Todo mundo ficou boquiaberto. Ninguém esperava que eu fosse capaz de dizer aquilo.
O clima no reservado foi ficando cada vez mais pesado.
— Rafael, você enlouqueceu?
Respondi com um sorriso frio.
— Com esse clima aqui, mesmo que eu não tivesse sugerido, vocês dois iam acabar num quarto assim mesmo.
— Rafael!
Isabela havia perdido o controle de vez.
Heitor foi até ela, colocou o braço em volta dos ombros dela, e enquanto a consolava, me encarou com raiva:
— Rafael, você foi longe demais. Pede desculpa para a Isabela agora.
Olhei para ele com uma frieza que eu mesmo não sabia que tinha.
— Isabela, você não queria reatar com ele? Então eu deixo o caminho livre. Assina os papéis do divórcio.
Isabela me fitou com intensidade.
— Você não vai se arrepender?
Soltei um riso curto pelo nariz e continuei encarando Heitor.
— Pode ficar tranquila. Não vou atrapalhar o mundo de vocês dois.
Heitor observava tudo de canto, com um sorriso discreto no canto da boca.
Tinha conseguido o que queria. Como não ia estar satisfeito.
— Tudo bem. Vou assinar. Mas não diga depois que se arrependeu.
— Tchau. E que nunca mais nos encontremos.
Disse isso, virei as costas e fui embora.
Naquele momento, senti um alívio que não esperava. Como se tivesse largado um peso enorme que carregava há tempo demais.
E nos dias que se seguiram, ela de fato desapareceu completamente da minha vida.
Sete anos de história, como se nunca tivessem existido. Até hoje.
De vez em quando ainda pensava nela.
Imaginava que provavelmente nunca mais nossos caminhos se cruzariam.
Mas um mês depois, numa determinada noite, ela apareceu na minha porta.
Era uma noite de chuva. Abri a porta e me deparei com aquele rosto bonito à minha frente.
A chuva havia encharcado o cabelo dela por inteiro. Ela soluçava baixinho, e as gotas no rosto dela me impediam de distinguir se eram lágrimas ou chuva.
Fiquei parado, olhando para ela. Então ela se jogou nos meus braços, e eu senti o cheiro forte de álcool na respiração dela.
— O que você veio fazer aqui?
Perguntei com frieza.
— Me desculpa, Rafael. Eu não consigo viver sem você. Terminei de vez com o Heitor.
— Você não sai da minha cabeça. Nem por um segundo.
— Eu sei que você deve me odiar. Mas eu não consigo deixar de pensar em você, em tudo que você fez por mim todos esses anos, em todo o amor que você me deu. Antes eu não sabia valorizar. Agora eu sei. Nesse mundo, você é a pessoa que mais me amou. Depois de você, ninguém vai me amar assim.
Ela falou sem parar, despejando tudo de uma vez: as culpas, o arrependimento, o desamparo.
Por dentro, eu não senti nada se mover.
Sabia exatamente o que eu era para ela. O plano B. A opção de reserva.
Nos momentos em que ela ficava sem ninguém, eu servia como passagem, uma ponte temporária para o que viesse depois.
— Deixa pra lá. Adianta alguma coisa dizer tudo isso agora? Eu não deixei de te dar chances. Mas você nunca me escolheu de verdade, nunca uma única vez.
— Eu te amei. Mas você não pode usar o meu amor como licença para me machucar sem limites.
Por dentro, havia uma tristeza que eu não conseguia nomear. Tristeza por mim mesmo, por ter me deixado valer tão pouco. E tristeza por ela, que só tinha chegado a essa conclusão tarde demais.
Com cuidado, afastei ela de mim. Disse que era tarde. Que o homem que um dia a amou como se fosse a única coisa que importava no mundo já não existia mais.
Olhando para ela naquele estado, senti meus olhos ficarem úmidos.
Sete anos. Depois de tudo isso, quem estava certo e quem estava errado já não importava mais.
Lembrei da primeira vez que nos vimos. Era uma tarde de sol aberto, com uma brisa leve que parecia mexer com algo dentro do peito da gente.
No meio do burburinho do campus, ela me guiava em direção ao bloco das repúblicas dos calouros.
Eu ia quieto atrás dela, olhando para aquela postura graciosa, para o cabelo solto caindo nos ombros, exalando um perfume suave. E fui me perdendo sem perceber.
Ela me acompanhou até o quarto e foi me explicando com paciência todos os procedimentos de entrada.
Naquele ano, eu era um calouro chegando pela primeira vez à faculdade. Ela estava um ano à minha frente e era responsável pela recepção dos novos alunos.
Juntei coragem, engoli a gagueira de nervoso, e pedi o contato dela.
Isabela sorriu com aquela leveza que me desarmava por completo, e me deu sem hesitar.
E ainda me contou que não era o primeiro a pedir naquele dia. Mas que só havia dado para mim.
Com o tempo, fui descobrindo que aquela veterana era conhecida no campus inteiro como a garota mais bonita e mais inatingível da faculdade.
O eu de então nem ousava se aproximar. Jamais imaginaria que um dia ela pudesse ser minha.
Na faculdade, as meninas bonitas sempre tinham pretendentes. No caso de Isabela, eram incontáveis.
Eu não tinha coragem de confessar o que sentia. Fiquei no papel de sombra discreta, guardando ela de longe, sem que ela soubesse.
No bar perto do lago, eu ficava sentado ouvindo os desabafos dela. Sobre os rapazes que a cortejavam, sobre os que a abandonaram.
Eu sempre passava a mão no cabelo dela e dizia que algum dia apareceria alguém de verdade, alguém que ficasse sem fazer barulho, só para cuidar dela.
Ela nunca me contou que o rapaz que a havia abandonado era Heitor.
E eu nunca lhe disse que o rapaz que ficava em silêncio cuidando dela era eu.
Conheci cada lado difícil dela. Segurei cada cansaço que ela não sabia carregar sozinha.
Achei que poderíamos continuar assim para sempre, como dois amigos que nunca precisavam de mais do que aquilo.
Até a noite da formatura. O mesmo bar de sempre. Ela tinha bebido demais.