Ela chorava muito, com aquele choro que vem de dentro e não pede licença. O rapaz que a havia abandonado tinha encontrado alguém novo em outra cidade.
Ela chorava com o coração partido, e eu ouvia com toda a atenção do mundo.
Não sabia quem era ele. Ao redor de Isabela sempre havia rapazes bons, capazes. Mas sabia, com certeza, que não era eu.
Fiz de tudo para arrancá-la daquele choro. Caretas, palhaçadas, cada truque que eu tinha.
Igual a todas as outras vezes nos quatro anos anteriores.
Naquela noite, ela tinha bebido demais, e me abraçava igual a essa noite aqui.
Me perguntou:
— O mundo inteiro pode me abandonar. Você também vai?
Não respondi. Achei que ela não estava perguntando para mim de verdade. Era o álcool falando, nada mais.
Mas ela me olhou com firmeza e chamou meu nome.
— Rafael, você gosta de mim?
Senti o coração quase sair pelo peito. Segurei a emoção com toda a força que tinha e balancei a cabeça com vontade, dizendo que sim.
— Você vai me abandonar sem avisar?
Sacudi a cabeça com a mesma força. Não.
— Então chega de ser só amigo. Quero que você seja meu namorado.
Fiquei parado. Sem me mover, sem emitir som. Não conseguia acreditar que o que eu mais queria no mundo estava acontecendo bem ali, naquela noite, a última antes de nos formarmos e seguirmos caminhos diferentes.
Não me cabia na cabeça que a felicidade pudesse mesmo chegar até mim.
Ela se inclinou e me beijou. O calor dos lábios dela me disse que não era ilusão nenhuma.
Foi uma noite linda.
As memórias foram chegando uma atrás da outra, e aos poucos meu pensamento voltou para o presente.
Olhei para Isabela à minha frente. O tempo parecia não ter tocado nela. Estava tão bonita quanto sempre.
Mas eu já não era o mesmo de antes. Naquela noite de formatura, eu havia me tornado o porto seguro dela enquanto ela sofria por outro. E eu não queria que isso voltasse a acontecer.
Enxuguei as lágrimas dela com cuidado e a acalmei um pouco.
— Faz quanto tempo que não te chamo assim, de veterana. O que passou, passou. A gente já não é mais aqueles dois jovens de antes. Vai para casa. Amanhã tudo vai estar melhor.
Disse isso e a afastei do meu abraço com suavidade.
Ela pareceu recuperar um pouco a consciência. Ficou parada por um instante, arrumou a roupa, e foi embora devagar, sumindo pela chuva.
Voltei para dentro, tomei uma dose de algo forte, me forcei a não mais reviver o passado, e adormeci embalado pelo som da chuva batendo nas folhas lá fora.
Na manhã seguinte, a chuva da noite toda ainda não tinha parado.
Estava na calçada com o guarda-chuva aberto, esperando o carro.
De repente, um carro preto veio em disparada e freou forte bem na minha frente.
O vidro desceu. Um rosto bonito apareceu do outro lado.
— O que foi, Rafael? Entra logo. A gente vai se atrasar. Vai comigo para o trabalho.
Olhei para o sorriso dela e não tive como recusar. Abri a porta e sentei no banco do carona.
— Você ainda gosta de Amor em Dezembro?
Isabela perguntou do nada.
Levei um susto. Era de fato o meu filme favorito de todos os tempos.
— Ouvi dizer que voltou ao cinema. Na folga a gente vai juntos ver de novo.
Ela falou com os olhos na estrada, no ritmo tranquilo de quem está tendo uma conversa corriqueira com alguém íntimo.
— Deixa. Tenho coisa hoje à noite.
— Ah é? Rafael virou pessoa ocupada? Não ia te fazer trabalhar até tarde, não.
Isabela deu uma risada leve.
— É que minha família marcou um encontro às cegas pra mim. Preciso ir ver.
— Ah, tá.
Ela respondeu simples assim, e o resto do caminho até o trabalho foi em silêncio.
O dia arrastou, igual e sem graça, e passou.
Fui correndo para o restaurante e cheguei no lugar combinado.
Sentada à minha frente não estava a pessoa do encontro. Era Isabela.
— Isabela, o que você está fazendo aqui? O que você fez com a outra?
Ela sorriu com aquela expressão de quem acabou de pregar uma peça, cruzou as pernas com elegância.
— Falei para ela que sou sua ex-mulher, que você é um beberrão, que bate na esposa quando está bêbado, e ainda mostrei umas fotos nossas juntos.
— Ela foi embora na hora.
Fiquei sem reação. Soltei um suspiro.
— O que você quer, afinal?
Ela estendeu a mão para mim com um sorriso malicioso.
— Vim fazer um encontro com você. Olá, meu nome é Isabela, e hoje...
Cortei na hora.
— Para. Acha que eu não sei de nada?
— Isabela, eu não estou com cabeça para essa brincadeira. Chega.
Ela largou o sorriso. O rosto ficou sério de verdade.
— Não estou brincando, Rafael. Acho que a gente pode recomeçar. E quero começar por aqui, por esse encontro.
De repente, minha cabeça ficou completamente em branco.