Para que a heroína pudesse completar sua conquista com sucesso, o Sistema forjou a minha morte. Quando finalmente abri os olhos novamente, seis anos haviam se passado.
Eu estava de pé no meio da rua, sem um centavo no bolso. Enquanto o casal principal já vivia o seu "felizes para sempre", eu acabava de escapar de um incêndio, tão deplorável que tinha perdido até um dos meus sapatos. Em um estado de total desorientação, enviei uma mensagem para Bernardo.
"Você... poderia vir me buscar?"
O telefone tocou de volta quase instantaneamente. Mas a voz que atendeu não era a de Bernardo. Uma criança ficou em silêncio por um instante e, fingindo indiferença, disse:
"Ah, mais uma fingindo ser a minha mãe."
1
Mas ele veio. Um pedestre gentil informou a ele a minha localização exata. Do outro lado da linha, ouvi sua respiração travar por um segundo. A voz era doce e infantil, e ele desligou sem hesitar.
"Chego logo."
Devolvi o celular emprestado ao pedestre e agradeci em silêncio. Quando era jovem, uma febre alta destruiu minhas cordas vocais e, desde então, nunca mais consegui falar.
Pouco tempo depois, um carro parou diante de mim. Um garotinho pulou do veículo e, ao ver o meu rosto, seus olhos brilharam por um momento. Com a expressão séria, ele me observou discretamente. Seu olhar pousou no meu pé descalço. Eu estava em frangalhos, suja, coberta de cinzas e fuligem. Afinal, eu acabara de fugir das chamas.
Ao abrir os olhos, fui arremessada seis anos no futuro. Meus dedos se contraíram em um gesto nervoso; senti um súbito constrangimento. No entanto, fingi que nada estava errado e usei a linguagem de sinais:
"Não tive a intenção de incomodar vocês."
"Pode me emprestar um pouco de dinheiro? Eu irei embora imediatamente."
Seis anos se passaram, e o casal protagonista já tinha sua vida perfeita. Até o meu próprio filho agora chamava outra pessoa de mãe. No meio dos sinais, lembrei que Théo não entendia a linguagem de sinais.
Pedi o celular do motorista emprestado para digitar o que precisava, mas Théo, visivelmente descontente, me puxou para dentro do carro. Estávamos no pico do trânsito; achei que sua irritação fosse por causa das buzinas dos carros atrás de nós. Ele virou o rosto para a janela, em silêncio, então mostrei a tela do celular para ele.
Com o rosto sério, Théo perguntou com toda a solenidade do mundo:
"De quanto dinheiro você precisa?"
Digitei: "Mil reais." Théo encarou as palavras por um tempo e disse, incerto:
"Dez milhões?"
Minha vista escureceu por um segundo. Arregalei os olhos em choque e balancei as mãos freneticamente negando. Théo franziu os lábios, sua voz carregada de infantilidade:
"Não é o suficiente?"
"Eu não tenho tanto dinheiro aqui, mas quando chegarmos em casa, peço ao papai para te dar."
Comecei a digitar no celular desesperadamente. Ele, porém, empurrou o aparelho para longe, com uma voz abafada e manhosa:
"Tem muitas palavras que eu não conheço. Não sei ler isso."
Quantas palavras uma criança de seis anos realmente conhece? Agora pouco ele entendeu um conceito complexo como "emprestar dinheiro", mas agora fingia não distinguir "reais" de "milhões".
Desisti, frustrada. Olhando para baixo, notei que Théo estava com os sapatos trocados e as meias de cores diferentes. Será que ele saiu com tanta pressa assim? Senti um aperto no coração, apertei os lábios e apontei para os pés dele, tentando avisá-lo.
Mas ele interpretou errado. Inclinou a cabeça e perguntou:
"Você quer dar a mão?"
Ele fez uma careta, como se fosse um grande sacrifício, mas estendeu a mãozinha em minha direção.
"Tudo bem, vou deixar você segurar um pouquinho, só desta vez."
2
Bernardo era exatamente assim quando criança. Naquela época, eu vivia na casa dele; de início, ninguém dava valor à "pobre mudinha". Ele havia sido sequestrado quando pequeno, e seus pais morreram naquele incidente. O velho Senhor Cavalcante, preocupado com o trauma do neto, permitiu que ele escolhesse um companheiro entre várias crianças da elite da capital.
E Bernardo, no meio de tantas crianças barulhentas e agitadas, escolheu a mim: desajeitada, lenta e silenciosa. Graças a isso, a Família Paixão também acabou sendo beneficiada pela influência dos Cavalcante.
Só mais tarde descobri que Bernardo me escolheu naquele dia porque eu era a mais quieta. Eu não fazia barulho.
Em uma noite de tempestade, pouco tempo depois de me mudar para a mansão, o som dos trovões me acordou. Então, ouvi batidas na porta. Ao abrir, vi Bernardo segurando seu cobertor, com o rosto rígido, dizendo pausadamente:
"Você está com medo dos trovões?"
Eu olhei para ele confusa, prestes a balançar a cabeça negando. Mas ele segurou a minha cabeça e disse, de um jeito pouco natural:
"Entendi. Então, por hoje, vou fazer o sacrifício de te acompanhar."
... Que bobo. Ele realmente achava que eu não percebia que, na verdade, era ele quem estava com medo?