Eu me lembro perfeitamente daquela noite de tempestade. Letícia me procurou, fingindo pânico.
— Bia, o Ricardo sofreu um acidente de carro vindo te procurar! Vá rápido para este endereço que te mandei.
Sem questionar por que ele não estava em um hospital, peguei um táxi às pressas para um canteiro de obras isolado.
Chamei por seu nome, desesperada. Em vez de Ricardo, vi apenas homens com sorrisos sinistros se aproximando. Meus gritos de agonia foram abafados pelos trovões que rasgavam o céu.
Soltei uma risada gélida na sala de reuniões.
— Ricardo, você não vivia me perguntando por que eu terminei com você e fugi anos atrás? Esta é a razão.
Os papéis escorregaram das mãos de Ricardo. A dor e a descrença em seus olhos tentavam encontrar os meus.
— Bia... eu não sabia que você tinha passado por isso! Se eu soubesse...
— Se soubesse, o quê? — interrompi com desdém. — Teria rompido com a sua preciosa família? Teria vingado a morte dos meus pais?
Ele pareceu ligar os pontos finalmente. Por que, naquela época, o pai dele vivia dizendo que eu não servia para ele.
Por que Letícia tinha as chaves de sua casa e "coincidentemente" o salvou.
Por que o pai dele disse que uma mulher implacável como ela era a ideal para os negócios da família.
Ricardo agarrou Letícia, que estava paralisada.
— Você me disse com todas as letras que a Bia tinha me traído! Você me alimentou com ódio por ela todos esses anos! Por quê? Você era a melhor amiga dela! Por que destruí-la assim?
Vendo que o jogo tinha acabado, Letícia soltou um riso amargo e se desvencilhou dele.
— Por quê? Você amava a Beatriz só porque ela tinha um sobrenome influente e podia andar de igual para igual com você! Já que ela tinha uma família melhor que a minha, eu a destruí. Já que você a amava por ser "pura", eu tratei de manchá-la.
Ela se virou para mim, com um olhar carregado de veneno.
— Beatriz, você tinha tudo: berço e o namorado perfeito. Por que não guardou isso só para você? Por que ficava ostentando sua felicidade na minha cara? Cada vez que você sorria, minha inveja crescia. Você nasceu com um defeito físico, por que diabos tinha que ter uma vida melhor que a minha?
Eu a encarei, incrédula. Só agora percebia o quão sombria era a mente daquela mulher.
Quando todos zombavam de mim na escola, ela ficou ao meu lado; por isso a chamei de melhor amiga.
Eu compartilhava minhas alegrias achando que ela ficaria feliz por mim, sem saber que cada palavra selava o destino trágico dos meus pais.
A polícia entrou na sala naquele momento.
— Quem é Letícia?
Só então o pânico a atingiu. Ela agarrou a manga do terno de Ricardo, implorando.
— Ricardo, eu sou mãe dos seus dois filhos! Você não pode deixar que me levem. Se eu for presa, a vida deles acaba!
Ricardo respirou fundo e olhou para mim com esperança.
— Bia, agora você sabe de tudo. Eu não tive nada a ver com o que aconteceu no passado. Já faz tanto tempo... Você não poderia, por consideração a mim, fazer um acordo e perdoar a Letícia? Eu juro que passarei o resto da vida compensando você!
Soltei um riso sarcástico e liguei um monitor. O vídeo mostrava Letícia instruindo Léo a colocar veneno na minha comida.
— Ela matou meus pais e agora tentava matar a mim e ao meu bebê! — gritei. — Ricardo, de onde você tira audácia para pedir "consideração"? Você queria que a linhagem dos Su fosse extinta e que eu simplesmente ignorasse?
Ao ver as imagens, Ricardo desferiu um tapa violento no rosto de Letícia.
— Você vivia dizendo que a Bia maltratava o Léo... É assim que você educa seu filho? Como pode ser tão diabólica?
Enquanto Letícia era levada algemada, Ricardo ficou em silêncio. Quando fiz menção de sair, ele me barrou.
— Bia, agora que a verdade apareceu, você pode voltar para casa comigo, não pode? Eu prometo que você será a rainha daquela casa. Não vou mais mimar o Léo.
Gabriel soltou uma risada de puro deboche.
— Eu se fosse você, Ricardo, faria um teste de DNA primeiro para ver se o Léo é realmente do seu sangue.
Enquanto Ricardo paralisava com a dúvida, Gabriel me amparou com delicadeza e me conduziu para fora.
— O que você quis dizer com aquilo? — perguntei curiosa, já no corredor.
Ele deu um toque carinhoso no meu nariz.
— Anos atrás, para garantir que o Ricardo casaria com ela, a Letícia não mediu esforços... com outros homens também.
Fiquei sem palavras. Minha "melhor amiga" era muito mais calculista do que eu jamais imaginei.
Não soube quando Ricardo voltou para casa. Sob a pressão financeira de Gabriel, o império de Ricardo ruiu rapidamente e ele enfrentou a falência.
Ouvi dizer que ele expulsou Léo de casa e se entregou ao fundo do poço. Ele tentou me procurar no Grupo Su diversas vezes, mas nunca mais passou da porta principal.
Como os negócios de Gabriel eram focados no exterior, decidi ir embora com ele. No aeroporto, fui interceptada por Ricardo uma última vez.
Ao contrário da minha fuga anterior, desta vez olhei firmemente em seus olhos.
— Ricardo, eu não te amo mais. E nunca mais voltarei a amar.
Sem olhar para trás e ignorando seu rosto pálido e derrotado, segui Gabriel para o portão de embarque. Meses depois, soube que Ricardo parou diante do altar da família e perguntou às cinzas do pai:
— Era este o resultado que você queria? Você nunca entendeu que eu não consigo viver sabendo que perdi a Beatriz para sempre.
Ele deixou o isqueiro cair, e a mansão dos Ricardo foi consumida pelas chamas, transformando tudo em cinzas.
Três anos depois, na Mansão Lu, no exterior.
Uma criancinha, com cabelos brancos como a neve iguais aos meus, corria alegremente em minha direção. Com sua vozinha doce, ele gritou:
— Mamãe! Te amo, mamãe!
Eu o peguei nos braços e sorri, finalmente conhecendo a verdadeira felicidade.
FIM