A fumaça dançava entre nós, e o cheiro forte de tabaco preenchia o quarto. Beatriz tossiu levemente, mas não se moveu.
Ela me encarava com uma mistura de incredulidade e uma mágoa que parecia querer transbordar.
"Você mudou muito, Thiago. Onde está aquele homem que cuidava de mim com tanta paciência?".
Eu dei uma tragada profunda e soltei a fumaça lentamente, olhando para o teto.
"Aquele homem morreu no altar, Beatriz. Ou talvez tenha morrido nos anos em que foi tratado como um capacho descartável. O Thiago de agora não tem tempo para nostalgia".
Ela se levantou da cama e caminhou até mim.
O roupão leve se abria levemente a cada passo, mas meu olhar permanecia gélido, focado apenas no brilho da brasa do cigarro.
Eu a via como uma estranha tentando encenar uma peça de teatro cujo roteiro eu já havia rasgado.
Ela estendeu a mão e tocou meu rosto, forçando-me a olhá-la nos olhos.
"Thiago, você sabe... depois que você partiu, eu sofri de verdade. Nestes últimos dois anos, não houve um segundo sequer em que eu não pensasse em você".
"Naquele dia, você fugiu como se eu fosse um monstro. Foi só naquele instante que percebi que não consigo viver sem você. Tentei te ligar, te mandar mensagens... mas você me ignorou, me bloqueou em tudo".
"Eu sei que você me odeia, e eu entendo. Foi erro meu, eu te decepcionei. Mas me dê só mais uma chance, por favor... deixe-me compensar tudo o que fiz".
Ela me olhava com cautela, os olhos cheios de uma expectativa desesperada. Ao notar que meu corpo não reagia ao seu toque e que meu olhar permanecia indiferente, uma névoa começou a cobrir seus olhos, transformando-se em lágrimas que escorreram e caíram no meu colarinho.
Ao ver meu silêncio, ela começou a desmoronar emocionalmente.
"Thiago, eu juro que não imaginei que as coisas chegariam a esse ponto. Você realmente não sente mais nada por mim?".
"Você disse que nunca me deixaria!".
As lágrimas agora jorravam sem controle. Foi a primeira vez que vi Beatriz, a poderosa Dra. Beatriz, tão vulnerável e em pedaços.
Dizem que o choro de uma mulher bonita é capaz de desarmar qualquer homem, despertando o desejo de protegê-la.
Mas, naquele momento, eu não senti absolutamente nada. Nem pena, nem raiva, apenas um vazio absoluto.
"Saia", eu disse com a voz seca.
"O quê?". Ela parou de soluçar por um segundo, achando que tinha ouvido errado.
"Saia do meu quarto, Beatriz. Agora".
Ela me agarrou com mais força, os dedos cravando na minha pele.
"Não! Eu não vou a lugar nenhum até você me perdoar! Thiago, olha para mim! Eu tive o bebê, eu passei por tanta coisa sozinha...".
"Sozinha?", soltei um riso amargo e a afastei com firmeza. "Você teve o Julian, não teve? O seu 'melhor amigo' inseparável. Por que não vai pedir colo para ele?".
A menção ao nome dele pareceu um choque elétrico. Ela balançou a cabeça freneticamente.
"O Julian não significa nada! Foi um erro, uma confusão... eu percebi tarde demais que era você quem eu amava!".
Eu apaguei o cigarro no cinzeiro com uma calma deliberada. Cada movimento meu era calculado para mostrar que ela não tinha mais poder sobre mim.
"Beatriz, amar alguém não é uma conveniência que você ativa quando se sente solitária ou quando o seu plano principal falha. Você me usou por sete anos como um porto seguro enquanto se aventurava com outro. Agora que a realidade bateu à porta, você quer voltar?".
Caminhei até a porta do quarto e a abri totalmente, apontando para o corredor vazio e silencioso do hotel.
"Sabe qual é a diferença entre nós? Você ainda vive naquele passado onde eu era o seu servo. Eu já vivo em um futuro onde você é apenas um nome em um contrato de negócios que terminou".
Ela se levantou devagar, o roupão desalinhado, o rosto manchado de rímel e lágrimas.
Ela parecia pequena, uma imagem que contrastava totalmente com a CEO arrogante que eu conheci.
"Você vai se arrepender disso, Thiago", ela sussurrou, tentando recuperar um resto de dignidade.
"Pode ser", respondi sem olhar para ela. "
Mas prefiro me arrepender de estar longe de você do que morrer aos poucos estando ao seu lado".
Ela passou por mim e saiu.
Fechei a porta e passei a tranca.
O silêncio que se seguiu foi o som mais doce que ouvi em anos.
FIM