Mal Ricardo saiu, a campainha tocou.
Aurora foi abrir a porta.
Do lado de fora, uma mulher elegante segurava uma caixa de doces finamente embalada.
— Olá, eu sou Lívia Monteiro… a mesma que te mandou aquelas mensagens.
Lívia sorriu — doce… mas provocante:
— O Ricardo tem cuidado muito bem de mim esses dias. Então fiz alguns doces para agradecer. Como diz o ditado, quem chega é visita… você não vai me impedir de entrar, vai?
Sem esperar resposta, ela passou por Aurora e entrou.
Começou a andar pela casa como se fosse dela.
Ao passar pelo jardim, parou.
— Essas rosas… são da minha variedade favorita. Não imaginei que ele ainda cultivasse.
Os dedos de Aurora tremeceram levemente.
Ela se lembrou de como Ricardo cuidava pessoalmente dessas flores todas as manhãs, sem deixar ninguém tocar nelas.
Ela sempre achou que era apenas um hobby.
Agora entendia.
Perto do lago, algumas tartarugas tomavam sol, preguiçosas.
— Ah! Elas ainda estão vivas! — Lívia exclamou, surpresa. — Eu criei essas quando era criança. Depois que fui para o exterior, nem cuidei mais… achei que já tinham morrido.
Aurora sentiu o peito apertar.
Ela lembrava de como Ricardo alimentava aquelas tartarugas todos os dias, sem falhar.
Na sala, o olhar de Lívia passou pelos bonecos expostos:
— Esses também são da minha coleção favorita.
Ela olhou ao redor:
— Até o estilo dos móveis… esse minimalismo nórdico… é exatamente o que eu gosto.
Aurora caminhava atrás dela.
Cada passo era como pisar sobre lâminas.
Aquela casa…
onde ela vivera por dois anos…
de repente, parecia completamente estranha.
No quarto, Lívia passou os dedos pelas gravatas e ternos no armário:
— Esses… foram todos presentes que eu dei a ele. Não acredito que ele ainda os mantém tão bem conservados.
Aurora lembrou de quantas vezes passara aquelas roupas com as próprias mãos.
Agora entendia.
Ele não deixava que ela tocasse nelas…
não por obsessão com limpeza.
Mas porque… eram marcas de outra mulher.
Por fim, Lívia parou diante da foto de casamento deles.
— Que coincidência… — inclinou a cabeça, sorrindo — eu e o Ricardo já conversamos antes sobre fazer três ensaios temáticos: deserto, oceano e floresta. Não imaginei que vocês também escolheriam exatamente esses três.
O rosto de Aurora ficou pálido.
Na época, foi Ricardo quem insistiu nesses temas.
Ela pensou que era gosto dele pela natureza.
Agora sabia.
Nem aquilo… era dela.
— O que você está fazendo aqui?
A voz de Ricardo soou de repente na porta.
Ele entrou apressado, a expressão endurecida.
Lívia imediatamente mudou para um sorriso doce:
— Fiz alguns doces e vim trazer pra você. Sua esposa me convidou com tanta simpatia… disse até que queria que eu ficasse para jantar.
As sobrancelhas de Ricardo relaxaram.
Ele olhou para Aurora:
— Esta é a Lívia… minha vizinha de infância. Somos como irmãos. Ela estava no exterior, acabou de voltar, por isso você nunca a viu.
Aurora apenas o encarou.
Irmãos?
Que bela mentira.
E Lívia entrou no jogo com perfeição:
— É isso mesmo. O Ricardo sempre cuidou de mim desde pequeno. Quando eu era criança e não queria comer, ele aprendeu a cozinhar só pra mim… carne agridoce, robalo no vapor, almôndegas ao molho… todos são meus pratos favoritos.
Os dedos de Aurora cravaram na palma da mão.
Todos aqueles pratos…
eram exatamente os que Ricardo mais fazia para ela.
Ela sempre acreditou que fosse por causa dela.
Ela não conseguiu forçar um sorriso.
Apenas disse que não estava bem e subiu para o quarto.
Pouco tempo depois, alguém bateu na porta.
Lívia entrou, segurando uma tigela.
— O Ricardo preparou um chá para proteger a gravidez. Pediu para eu trazer. Beba enquanto está quente.
Aurora recebeu a tigela.
O cheiro era forte.
— Ah, a propósito… — Lívia disse casualmente — o nome do bebê de vocês não é, por acaso… se for menino “Gael” e se for menina “Nina”?
Aurora congelou.
Esses eram exatamente os nomes que Ricardo havia escolhido quando soube da gravidez.
Então…
até o nome do filho…
também era uma lembrança de outra mulher?
Seu coração apertou violentamente—
— Ai!
Lívia “acidentalmente” derrubou a tigela.
O líquido escaldante caiu sobre o braço de Aurora, formando bolhas instantaneamente.
Aurora arfou de dor.
Sem tempo para reagir à falsa desculpa de Lívia, seu rosto ficou pálido enquanto descia as escadas para pegar pomada.
Mas, no momento em que passou pelo topo da escada—
Alguém a empurrou com força pelas costas.
— Ah!
Aurora caiu.
Rolou degrau após degrau.
Seu corpo bateu com força no chão do primeiro andar.
O sangue começou a se espalhar sob ela…
tingindo o tapete claro de vermelho.
No segundo seguinte—
Lívia também caiu atrás dela.
Na cozinha, Ricardo estava abrindo a geladeira.
Ao ouvir o barulho, correu imediatamente.
Ao ver a cena, suas pupilas se contraíram.
— Lívia!
Ele correu até ela, segurando seu corpo instável, examinando seu tornozelo com nervosismo:
— Você está bem?
— Eu… estou bem… — Lívia disse com fraqueza — veja a Aurora…
Só então Ricardo olhou para Aurora.
Ela estava caída no chão, envolta em sangue.
Mas, naquele instante—
Lívia “desmaiou” em seus braços.
— Lívia!
A voz dele, sempre controlada, agora estava cheia de urgência.
Ele a pegou no colo e saiu correndo.
Sem sequer olhar para Aurora novamente.
Aurora observou as costas dele se afastando.
Sua consciência começava a se dissolver.
Antes de cair completamente na escuridão…
ela pareceu ver a porta da geladeira entreaberta.
E, lá dentro… a caixa do “presente” revelava um canto…
Quando Aurora acordou novamente, a luz branca ofuscante a fez semicerrar os olhos, desconfortável.
O médico a examinava, e Ricardo estava ao seu lado, com uma expressão grave.
"Como está o bebê?", perguntou ele ao médico.
O médico ergueu os olhos, surpreso: "O bebê? O bebê da senhorita Ning não havia sido abortado prematuramente?"
Aurora derrubou o copo de água ao lado da cama.
O som do vidro se estilhaçando chamou imediatamente a atenção de Ricardo. Ele nem se preocupou com o médico e foi rápido até a cabeceira, os olhos cheios de preocupação e angústia.
— Meu amor, você acordou? Está doendo em algum lugar?
Ela balançou a cabeça levemente.
Seu olhar passou por cima do ombro dele, encontrando a expressão hesitante do médico.
Ricardo finalmente relaxou um pouco, e então se virou:
— Doutor, o que você disse agora? Eu não ouvi direito.
Ele tinha a sensação de ter perdido algo importante.
O médico abriu a boca para falar, mas Aurora fez um leve movimento negativo com a cabeça.
O médico entendeu.
Apenas suspirou e disse:
— A paciente precisa descansar bastante.
E saiu do quarto.
O quarto VIP ficou em silêncio.
Apenas Aurora e Ricardo.
Ele a olhava com carinho, estendendo a mão para tocar seu rosto — mas ela virou o rosto e evitou.
Ele pareceu entender algo, e imediatamente começou a se desculpar, em tom suave:
— Me desculpa, Auro… foi culpa minha. Eu não percebi que você também tinha caído da escada, eu achei que…
— Ainda bem que você e o bebê estão bem. Se algo tivesse acontecido, eu nunca me perdoaria.
— Eu prometo que isso nunca mais vai acontecer. Não fique brava comigo, tá?
Aurora olhou para ele.
Aquele olhar…parecia sincero.
Parecia arrependido de verdade.
E, por isso mesmo…soava ainda mais irônico.
Cada palavra dele era tão convincente.
Mas qual delas era verdade?
— Estou cansada.
Ela puxou a mão de volta e fechou os olhos.
Não queria continuar participando daquela encenação.
Durante a internação, Ricardo não se afastou dela por um segundo.
Preparava sopas com as próprias mãos, alimentando-a colher por colher.
Acompanhava cada exame, anotando cuidadosamente todas as orientações médicas.
À noite, bastava ela se mexer um pouco, e ele já acordava, perguntando se ela precisava de algo.
Até as enfermeiras comentavam:
— Nunca vimos um marido tão atencioso…
Mas Aurora permanecia em silêncio.
Frequentemente ficava olhando pela janela, perdida em pensamentos.
Ricardo acreditava que fosse por causa dos hormônios da gravidez.
E passou a cuidar dela com ainda mais cuidado.
No dia da alta, ele preparou uma surpresa grandiosa.
Levou-a ao restaurante mais sofisticado da cidade, reservando o andar inteiro apenas para ela ter tranquilidade.
Depois do jantar, acompanhou-a por diversas lojas de luxo — qualquer coisa que ela olhasse por um segundo, ele comprava.
À noite, à beira do rio, fogos de artifício explodiram no céu, formando as palavras:
“Eu te amo.”
— Gostou? — Ricardo a abraçou por trás, apoiando o queixo sobre a cabeça dela. — Preparei tudo isso especialmente pra você.
Aurora olhou para o céu iluminado.
Por um instante…pareceu voltar ao passado.
Naquele tempo, Ricardo também fazia tudo isso para fazê-la feliz.
E ela acreditava…que era a pessoa mais feliz do mundo.
Mas, quando sua mão tocou inconscientemente o próprio ventre — agora vazio—
todas as ilusões se quebraram.
— O que foi? — Ricardo percebeu a rigidez dela e a virou para encará-lo. — Você anda estranha… eu estou preocupado.
Ele segurou o rosto dela com cuidado, o polegar acariciando sua pele:
— Quer procurar um psicólogo? Depressão pré-natal é comum… não precisa aguentar tudo sozinha. Pode me contar qualquer coisa.
Aurora olhou nos olhos dele.
E, de repente, perguntou:
— Se eu for completamente sincera com você… você também consegue ser cem por cento sincero comigo?
Ricardo ficou surpreso por um momento.
Logo sorriu:
— Claro, meu amor. Somos marido e mulher… temos que ser sinceros um com o outro.
Aurora respirou fundo.
— Então me diga… eu ouvi dizer que você teve um grande amor no passado. Que mesmo depois de tantos anos, nunca conseguiu esquecer.
Ela o encarou diretamente:
— Agora… você já superou?
A expressão de Ricardo…congelou no mesmo instante.