— Eu vou te transferir o dinheiro do celular.
Théo me encarava, agarrando minha mão com uma obstinação que não cedia.
Ele chorava de forma soluçante, quase sem fôlego, balançando a cabeça negativamente.
— Não é isso. Você me mandou uma mensagem pedindo para eu te transferir duzentos reais. Naquele dia, depois da escola, eu fugi escondido e esperei por você na ponte por muito tempo. Você mentiu para mim, você não veio.
Aquelas palavras confusas me fizeram lembrar do que Bernardo mencionara nas mensagens: alguém havia se passado por mim para dar um golpe e roubar duzentos reais de Théo.
Senti meus olhos arderem e, com a mão, enxuguei as lágrimas das bochechas macias do menino.
Se Isadora voltasse e visse isso, não seria bom. Ela era a nova mamãe que Théo gostava; eu não queria causar nenhum conflito por minha causa.
Talvez, no futuro, ela e Bernardo tivessem seus próprios filhos e ela tivesse seus próprios favoritos, mas o primeiro filho é sempre especial.
Eu não queria que, por minha causa, ela passasse a olhar para Théo com desprezo ou ressentimento.
Eu precisava partir antes que Isadora voltasse.
Mas, ao me virar, Théo se lançou sobre mim, abraçando uma de minhas pernas.
Engoli a amargura no peito, olhando impotente para o garotinho que se recusava a me soltar, quando ouvi um ruído à frente. Levantei o olhar, sentindo algo no ar.
Meus olhos encontraram um par de íris negras.
No final do longo corredor, alguém estava parado no topo da escada, exausto da viagem, com o sobretudo encharcado pela chuva forte.
A voz soou rouca.
— Aurora Paixão... como você pode ser tão cruel com uma criança?
A iluminação do corredor era fraca, deixando o rosto de Bernardo pálido e com um aspecto cansado.
Seu olhar estava fixo em mim, como se temesse que eu desaparecesse se ele piscasse por um segundo.
Naquelas pupilas escuras, transbordavam emoções que eu não conseguia decifrar — parecia uma tempestade reprimida por seis anos, que se transformava em uma hesitação cautelosa ao me tocar.
Fiquei estática no lugar, esquecendo-me de desvencilhar minha perna das mãos de Théo.
O tradutor ainda estava em minha mão; a voz mecânica e fria que acabara de soar parecia agora terrivelmente fora de contexto.
Bernardo subiu os degraus um a um, com a água da chuva escorrendo de seus cabelos e manchando o tapete com círculos escuros.
Ele parou diante de mim, seu corpo alto emanando uma umidade fria.
— Onde você pensa que vai? — ele perguntou baixo, com a voz completamente quebrada.
Em pânico, peguei o celular, querendo digitar que apenas pedira abrigo por uma noite e que sairia imediatamente.
Mas ele subitamente estendeu a mão e agarrou meu pulso.
Sua mão estava gelada, mas a força era surpreendente, tremendo levemente.
— Aurora, faz seis anos — ele disse com os olhos avermelhados, cerrando os dentes como se fizesse um esforço sobre-humano para se controlar —. Até quando você pretende se esconder de mim?
Eu paralisei.
Esconder? Eu não estava me escondendo.
Eu apenas... morri uma vez.
Olhei para ele e as lágrimas caíram sem aviso.
Ao me ver chorar, Bernardo soltou minha mão bruscamente, como se tivesse se queimado.
— Não chore... — ele levantou a mão desajeitado, querendo secar minhas lágrimas, mas hesitou no ar por causa da água em sua pele.
Théo também se desesperou.
Soltou minha perna e abraçou a coxa de Bernardo, protestando em voz alta:
— Papai, por que você está maltratando ela? Ela já é bobinha, e se você a assustar e ela fugir de novo?
Soluçando, digitei no celular: "Eu não me escondi de você. Eu achei que... você e Isadora estivessem juntos. Sinto muito por incomodar vocês". Mostrei a tela para ele.
Bernardo ficou paralisado por dez segundos inteiros.
— Isadora Bragança? Ele pronunciou o nome como se fosse algo inacreditável, com as sobrancelhas fortemente franzidas
— Quem te disse que eu estou com ela?
Apontei para fora, fazendo o gesto de um grande telão publicitário. Bernardo respirou fundo, parecendo oscilar entre a raiva e o riso.
— Ela é apenas a nova garota-propaganda contratada pelo Grupo Cavalcante! Apenas isso!
— ele explicou entre dentes.
—Se não fosse pelo fato de ela se parecer um pouco com você, ela não teria passado nem pela porta da empresa!
Olhei para ele atônita. Então... aquele futuro era mentira?
Bernardo não permitiu que eu fosse embora. Ele nem sequer se deu ao trabalho de trocar as roupas molhadas; ficou ali, montando guarda na porta, como se eu fosse evaporar caso ele se afastasse.
Théo não saía do meu lado por nada, insistindo em dormir abraçado ao meu braço à noite.
— Você não pode ir — o pequeno resmungou, com o rosto enterrado na curvatura do meu pescoço —. Você me deve duzentos reais e vai ter que pagar o resto da vida.
Acariciei a cabeça dele, resignada. No dia seguinte, Bernardo cancelou todos os seus compromissos para ficar em casa comigo. Ele me mostrou todos os documentos das investigações desses últimos seis anos. Aquele incêndio não fora um acidente; fora provocado deliberadamente pela Família Paixão para apagar os rastros do crime. A suposta "previsão do futuro" de Isadora não passava de uma mentira inventada para se aproximar de Bernardo.
— Eu coloquei a Família Paixão na cadeia — Bernardo disse sentado ao meu lado, com uma voz tão calma que chegava a doer —. Ninguém que participou daquilo escapou.
Ele se virou para mim, com um medo latente brilhando no fundo dos olhos.
— Rora, eu realmente achei que tinha te perdido para sempre.
Comecei a me readaptar à vida na mansão Cavalcante. Embora tudo fosse estranho, o carinho e a proteção de Bernardo e Théo me fizeram baixar a guarda gradualmente. Théo era, na verdade, uma criança muito teimosa; apesar de me amar muito, sempre fingia que estava fazendo um grande favor.
— Já que você não consegue falar, a partir de agora eu serei a sua voz — ele disse com o rosto sério e solene —. Se alguém te incomodar, você me avisa e eu mando o papai bater nele.
Eu ri e apertei suas bochechas gordinhas. Bernardo apareceu à porta em algum momento, observando nossa interação com um sorriso terno nos lábios.
— Hora do jantar — ele se aproximou, pegando minha mão naturalmente.
Sua mão era grande e quente, envolvendo a minha com firmeza. Eu não tentei me soltar, deixando que ele me conduzisse até a sala de jantar. Talvez aquele pesadelo sobre o futuro tivesse, enfim, terminado de verdade.
Isadora Bragança veio me procurar uma vez. Ela me olhou com uma mistura de incredulidade e inveja pura.