Rafael olhou para Viviane, com o uniforme do hospital psiquiátrico ainda no corpo, e ficou em alerta.
"O que você está fazendo aqui?"
Viviane entrou sorrindo, a voz carregada de uma sombra que não se escondia mais.
"Eu disse que, se eu não tiver paz, não vou te deixar em paz."
Dito isso, Viviane agarrou uma faca e avançou em direção a Mara.
"Mara, você me fez perder tudo. Hoje eu vou te mandar para o inferno junto com o seu pai."
Mas no momento em que a faca estava prestes a tocar Mara, uma silhueta se lançou à frente. Dois dedos fecharam com força ao redor do punho da lâmina.
O fio afiado rasgou a palma de Rafael. O vermelho vivo foi escorrendo pelos dedos, caindo gota a gota no chão.
Viviane encarou Rafael, e a raiva nos seus olhos queimou ainda mais forte.
"Rafael, Mara te odeia e ainda quer a sua morte. Por que você ainda a protege?"
Rafael ergueu os olhos para Mara com uma expressão de dor que ia além do físico.
"Mara, desde o dia em que você entrou na minha casa, eu fiz uma promessa. Disse que ia te proteger."
"Cumpri."
Mal terminou de falar, Viviane deu um chute com toda a força no estômago de Rafael.
"Então vão morrer juntos."
Viviane puxou a faca e foi em direção a Mara de novo.
Rafael reuniu o que restava das suas forças e se jogou contra Viviane, empurrando-a com tudo.
"Enquanto eu estiver aqui, não vou deixar você chegar perto de Mara."
Viviane olhou para Rafael com os olhos vermelhos de ódio, e soltou uma risada cruel.
"Rafael, você é a pessoa mais digna de pena nesse mundo. Mesmo que se mate para protegê-la, ela nunca mais vai olhar para você."
Rafael olhou para Viviane, que estava encostada na janela, e então para Mara.
"Mara, dessa vez vou te proteger de verdade."
Dito isso, Rafael reuniu as últimas forças que tinha e se jogou contra Viviane com tudo.
Ouviu-se um estrondo. O vidro se partiu, e Viviane foi arremessada para fora.
Mara correu até a janela para olhar.
A faca que estava na mão de Viviane havia se cravado no próprio peito dela.
Morreu na hora.
Mara se virou rapidamente para Rafael.
Ele estava sentado encostado na parede, olhando para Mara com um olhar que carregava uma ternura que não tinha mais para onde ir.
"Mara, consegui. Dessa vez não te menti."
Mara olhou para Rafael, que mal tinha fôlego, e sentiu como se uma pedra enorme estivesse pousada sobre o peito, sufocando.
Mara olhou para o frasco de remédio sobre a mesa, e mesmo assim foi pegá-lo.
Ela se agachou na frente de Rafael e foi levar o comprimido até a boca dele.
Rafael ficou imóvel por um instante, e então os olhos se encheram de uma luz que parecia conter todas as estrelas.
"Mara, eu sabia que você não conseguia me soltar."
O canto da boca de Rafael esboçou um sorriso. Ele tentou, com dificuldade, levantar a mão para tocar o rosto da pessoa à sua frente.
Mas a força estava sendo roubada de dentro dele, pouco a pouco, e ele já não conseguia nem manter os olhos abertos.
As memórias de tudo que havia vivido foram surgindo diante dele, e Rafael pareceu enxergar de novo a Mara de seis anos atrás.
Ele tentou desesperadamente alcançar a mão dela, mas a pessoa à frente continuava correndo, cada vez mais longe.
"Mara, não vai embora."
Depois de dizer aquela última frase, a respiração de Rafael foi ficando mais lenta, até parar.
Rafael havia morrido.
O comprimido que Mara ainda não havia conseguido dar a ele ficou ali, quieto na palma da sua mão.
Naquele momento, o peito dela também começou a doer.
Ela não sabia se a dor era por ela mesma, ou pelo homem que estava à sua frente.
Quando Théo a encontrou, ela estava sentada assim, imóvel, de frente para Rafael.
Com o comprimido ainda na mão.
Rafael morreu de insuficiência cardíaca. Depois disso, o grupo que ele havia construído entrou em declínio.
Mara ficou se recuperando no país por um bom tempo, antes de voltar para o exterior.
Assim que chegou, foi direto ao cemitério visitar o pai.
Foi arrancando as ervas daninhas em volta do túmulo, uma por uma, sem parar.
"Pai, Viviane morreu. Rafael também foi, por causa do coração. As pessoas que fizeram mal a você receberam o que mereciam."
"Só que, não sei por quê, o meu coração está um pouco triste."
Antes que terminasse de falar, um buquê de girassóis apareceu na frente do túmulo.
Mara se virou com espanto e encontrou o olhar claro e tranquilo de Théo.
"É porque você é diferente deles."
"Se você fosse fria e egoísta como eles, você não seria você."
Mara ergueu o rosto. A luz do sol atravessava Théo e caía diretamente sobre ela.
"Obrigada."
Théo deixou um sorriso abrir no canto da boca.
"Se quer me agradecer, volta logo para o laboratório. Você sabe o quanto é assustador para um instituto ter a pesquisadora principal sumindo no meio de uma coletiva de lançamento?"
Ao ouvir aquilo, Mara se levantou de um salto e saiu andando rápido.
"Você falou agora que eu me lembrei da encrenca que aprontei."
Théo olhou para a silhueta apressada de Mara, e o aperto que havia ficado no peito por todo aquele tempo finalmente afrouxou.
Ele abaixou os olhos para a foto do pai de Mara na lápide.
"Eu não sou o Rafael. Vou provar com cada ação que sou capaz de protegê-la de verdade."
【Fim】