Quando Gabriel chegou à casa dos Nogueira, Aurora estava sentada no sofá assistindo TV.
— Você voltou?
Carlos também olhou para ele:
— Gabriel, já chegou?
Gabriel entregou uma caixa de bolo para Aurora.
— Passei em frente àquela confeitaria que você gosta… trouxe um pouco pra você.
Aurora hesitou por um instante, antes de perguntar:
— E ele… como está?
Gabriel fez uma pequena pausa.
— Está estável… mas insiste em querer te ver.
Carlos soltou um resmungo frio.
— Ele ainda tem cara de pedir pra ver a minha filha? Já devia agradecer por ter salvado ela.
As palavras fizeram Aurora e Gabriel rirem.
Gabriel, apesar de tudo, ainda tinha um receio no fundo do coração—
de que Aurora pudesse voltar atrás por causa daquele golpe que Ricardo levou por ela.
Mesmo assim, respeitando totalmente a decisão dela, perguntou:
— Você quer ir vê-lo?
Aurora hesitou.
Mas acabou assentindo.
Um traço quase imperceptível de tristeza passou pelos olhos de Gabriel.
Carlos também interpretou aquilo errado.
— Você ainda está pensando nele? Ele não te machucou o suficiente?
Aurora percebeu o mal-entendido e explicou rapidamente:
— Não é isso.
— Eu não sinto mais nada por ele… e também não quero voltar atrás.
Ela suspirou levemente.
— Eu só acho que… isso precisa ter um fim.
— Ele ainda acha que eu vou perdoá-lo porque ele me salvou.
— Se eu nunca for vê-lo… ele vai continuar vivendo nessa ilusão.
— E, se continuar assim… quem sabe o que ele pode fazer no futuro?
Ela entrelaçou o braço no de Gabriel.
— Eu já estou com você.
— Não vou olhar para mais ninguém.
No dia seguinte—
Gabriel a levou ao hospital.
Ricardo ainda acreditava—
que, por ter salvado Aurora, seria perdoado.
Mas Gabriel já havia entendido—
apenas Aurora poderia acabar de vez com aquela ilusão.
Quando Aurora entrou no quarto—
Ricardo tentou se levantar imediatamente.
Mas, ao sentir a dor, voltou a se deitar, pressionando o ferimento.
— Auro… você veio…
Ele forçou a voz a soar mais fraca.
— Eu fiquei tão feliz…
Mas Aurora não demonstrou reação.
Apenas puxou a cadeira—
afastou um pouco da cama—
e se sentou.
— Você queria me ver. O que tem a dizer?
Ricardo olhou para Gabriel.
— Quero falar com você… sozinho.
Aurora olhou para Gabriel.
Ele assentiu.
— Vou esperar lá fora. Se precisar, me chama.
Assim que Gabriel saiu—
Ricardo tentou segurar a mão dela.
Mas Aurora desviou.
— Se não tem nada importante, eu vou embora.
A dor atravessou o olhar dele.
— Auro… você ainda não consegue me perdoar?
Aurora evitou encará-lo.
— Ricardo… eu sou grata por você ter me salvado.
— Mas isso não muda nada entre nós.
— Eu já disse várias vezes… acabou.
Ele ainda tentou insistir:
— Mas… a gente teve sentimentos, não teve?
Aurora respondeu sem olhar para ele:
— Teve.
— Eu te amei muito.
Ela fez uma pausa.
— Mas isso ficou no passado.
Então, finalmente, olhou diretamente para ele—
— Ricardo… você é oito anos mais velho que eu.
— Quando estava comigo… você pensava no nosso futuro?
— Ou só me usava… para lembrar da Lívia?
— Quando eu te contei sobre a gravidez…
— quando você escolheu o nome do nosso filho…
— você pensava em mim?
— Ou estava, mais uma vez… pensando nela?
A voz dela tremia levemente.
— Quando me enganava…
— quando continuava se envolvendo com ela escondido de mim…
— você pensava no que a gente tinha?
— Ou no passado de vocês dois?
Ela riu, amarga.
— Sentimento?
— Você ainda tem coragem de falar de sentimento?
— Se você tivesse… nem que fosse um pouco…
— não teria feito aquilo comigo…
— enquanto eu carregava o seu filho.
Ricardo ficou em silêncio.
Sem conseguir responder.
Depois de muito tempo—
só conseguiu dizer:
— Auro… fui eu que errei.
— Me perdoa…
Ao lembrar do filho—
as lágrimas de Aurora caíram.
Ricardo estendeu a mão, querendo enxugá-las.
Mas ela desviou.
— Ricardo…
Ela olhou para ele.
— Acabou.
— Acabou de verdade.
— Completamente.
Ela respirou fundo.
— Se… você já teve algum sentimento por mim… então, por favor… me deixe ir.
— O seu amor… é pesado demais.
— Eu não consigo carregar isso.
— Me deixa em paz.
Ricardo ficou olhando para ela.
A mão que havia se estendido— parou no ar.
E depois… recuou lentamente.
Depois de um longo silêncio— ele soltou um suspiro.
— Aurora… me desculpa.
Ele fechou os olhos.
— Pode ir.
A porta do quarto se fechou.
Aurora foi embora.
Ricardo ficou sentado na cama, imóvel.
Seu olhar permaneceu fixo na cadeira onde ela havia se sentado… por um longo, longo tempo.
— Me desculpa…
Ele murmurou.
Lentamente—
retirou o anel do dedo.
O anel de casamento.
O símbolo de tudo o que eles foram um dia.
E, naquele instante—
ele não conseguiu mais segurar.
Desabou em lágrimas.
Tudo…
tinha sido culpa dele.
Lívia estava certa.
Gabriel estava certo.
Aurora…
estava mais certa do que todos.
Eles chegaram àquele ponto…
por culpa exclusiva dele.
Depois de se recuperar—
Ricardo voltou para casa.
A casa estava vazia.
Mas, ao mesmo tempo…
cada canto parecia carregado de lembranças.
O silêncio…
pesava.
Ele subiu até o quarto do bebê.
Tudo ali…
tinha sido escolhido por ele e Aurora, juntos.
— Ricardo… você acha que nosso bebê vai ser menino ou menina?
Aurora perguntava, animada.
Ele a abraçava por trás.
— Não importa… eu vou amar de qualquer jeito.
— Então vamos comprar roupinhas? Que cor a gente escolhe?
Ela hesitava, indecisa.
Ricardo sorria e beijava seu rosto.
— Se quiser saber, eu peço pro médico ver.
Aurora balançava a cabeça.
— Não… vamos deixar o bebê nos surpreender.
Ela sorria.
— Azul, rosa, verde, amarelo… nosso bebê vai ficar lindo com qualquer cor.
A mão de Ricardo passou pelas fileiras de roupinhas limpas.
Lembrou-se— de como havia tirado tudo das mãos dela.
— Deixa isso comigo… você está grávida, não pode fazer essas coisas.
Ele havia colocado tudo na pia.
Aurora então o beijou no rosto, fazendo charme:
— Tá bom… eu vou tomar cuidado.
— Mas dizem que quando os pais preparam as coisas com as próprias mãos…
— o bebê cresce mais feliz.
Ele a ajudou a sentar no sofá.
— Então eu faço.
— Nosso bebê vai ser o mais feliz do mundo.
Ricardo ainda lembrava— da primeira vez que lavou aquelas meias minúsculas… tão pequenas que nem cabiam em três dedos seus.
Aquela emoção… de se tornar pai pela primeira vez.
Agora— ele pegou uma das roupinhas do armário.
E não conseguiu mais se segurar.
Caiu de joelhos no chão.
— Me desculpa…
— Me desculpa…
Mais tarde—
ele foi até o cemitério.
Levou doces que crianças gostariam…
e também um boneco—
que ele e Aurora haviam costurado juntos.
Colocou tudo com cuidado diante da lápide.
— Filho…
— me desculpa…
Sua voz tremia.
— Foi culpa do papai…
— O papai errou com você… e com a sua mãe…
Ele se ajoelhou diante da lápide— e chorou.
Sem controle.
Ele finalmente entendeu— que nunca soube reconhecer os próprios sentimentos.
Confundiu arrependimento com amor.
E se perdeu— em um passado que já deveria ter terminado.
Feriu Aurora.
Abandonou Aurora.
Aquela Aurora que só tinha olhos para ele…
— Me desculpa, filho…
— Quando o papai terminar de resolver tudo…
— eu vou até você, tá?
Sua voz estava quebrada.
— O papai foi quem mais errou…
— Eu vou pagar por isso…
— Vou expiar pelos meus pecados…
Ele permaneceu ali— por muito tempo.
Até que a noite caiu.
O funcionário do cemitério se aproximou.
— Senhor… já escureceu. Está na hora de ir.
Ao ver o estado dele—
disse com compaixão:
— Seu filho já se foi… cuide de você.
Na lápide— não havia nome.
Nem foto.
Apenas o silêncio… marcando que ali estava enterrada uma vida tão pequena.
Ricardo recusou ajuda.
E desceu a colina sozinho.
Devagar.
Ele sabia— não merecia piedade.
Porque foi ele mesmo… quem matou o próprio filho.