Acabara de confirmar a gravidez quando a voz do bebê ecoou em minha mente.
“Mamãe, eu não quero nascer”.
Achei que estivesse ouvindo vozes e, confusa, levei a mão ao ventre. A voz melancólica do pequeno surgiu novamente.
“Neste exato momento, o homem que deveria ser meu pai, Ricardo, está no terceiro andar acompanhando o parto da ex-mulher”.
“Se eu nascer, herdarei o seu albinismo e serei desprezado por ele. Na vida adulta, serei perseguido e humilhado pelos meus dois meio-irmãos”.
“Não quero repetir essa história de novo”.
Ao ouvir aquilo, tentei relaxar meus nervos tensos. Ricardo e eu não éramos apenas o primeiro amor um do outro; nós nos reencontramos e nos casamos após o divórcio dele. Ele sempre disse que meus cabelos brancos me faziam parecer um anjo e que só conseguia dormir sentindo o perfume dos meus fios.
Como ele poderia odiar nosso bebê por ser como eu? Além disso, a ex-mulher de Ricardo vivia no exterior. Como ela poderia estar dando à luz neste mesmo hospital?
Tentei confortar o bebê em meu ventre, quase como se fosse uma brincadeira.
“Mas a mamãe vai te proteger”.
O bebê pareceu reagir com amargura.
“Desde que me conheço por gente, você não passou de uma lápide fria. Como vai me proteger?”
Lembrei-me da fraqueza que vinha sentindo ultimamente, a qual eu atribuía à gravidez. Minha mente estalou e, cambaleando, corri em direção ao terceiro andar do hospital.
Ao chegar em frente ao centro cirúrgico, vi Ricardo, sempre tão contido, andando de um lado para o outro com o rosto tomado pela ansiedade.
Minhas pernas fraquejaram e quase caí, precisando me apoiar na parede. A porta se abriu e o médico entregou o recém-nascido nos braços dele.
“É um menino. Três quilos e seiscentos”.
Ricardo o recebeu com delicadeza, irradiando o orgulho de ser pai.
“Garotão, você quase matou sua mãe de preocupação”.
Havia reclamação em suas palavras, mas seus olhos transbordavam um carinho e um sorriso impossíveis de esconder. Aquela era a cena que eu imaginei viver quando descobri a gravidez. Não achei que a veria tão cedo.
Só que a protagonista não era eu.
Dei alguns passos para trás e o barulho chamou sua atenção. Ele levantou o olhar com irritação, como se estivesse pronto para dar uma bronca em quem quer que tivesse incomodado seu precioso filho. Ao me ver, ele congelou.
Meu celular tocou e eu atendi mecanicamente.
“Sua idiota, por que ainda não voltou para fazer meu jantar? Quer me matar de fome?”
“Hoje meu pai não está em casa, então sua máscara de madrasta malvada finalmente caiu, não é?”
“Quando ele voltar, vou contar que você me maltrata...”
Os xingamentos do meu enteado, Léo, ecoavam pelo corredor. Ricardo entregou o bebê nos braços da babá que já haviam contratado. Ele caminhou lentamente em minha direção e perguntou, franzindo a testa.
“Você saiu? Quem está cuidando do Léo?”
Soltei uma risada amarga enquanto as lágrimas desciam sem controle. Eu queria gritar, queria avançar sobre ele. Havia um vulcão pronto para explodir em meu peito, mas ele se extinguiu instantaneamente com aquela pergunta.
“Choro, choro... Você só sabe chorar!”
Ele mostrou seu descontentamento e deu uma explicação superficial.
“A Letícia achava que o Léo se sentia muito sozinho. Ela só quis dar a ele um irmão de sangue, do mesmo pai e mãe”.
“Eu não estou te traindo, precisa ficar desse jeito?”
Olhando para o relógio, ele me apressou com impaciência.
“O Léo não come se não for a sua comida. É melhor você voltar logo para casa”.
Nesse momento, a porta do centro cirúrgico se abriu novamente. Ele se adiantou preocupado para segurar a mão de Letícia, com os olhos cheios de ternura.
“O bebê é saudável, a cara do Léo quando era pequeno”.
“Apenas se recupere, eu cuido do resto”.
Enquanto os via se afastar, eu me senti uma intrusa, um estorvo naquela cena. A voz cheia de desdém do bebê surgiu novamente.
“Agora você acredita no que eu disse?”
“Eu não quero nascer. Marque logo a cirurgia e me tire daqui”.