— Beatriz! Por que?! Por que eu nunca consigo te vencer?!
— Por que, depois de tudo o que eu planejei, o Henrique não consegue ficar ao meu lado como um cachorro fiel?
— Se eu te matar... se eu te matar, tudo volta ao normal!
Gritando, ela avançou contra Beatriz. O som da lâmina perfurando a carne ecoou, mas Beatriz não sentiu dor. Ela estava protegida pelos braços de Gabriel. Ao abrir os olhos, percebeu que não era Gabriel quem fora atingido.
Henrique estava ali, caído, sangrando. Soraia gritava sobre ele:
— Por que?! Por que você a protege mesmo depois de ela ter se casado com outro?! Por que não pode ser o meu cachorro para sempre?!
Beatriz não conseguia se lembrar de muito depois disso. As imagens eram flashes: Soraia sendo contida pelos seguranças; Henrique coberto de sangue, ora pedindo perdão, ora desejando "felicidades ao casal".
Felizmente, o golpe não atingiu nenhum órgão vital. Henrique sobreviveu, embora com ferimentos graves. Dias depois, Beatriz foi visitá-lo no hospital.
— Se veio pedir desculpas, não precisa — disse ela, olhando para o rosto pálido dele. — Um pedido de desculpas não apaga o dano causado. Um ato de heroísmo não apaga cem erros.
— O Gabriel é grato por você ter me salvado, por isso ele não destruiu totalmente a sua empresa. É tudo o que ele pode fazer por você.
Com os olhos vermelhos, Henrique perguntou:
— Se pudéssemos voltar no tempo... você teria se casado comigo de verdade, não teria?
Beatriz pensou por um momento. A resposta era sim, mas, infelizmente, o mundo não é feito de "ses".
— Eu tenho que ir, Henrique. Adeus.
No dia em que Beatriz e Gabriel deixaram o país, ela entendeu o que significava "não destruir totalmente". Gabriel deu a Henrique o tempo de respirar, mas a empresa estava soterrada em dívidas.
Henrique foi cercado por cobradores na sede da empresa e teve as pernas quebradas por eles. Sem saída e sem dignidade, ele saltou do alto do edifício, encerrando sua jornada como uma mancha no asfalto.
Caminhando de mãos dadas com Gabriel em uma rua estrangeira, Beatriz ainda sentia que tudo parecia um sonho.
— E a Soraia? Ela foi condenada? — perguntou ela.
Gabriel não respondeu de imediato. Ele a conduziu até a frente de um circo itinerante, muito popular naquela região. No centro do picadeiro, um homem guiava uma criatura estranha, uma "mulher-cachorro" que saltava arcos de fogo e fazia truques de obediência.
Beatriz lembrou-se de histórias antigas, sobre pessoas cujas peles eram mutiladas e substituídas por peles de animais para servirem de entretenimento grotesco. Ela sentiu um calafrio e Gabriel a tirou dali, levando-a em direção à praia.
— A Soraia? Talvez ela esteja rastejando como um cão agora, pagando pelos pecados dela dia e noite.
— Mas isso não importa mais. O que importa é que você tem uma vida nova.
— Uma vida que pertence apenas a você, Beatriz.
FIM