.
O que ela estava fazendo nesta mesma hora na vida passada? Estava na cozinha roendo um pedaço de pão duro e seco, chorando enquanto comia. Naquela época, ela se culpava pela morte de Augusto. Achava que, por ter insistido em suas cartas para que ele a levasse para a cidade, ele teria se arriscado demais para conseguir uma promoção e acabado morrendo em uma operação.
Pensando agora, que tolice. Na verdade, Augusto Amaral nunca morreu.
Ele usou aquela operação como desculpa para fazê-la acreditar que ele era um herói falecido. Assim, ela nunca mais o procuraria e ele poderia viver uma vida de luxo na capital com Isabela Rios. Ele a deixou para trás para cuidar da mãe dele, criar o filho e pagar dívidas morais que ela nem conhecia.
E ele? Tornou-se um homem influente em Brasília, enquanto Isabela desfrutava do status de esposa de um figurão. Infelizmente, Beatriz só descobriu isso antes de morrer, quando já era tarde demais.
Sons de talheres batendo nos pratos vinham da sala. A sogra brigava com Thiago por não comer direito, e o menino respondia de volta. Uma cena barulhenta que parecia comum a qualquer família do vilarejo. Mas só Beatriz sabia quanta podridão se escondia sob aquele barulho.
Ela entrou na sala. Ao abrir a porta, a sogra arqueou as sobrancelhas: "Quem deixou você entrar?"
"Tenho algo a dizer."
"Diga amanhã. O que está fazendo andando por aí a esta hora da noite?"
Beatriz a ignorou, caminhou até a mesa e olhou para o filho. Um garoto de dez anos, com o rosto sujo de gordura, cutucando o último pedaço de carne no prato.
"Você já terminou?"
O filho olhou para ela de relance e não disse nada.
"Estou perguntando se você já está satisfeito."
"O que você tem a ver com isso?"
Beatriz assentiu. Nada. Ela não tinha mais nada a ver com aquilo.
Se ao menos tivesse pensado assim na vida passada... Naquela época, ela pensava que o menino tinha perdido o pai e era um coitado, então precisava dar o dobro de amor. O resultado? Assim que o pai o levou para a cidade, ele mudou de lado imediatamente e a expulsou de casa, dizendo: "Você não é minha mãe! Minha mãe se chama Isabela."
Ela deu meia-volta e saiu. Ao cruzar o portão do quintal, Beatriz olhou para o céu estrelado. Na noite em que morreu, o céu estava igual. Frio, seco e com poucas estrelas.
Encolhida debaixo do viaduto, ela se perguntou o que tinha ganhado com aquela vida.
O que ela ganhou? Ganhou ser usada como animal de carga a vida inteira, ser vendida e ainda agradecer ao comprador, e, por fim, morrer pelas mãos do próprio filho. Que destino "maravilhoso".
Ela tentou sorrir, mas o sorriso não veio.
Dona Lúcia, a vizinha, estava prestes a fechar o portão quando a viu parada ali: "Bia? Por que está aí fora sozinha?"
Beatriz virou-se e retirou o bracelete de prata do pulso. Era o presente de casamento que sua avó lhe deixara.
"Dona Lúcia, eu gostaria de lhe vender este bracelete. Pode me dar o dinheiro?"
"Para que você quer dinheiro a essa hora?"
"Eu preciso comprar uma passagem de trem para Brasília."