"Vamos. A gata nos leva." Letícia disse, seguindo.
Gatos pretos se camuflam à noite. Sem a lanterna, perderia.
A área era de reassentamento. Muitos alugavam.
Não era antigo, mas a iluminação era ruim. Só a rua principal tinha postes.
'
Irmã, o homem mau mora ali, térreo.
'
'
O cachorro mau está na gaiola no quintal. Assusta o Miau e humanos.
'
'
Mordeu a pata de outros gatos.
'
A gata preta ficou brava.
Letícia a pegou. "A irmã ajuda a se vingar."
Colocou a gata no ombro. "O filho mora no térreo da décima construção."
"Capitão César, sem luz, será que fugiu?" Douglas franziu a testa.
César olhou sombrio. "Não deve. Gosta de jogar, talvez foi com o dinheiro. Bata."
"Se não abrir, chame o síndico e o dono." César complementou.
Douglas entrou no quintal. O cachorro na gaiola levantou-se, latiu.
'
Burro, suma! Senão o Au Au morde!
'
'
Que cheiro bom? Veio do burro.
'
'
Não vá! Soltem o Au Au! O Au Au briga!
'
Os latidos altos não incomodaram os vizinhos. Devia latir sempre.
Letícia não entrou, foi até a gaiola. A lanterna revelou um vira-lata amarelo.
O filho maltratava a mãe, mas cuidava bem do cachorro.
'
Burro, não se aproxime! O Au Au é bravo! Se estender a mão, mordo!
'
Letícia baixou a mão, pegou um galho, bateu na gaiola. "Pare de latir. Seu dono está?"
Au au!
'
Burro entende o Au Au?
'
'
Está.
'
Não contarei que não está.
"Oficial César, pare de bater. Li Yong não está." Letícia chamou.
Douglas ligou para o síndico e o dono.
Doudou olhou chocado.
'
Como o burro sabe? O Au Au não disse.
'
Letícia não explicou, agachou-se. "Faz quanto tempo que seu dono não volta?"
'
O dono está.
'
Um dia.
Letícia não falou, mandou mensagem a César.
"Seu dono o levou à casa da vovó?"
'
Que vovó? É a velha. Dá comida para gatos burros, não para o Au Au. O Au Au não reconhece.
'
'
Não conto.
'
Fui. Roubei duas porções de frango da velha. Era gostoso. Mas o dono e a velha brigaram. Antes que o Au Au visse, o dono trouxe o Au Au de volta. O Au Au sentiu cheiro de sangue.
A velha esconde comida.
Doudou ficou bravo, rosnou para a gata.
A gata no ombro de Letícia rosnou de volta.
Letícia mandou a mensagem, recebeu resposta.
Sua expressão ficou séria.
"Seu dono trouxe algo?"
'
Não sei.
'
Trouxe uma tigela de pedra.
Com carne com cheiro de sangue.
O dono mau não deu ao Au Au, enterrou sob a árvore. Quando o Au Au sai, desenterra, come, esconde de novo. Se o dono achar, digo que foram ratos.
O Au Au é muito esperto.
Um cachorro que mente para proteger o dono.
"Obrigada." Para um cachorro agressivo, Letícia não ousou tocar, só bateu com o galho.
Depois, mandou mensagem.
César e Douglas ainda estavam por perto.
'
Obrigada por quê? O Au Au não disse.
'
Letícia sorriu, pegou o galho, foi até a única árvore.
A terra estava revolvida. Letícia escavou.
Doudou latiu bravo.
Au au!
'
Não tem nada! Por que cava?
'
'
O Au Au não disse! Como sabe?
'
'
Não roube a comida do Au Au! Soltem! O Au Au briga com a gata fedorenta!
'
Às vezes, animais, ao saber que humanos entendem, mentem. Mas os pensamentos não.
Doudou pensou que ela só entendia fala, não pensamentos.
Miau!
'
Irmã, o homem mau chegou!
'
Com o pensamento, Letícia viu uma figura com um pedaço de madeira. "Vadia, quem mandou se intrometer!"
Letícia desviou, a madeira atingiu a árvore.
A gata caiu, pulou no homem, arranhou. Logo, seus braços e rosto sangraram.
O homem tentou tirar a gata, sem sucesso.
A gata pulou, correu para Letícia. Letícia pegou o spray, borrifou nos olhos do homem.
O spray, comprado antes, sempre com ela, foi útil.
A noite foi quebrada por gritos e latidos.
César e Douglas correram. Douglas imobilizou o homem.
"Senhorita Letícia, machucou-se?" César perguntou, preocupado.