— O professor me pediu para te mostrar a universidade.
Gabriel tentou pegar a prancheta que Aurora carregava, mas ela se esquivou discretamente.
— Já está sendo um incômodo suficiente… se você tiver algo para fazer, pode ir. Eu consigo me virar sozinha.
Aurora recusou educadamente.
Gabriel percebeu a resistência dela.
Mesmo assim, pegou a prancheta com naturalidade.
— O experimento acabou de entrar numa nova fase, não preciso me apressar agora. Tenho tempo suficiente para te acompanhar.
Aurora, vendo a atitude atenciosa dele, pensou que fosse apenas por causa do pedido do pai.
— Eu não vou contar nada para o meu pai… se você tiver algo para fazer, pode ir mesmo.
Gabriel parou.
Virou-se para olhá-la.
— Por que você acha… que eu não estou aqui por sua causa?
Aurora não soube responder.
Apenas seguiu atrás dele.
Gabriel a levou por vários lugares que os estudantes de pintura frequentavam com frequência.
Quando ela parecia cansada, ele a levava para descansar — às vezes em um café, às vezes no gramado.
— Hoje foi muito obrigada…
Aurora ainda nem tinha terminado de falar—
— Cuidado!
A voz de Gabriel soou de repente.
Era dia de atividades dos clubes estudantis.
E eles estavam próximos da área do clube de skate.
Aurora viu—
uma prancha vindo em sua direção, fora de controle.
Por um instante… ela ficou completamente imóvel.
— Cuidado!
Gabriel a puxou para si.
Abraçou-a com força… usando o próprio corpo para protegê-la.
O estudante que vinha de skate caiu e começou a pedir desculpas repetidamente.
Aurora queria perguntar se Gabriel estava bem—
mas ele falou primeiro:
— Você está machucada?
A preocupação nos olhos dele era real.
Aurora não conseguia entender.
Por que ele se colocaria em perigo por ela?
— Eu… estou bem. E você?
Gabriel suspirou aliviado.
Mas, quando tentou andar—
— Ah…
Ele deixou escapar um som de dor.
Aurora percebeu então—
a perna dele havia batido com força na quina de uma coluna.
Um corte profundo havia se aberto.
O estudante que havia causado o acidente já tinha desaparecido.
Aurora não teve escolha:
— Vamos ao hospital. Parece sério.
Gabriel quis dizer que não era nada.
Mas, ao ver a preocupação nos olhos dela… assentiu.
— Desculpa incomodar.
Aurora o levou até a enfermaria da universidade.
— Não é nada grave, só um corte superficial. Não precisa de pontos, apenas desinfetar e fazer curativo.
Gabriel tentou tranquilizá-la.
O médico, enquanto limpava o ferimento, brincou:
— Então temos aqui um herói salvando a donzela?
Gabriel apenas sorriu, sem negar.
Aurora abaixou a cabeça, um pouco envergonhada.
— Basta trocar o curativo diariamente.
Aurora foi pagar.
Mas Gabriel a segurou:
— Precisa usar o cartão da universidade. O seu ainda não foi feito. Use o meu.
Aurora pegou o cartão.
Ainda havia o calor do corpo dele ali.
Foi até o balcão pagar.
O médico olhou para Gabriel, curioso:
— Sua namorada?
Gabriel sorriu de forma travessa:
— Ainda não… mas pode ser no futuro.
Quando Aurora voltou com os remédios, ajudou Gabriel a sair.
No caminho, não resistiu e perguntou:
— Por que você me salvou?
Era apenas o segundo encontro deles.
Gabriel olhou para ela.
E disse algo estranho:
— Você… realmente não se lembra de mim?
Aurora franziu a testa:
— Do quê?
Ele balançou a cabeça.
— Nada. Só… quis te salvar, então salvei.
Mesmo depois que Gabriel foi embora, mancando—
Aurora ainda pensava naquela frase:
“Você realmente não se lembra de mim?”
Aurora estava um pouco confusa. "O quê?"
Gabriel balançou a cabeça. "Nada. Eu queria te salvar, então fiz isso."
Mesmo enquanto Gabriel se afastava mancando, Aurora ainda pensava em suas palavras.
"Você realmente não me reconhece?"
Aurora murmurou essas palavras, mas não conseguia se lembrar de ter conhecido Gabriel.
————————
Depois de ser repreendida duas vezes por Ricardo, Lívia também começou a perder a paciência.
Mas, ao ver os olhos dele vermelhos, como se estivesse à beira de explodir, ela conteve o impulso e saiu apressada, com a bolsa nas mãos.
Ricardo ficou sentado no sofá, segurando o recipiente com o bebê.
Foi só então…
que percebeu o quanto havia ignorado Aurora nos últimos tempos.
Tantas coisas da casa haviam desaparecido aos poucos… e ele sequer notara.
As fotos dos dois na sala… o cobertor que haviam tricotado juntos no sofá… os brinquedos de madeira que fizeram para o bebê no quarto…
Tudo.
Nada mais restava.
A casa inteira… já não tinha mais nenhum vestígio de Aurora.
— Senhor…
As empregadas tremiam ao serem chamadas.
— Onde estão as coisas da casa?
Elas trocaram olhares.
Hesitaram.
Mas, no fim, uma delas reuniu coragem:
— A senhora disse que… alguém novo viria morar aqui no futuro… então os objetos antigos não eram mais necessários.
Ao ouvir isso—
Ricardo arremessou o copo que tinha na mão contra o chão.
— Por que ninguém me disse isso?!
A empregada respondeu com cautela:
— O senhor quase não tem voltado para casa… não tivemos oportunidade.
Ricardo ficou sem resposta.
E então perguntou:
— Quando ela foi embora? Vocês não tentaram impedir?
As duas quase se ajoelharam de medo:
— A senhora disse que não gostava de ter pessoas em casa… nós sempre íamos embora depois de terminar o trabalho… hoje ela disse que não precisávamos vir… então não viemos…
Ricardo sabia.
Não conseguiria obter mais nada delas.
Fez um gesto irritado, mandando-as sair.
Um arrependimento sufocante começou a crescer dentro dele.
Por que…
por que ele não havia prestado mais atenção a Aurora?
Agora…
ele só queria encontrá-la o mais rápido possível.
— Descubram onde a senhora está — ordenou ao assistente.
Mas, por vários dias—
nenhuma informação.
Nenhum rastro.
Era como se ela tivesse desaparecido do mundo.
De repente—
ele se lembrou do pai dela.
Encontrou o número.
Seus dedos pairaram sobre o botão de ligação por muito tempo…
antes de finalmente pressionar.
— Alô, aqui é Carlos Nogueira. Quem fala?
— Pai… eu queria perguntar se você sabe onde—
Antes que pudesse terminar—
a ligação foi desligada.
Ricardo tentou novamente.
— Pai… eu sei que errei… a Aurora está com você?
Do outro lado, a voz de Carlos explodiu, furiosa:
— Onde a Aurora está não tem mais nada a ver com você! Vocês já se divorciaram! E não me chame mais de “pai”!
A ligação foi cortada.
Quando Ricardo tentou ligar de novo—
descobriu que havia sido bloqueado.