Nos últimos dias, Ricardo andava excepcionalmente ocupado.
Aurora observava, em silêncio, enquanto ele saía cedo e voltava tarde, sempre com o celular nas mãos, e a luz do escritório permanecia acesa até altas horas da madrugada.
Ela sabia.
Ele estava preparando cuidadosamente… aquele espetáculo de resgate.
Na manhã em que o prazo legal do divórcio terminou, Aurora saiu cedo.
Foi até o advogado.
E pegou oficialmente o certificado de divórcio.
A divisão de bens já havia sido resolvida.
Além disso, ela levou apenas seus pertences pessoais.
Quando voltou para casa, Ricardo estava diante do espelho, ajustando a gravata.
Vestia um terno azul-escuro completamente novo.
Os botões de punho refletiam a luz fria da manhã.
Era um estilo que ela nunca tinha visto nele antes.
Provavelmente… preparado especialmente para aquele dia.
— Já voltou da caminhada? — ele perguntou, sorrindo pelo reflexo do espelho. — Meu amor, hoje tenho algo importante para resolver. Fique em casa e descanse, e não esqueça de tomar o remédio.
Ele se virou.
Os dedos longos tocaram suavemente a barriga dela, em tom quase carinhoso:
— Hoje você não pode incomodar a mamãe. Se fizer ela se sentir mal, o papai vai ficar bravo.
Aurora olhou para ele.
Para aquela ternura nos olhos dele.
E, de repente… aquilo pareceu ridículo.
Ele podia arriscar a vida por Lívia…
mas nem sequer sabia…
que o próprio filho já não existia mais.
Ela apertou o certificado de divórcio em suas mãos:
— Eu tenho algo para te dizer.
Ricardo hesitou por um momento.
— Meu amor, eu preciso sair agora.
— Tão urgente assim? — ela perguntou em voz baixa. — Nem cinco minutos você pode me dar?
Ele olhou o relógio.
No fim… recusou.
— O que for, a gente conversa à noite, tudo bem?
— Isso é tão importante assim?
— Muito importante.
Ele respondeu sem hesitar.
O olhar firme… quase obsessivo.
— Mais importante do que a minha própria vida.
Aurora sorriu.
Um sorriso leve… como a última neve do inverno.
— Vá.
Ela disse suavemente.
— Não se atrase.
Ricardo parecia querer dizer algo.
Mas, no final, apenas inclinou-se e deixou um beijo na testa dela.
E saiu apressado.
O som do motor do carro se afastou… cada vez mais distante.
Aurora caminhou até a cozinha.
Abriu a geladeira—
e retirou aquela caixa que havia sido esquecida por dias.
O ar frio a envolveu.
Ela colocou a caixa sobre a mesa da sala.
Dentro—
o pequeno corpo de cinco meses, imerso em formol…
encolhido como se estivesse dormindo.
Aurora fechou os olhos por um instante.
E, ao lado da caixa… colocou o certificado de divórcio.
Depois disso—
arrastou a mala.
E saiu pela porta… sem olhar para trás.
No aeroporto, o fluxo de pessoas era intenso.
O avião estava prestes a decolar.
Quando ela estava prestes a desligar o celular—
uma mensagem de Ricardo apareceu:
«Meu amor, o remédio está quente na cozinha. Assim que eu terminar, volto para ficar com você.»
Aurora.
Nos dias que virão… a pessoa ao meu lado… nunca mais será você.
Ela apagou a mensagem com calma.
Depois, apagou todas as fotos dos dois.
E, por fim… apagou todos os contatos dele.
No instante em que o avião decolou—
pareceu que algo dentro dela fez um leve
clique
.
E, junto com isso… tudo o que restava de amor por ele…
foi completamente deletado.
— Você realmente vai fazer isso?
Os amigos de Ricardo ainda achavam tudo uma péssima ideia.
— Como você pretende explicar isso para a Aurora?
Ricardo abaixou a cabeça.
Ficou em silêncio por um momento antes de responder:
— A Aurora vai entender. Comparado a isso… salvar a Lívia agora é mais importante.
Ao ver que os amigos ainda queriam argumentar, o tom dele endureceu:
— Se vocês não quiserem ir comigo, então saiam do caminho. Eu resolvo o lado da Aurora.
Diante disso…
ninguém ousou dizer mais nada.
Dentro do carro, a caminho do local do casamento—
um incômodo inexplicável começou a crescer no coração de Ricardo.
As palavras de Aurora antes de sair de casa ecoavam em sua mente.
Ele teve a estranha sensação…
de que havia perdido algo importante.
De que ela poderia, de fato, deixá-lo.
Mas, no instante seguinte, ele sacudiu a cabeça, afastando aquele pensamento.
Aurora o amava tanto…
não havia como ela ir embora.
Lembrando das palavras dos amigos, uma leve culpa surgiu.
Ele pegou o celular e enviou uma mensagem:
【Meu amor, quando eu voltar, vou te levar para viajar.】
Antes, Aurora sempre respondia imediatamente.
Mas, dessa vez…
ele ficou olhando para a tela por um bom tempo—
e não houve resposta.
A inquietação que ele havia tentado suprimir voltou com força.
Ele estava prestes a ligar—
quando o carro parou.
— Chegamos, Ricardo.
Ao ouvir isso, ele guardou o celular.
O assunto com Aurora…
ele resolveria depois.
Agora…
Lívia era mais importante.
Na entrada do hotel, os funcionários não ousaram impedi-lo.
— Senhor Ricardo… o senhor veio para o casamento da senhorita Lívia?
Ao ouvir a palavra “casamento”, o olhar dele escureceu.
— Me leve até lá.
O funcionário não se atreveu a perguntar mais nada.
E o conduziu até o salão.
Dentro—
Lívia olhava para o vestido de noiva.
Mas não havia nenhum traço de preocupação em seus olhos.
— Lívia, isso vai dar certo mesmo? — perguntou o pai, ainda inquieto.
Nesse momento, um funcionário se aproximou e cochichou algo no ouvido dela.
Um sorriso confiante surgiu em seu rosto.
— Fique tranquilo, pai… em breve eu vou ficar com o Ricardo.
O pai assentiu, aliviado.
— Agora, vamos convidar a noiva para entrar!
A voz do mestre de cerimônias ecoou.
Lívia imediatamente mudou a expressão.
Seus olhos se encheram de lágrimas.
Justo naquele momento—
as portas do salão se abriram com força.
A voz de Ricardo ecoou:
— Quero ver quem tem coragem de continuar esse casamento!
O pai de Lívia, entendendo o sinal, segurou o braço dela com força e elevou a voz:
— Não pense em fugir! Hoje, aconteça o que acontecer, você vai se casar!
Lívia lutava, desesperada:
— Pai, eu não gosto dele! Eu não quero me casar!
Ricardo avançou rapidamente.
Puxou-a para seus braços.
— Esse casamento não vale. Qualquer prejuízo, o Grupo Vasconcelos cobre.
Sem hesitar—
ele a pegou no colo e saiu do salão.
— Ricardo… você veio me salvar… — Lívia o abraçou pelo pescoço, com lágrimas nos olhos. — Eu achei que seria forçada a casar…
O olhar dele suavizou-se:
— Lívia… eu não vou deixar você se casar com alguém que não ama.
— Mas se esse casamento não acontecer, meu pai não vai me perdoar…
— Não importa. O Grupo Vasconcelos vai cooperar com a sua família. Eu assumo todas as perdas.
Os olhos de Lívia brilharam:
— Ricardo… obrigada… eu realmente não saberia o que fazer sem você…
Ele a levou até o carro.
— Vou te levar para casa primeiro. Depois resolvo o resto.
Mas, de repente, ela pareceu se lembrar de algo.
— Ricardo… você veio me salvar assim… a Aurora não vai ficar chateada, vai? Afinal, ela ainda está grávida… foi tudo por minha causa… quer que eu vá com você e explique?
Ricardo se lembrou da pergunta que Aurora havia feito dias atrás.
Um traço de hesitação passou por seus olhos.
— Não precisa. Você já está cansada. Vá descansar. A Aurora não é alguém que não entende as coisas… ela vai compreender.
Ao ouvir isso, Lívia não insistiu.
Mas, no fundo…
ela realmente queria ver a expressão de Aurora ao descobrir tudo.
Depois de deixá-la em casa—
Ricardo fez um desvio.
Foi até a confeitaria favorita de Aurora.
Comprou um pequeno bolo.
Ao entrar em casa, ele falou naturalmente:
— Meu amor, o bebê te incomodou hoje? Eu comprei o seu bolo favorito, mas você não pode comer muito…
Mas— não houve resposta.
A casa estava em completo silêncio.