— O que você... disse? — A voz de Dante parecia espremida em sua garganta.
O médico repetiu: — A senhora está grávida de aproximadamente cinco a seis semanas.
Cinco a seis semanas. Ele virou-se bruscamente para Clarice, com os olhos assustadoramente vermelhos: — O filho é dele?
Clarice apoiou-se na pia para se manter firme. Pálida, mas com um olhar de uma serenidade absoluta, respondeu: — Sim. Eu e o Paulo vamos nos casar em breve. É perfeitamente normal eu estar grávida dele.
— Normal? — Dante subitamente riu, uma risada rouca e quebradiça. — Clarice Costa, você é minha esposa! O único homem que você pode amar sou eu, e o único filho que pode carregar é o meu!
— A sua esposa morreu há três anos — Clarice o encarou. — Morreu sob o seu chicote, morreu queimada pelo sol, morreu quando você mesmo arrancou a alma dela do corpo. A mulher aqui agora é Anna Coleman, noiva de Paulo.
— Cale a boca! — Dante agarrou os ombros dela com tanta força que parecia querer esmagar seus ossos. — Esse filho não pode nascer! De jeito nenhum!
— Você não se atreva! — Clarice soltou-se bruscamente e protegeu o ventre. — Se tocar no meu filho, eu me mato e levo você junto!
— Morrer juntos? — Dante a fitou com uma obsessão frenética. — Ótimo, então morreremos os três. É melhor do que ver você ter o filho de outro e se casar com outro homem! — Ele virou-se para a porta e gritou: — Alguém venha aqui!
Dois empregados entraram correndo. — Segurem-na — ordenou Dante, gélido. — Digam ao Dr. Lauro para preparar o centro cirúrgico. Agora.
— Dante! Você enlouqueceu! — Clarice tentou fugir, mas foi contida pelos empregados. Ela lutou desesperadamente, arranhando as mãos deles, mas foi inútil.
Dante a observava com uma ponta de dor nos olhos, logo substituída pela crueldade: — Clari, não me culpe. Esta criança... não pode ficar.
Ele fez um sinal. Um terceiro empregado aproximou-se com uma seringa. A agulha brilhava fria sob a luz. — Não—! — A boca de Clarice foi tapada com força. O líquido gélido entrou em sua veia. Sua visão começou a turvar. A última imagem que viu foram os olhos profundos e sombrios de Dante.
Ao despertar, estava em uma mesa de cirurgia. Clarice percebeu que seus pulsos e tornozelos estavam amarrados e seu corpo coberto por lençóis estéreis. Dois médicos preparavam os instrumentos ao lado.
— A paciente acordou — disse um deles. — A anestesia ainda não passou totalmente, aplique mais um pouco.
— Não... por favor... — A voz de Clarice era um sussurro quase inaudível. Ela tentava lutar com todas as forças, sentindo as tiras de couro ferirem sua pele. — Meu filho... eu imploro...
O médico, indiferente, pegou a máscara de anestesia. No instante em que a máscara ia tocar seu rosto—
ESTRONDO—!!
A porta do centro cirúrgico foi arrombada! Um grupo de policiais armados invadiu o local, liderados por Paulo.
— Clari! — Paulo viu Clarice na mesa e seus olhos se injetaram de sangue no mesmo instante. Ele avançou, chutou o médico que segurava a máscara e soltou rapidamente as amarras dela.
— Paulo... — Clarice agarrou a camisa dele, tremendo. — O bebê... meu bebê ainda está aqui?
— Sim, está tudo bem. — Paulo a abraçou apertado, com a voz embargada. — Desculpe, eu demorei...
A polícia já havia controlado a sala. Dante foi prensado contra a parede por dois policiais, com os braços algemados nas costas. Ele lutava para erguer a cabeça, fixando o olhar em Clarice nos braços de Paulo.
— Clarice! Você é minha! Só pode se casar comigo—!
Paulo colocou-se à frente de Clarice e o encarou com desprezo: — Dante Ferraz, você está sendo preso por cárcere privado, lesão corporal grave e tentativa de homicídio doloso. Guarde suas palavras para o juiz.
— Eu não fiz nada! — Dante urrava. — Eu fiz para o bem dela! Esse filho é uma aberração—!
Os policiais o arrastaram para fora à força. Os gritos foram sumindo aos poucos. Clarice encostou-se no peito de Paulo e, finalmente, perdeu todas as forças.
Uma semana depois, Tribunal de Justiça de Jiangcheng.
O tribunal estava solene. A plateia estava lotada: antigos subordinados de Dante, velhos amigos da família Costa. Dante estava no banco dos réus, vestindo o uniforme de presidiário e algemado. Ele não olhou para ninguém, exceto para Clarice, que estava no banco das vítimas.
Beatriz também foi trazida a julgamento. Estava ainda mais magra do que no porão, com um olhar vago que só brilhava com ódio ao ver Clarice. As provas eram irrefutáveis: sequestro, tortura, agressão, crimes financeiros... uma lista interminável de atrocidades.
O juiz leu a sentença com voz firme: "O réu Dante Ferraz, condenado por cárcere privado, lesão corporal, tentativa de homicídio e crimes contra o sistema financeiro, é sentenciado a 20 anos de reclusão." "A ré Beatriz, condenada por homicídio qualificado, falso testemunho e fraude, é sentenciada à prisão perpétua."
O martelo bateu. O som seco encerrou aquele capítulo sombrio. Ao ser levado, Dante olhou para Clarice uma última vez. Era um olhar impossível de descrever — loucura, ressentimento, desespero e uma ponta de um amor doentio e distorcido. Clarice sustentou o olhar com serenidade e depois desviou-se para sempre.
Um ano depois, Oslo.
Clarice estava sentada no sofá, segurando nos braços uma bebê de dois meses. A menina tinha cabelos castanhos cacheados e olhos que lembravam muito os de Paulo, mas o biquinho que fazia ao dormir era a imagem de Clarice.
Na cozinha, ouvia-se o chiado do bife na frigideira e Paulo cantarolando uma melodia fora de tom.
— O papai está estragando a comida de novo — Clarice sussurrou para a bebê. — Não é, pequena Luana?
A bebê soltou um ganido alegre, agitando as mãozinhas. Paulo apareceu com os pratos; o bife estava um pouco passado, mas a apresentação estava impecável. Ele tirou o avental, sentou-se ao lado de Clarice e beijou-lhe a testa e, em seguida, a bochecha da filha.
— Recebi uma carta de Jiangcheng hoje — Paulo tirou um envelope do bolso. — O Dante escreveu para você da prisão.
Clarice pegou o envelope e, sem sequer abri-lo, jogou-o diretamente na fragmentadora de papel ao lado. A máquina girou, transformando o papel em confetes minúsculos.
— Não quer saber o que ele disse? — perguntou Paulo.
— Não é mais importante — Clarice encostou a cabeça no ombro dele, observando a filha adormecida. — Estamos bem agora. Isso basta.
Paulo a abraçou com força, encostando o queixo no topo de sua cabeça. Lá fora, as cerejeiras de Oslo floresciam. O sino da igreja ao longe dobrou, de forma pacífica e suave.
Tudo havia terminado. E tudo estava apenas começando.
FIM