Em seguida, veio o açoitamento.
Quando o chicote atingiu o corpo de Bernardo, cada marca de sangue parecia ainda mais vívida sob a chuva.
O sangue escorria por sua camisa branca, manchando o chão.
A chuva intensificava-se. Observando golpe após golpe e cada nova ferida, a alma de Soraia sentiu uma leve hesitação.
Ela começou a girar em círculos, inquieta. Percebendo a agitação espiritual, o abade ordenou que trouxessem um incensário, onde cravou varetas de incenso grossas e curtas, acendendo-as imediatamente.
A fumaça densa espalhou-se, mas a chuva insistia em apagar o fogo.
O abade, em pânico, trocou o incenso e usou um guarda-chuva para protegê-lo enquanto acendia novamente.
No momento em que as chamas pegaram, a névoa de sândalo atingiu o olfato de Soraia, deixando-a sonolenta.
Logo, o som hipnótico dos cânticos preencheu o ar. O monge movia as contas de seu rosário, recitando o Mantra do Renascimento.
Bernardo, exaurido pela febre, pelos choques e pelo arrastamento, já não tinha mais forças.
Quando a névoa atingiu seu ápice, Soraia fechou os olhos. Sentiu uma força colossal a puxando.
Ao abrir as pálpebras, deparou-se com Bernardo, que a olhava com um êxtase infinito.
— Soraia! Soraia, você pode me ver? — ele gritou, transbordando alegria. Soraia não respondeu; apenas olhou para os pés dele. Foi então que Bernardo percebeu que ele também estava flutuando.
— Soraia, me perdoe. Eu vou com você agora, está bem? Ela continuou em silêncio, desviando o olhar. Bernardo, desesperado, suavizou a voz: — Soraia, olhe para mim, por favor... Faz tanto tempo que não te vejo. Sinto tanto a sua falta.
As últimas palavras foram ditas entre soluços.
Soraia finalmente o encarou, com um tom de voz gélido:
— Não venha me procurar. Eu não quero te ver.
Dito isso, ela se virou para escapar da atração da fumaça, mas Bernardo agarrou seu braço.
— Não! — rugiu o abade, gesticulando no vazio.
— Não podem se tocar! Solte-a agora!
Bernardo soltou-a imediatamente, com os olhos inundados de lágrimas:
— Soraia... foi minha culpa não ter te protegido, permitindo que você sofresse tanto...
Soraia o interrompeu com repulsa:
— Bernardo Peixoto, meu único desejo é que você passe o resto da vida consumido por doenças, sobrevivendo neste mundo sem conseguir o que quer, incapaz de viver e proibido de morrer.
Bernardo ficou paralisado. Antes que pudesse falar, uma força poderosa o arrancou dali.
Ele viu Soraia afastar-se cada vez mais, até dissipar-se no vazio.
O rosto de Bernardo era a própria imagem do desespero; ele tentou limpar as lágrimas, mas elas eram incessantes.
Suas pernas fraquejaram.
Ele quis correr, segurar a mão dela e dizer o quanto a amava, mas seus pés pareciam feitos de chumbo.
Ele soltou um rugido de agonia vindo das profundezas da alma, um som de tristeza e remorso sem fim.
Encolheu-se no chão, abraçando a própria cabeça como uma criança indefesa.
— Por que? Por que...?
— perguntava-se, sem obter resposta. Ele sabia que a perdera para sempre.
— Pronto. O mantra fez efeito e você a viu. Acabou — disse o abade.
Os amigos de Bernardo o levantaram do chão, mas ele parecia ter perdido a alma, mantendo os olhos fixos no ponto onde ela desaparecera.
A chuva diminuiu, e Bernardo desmaiou subitamente. Em meio aos gritos, chamaram a emergência.
Em apenas um mês, o outrora poderoso Bernardo Peixoto desapareceu do mapa.
Seus negócios desmoronaram e ele acabou confinado a um leito de hospital, sobrevivendo por sondas.
Após o colapso, ele ficou permanentemente acamado, com hemiplegia e paralisia facial, perdendo totalmente a autonomia.
Suas mãos tremiam tanto que ele não conseguia comer, sujando toda a cama.
Bernardo tornou-se um ancião frágil, com o rosto coberto de cicatrizes — algumas causadas por ele mesmo com uma faca de frutas em momentos de delírio.
Na maior parte do tempo, ele agia como um louco, repetindo apenas um nome:
"Soraia."
No fim do mês, os fundos para seu tratamento acabaram e ninguém apareceu para renová-los. Bernardo foi jogado nas ruas.
Ele sobrevivia cavando a terra ou revirando lixo, exalando um odor insuportável.
Sempre que tentava se aproximar de alguém, era espancado brutalmente.
No rigor de um inverno gelado, Bernardo finalmente sucumbiu às doenças e ao frio.
Seus ossos secos não foram reivindicados por ninguém, sendo enterrados e descartados em uma vala comum.
Com a chegada da primavera, cães vira-latas, atraídos pelo cheiro, devoraram o que restava do cadáver anônimo.
Sob o céu azul vibrante da estação, uma garça branca finalmente abriu as asas, iniciando uma vida inteiramente nova.
FIM