O tiro atravessou a janela e lançou vidro sobre a mesa. Sofia caiu por cima de Maria, protegendo-lhe a cabeça com os braços.
Antônio atingiu Enzo pelo lado. A arma deslizou até a parede; Camila chutou-a para longe e algemou o empresário.
Marco tentou voltar pela porta lateral. Bianca puxou o cabo do projetor, enrolou-o no tornozelo dele e o derrubou entre duas cadeiras. Um segurança o imobilizou.
— Isso foi por Paulo — ela disse.
Sofia levantou a cabeça. Um caco comprido atravessara sua manga e cortara o ombro. Sangue escorria até o cotovelo.
— Maria?
— Estou inteira. Sai de cima antes que minhas costelas mudem de opinião.
Antônio afastou o vidro e pressionou um guardanapo contra o corte de Sofia.
— Ambulância.
— Já vem — Camila respondeu.
Enzo se debateu no chão.
— Ela armou tudo! Essa garçonete entrou na família e...
Maria ergueu-se com ajuda da mesa. Pegou a cápsula branca e colocou diante do rosto do sobrinho.
— Ela entrou quando você tentou me tirar daqui.
No hospital, Sofia recebeu pontos e ficou em observação. Dona Cida ocupou a poltrona, Maria a cadeira ao lado e as duas proibiram Antônio de entrar durante a troca do curativo.
Ele esperou no corredor por quatro horas. Tirou o relógio, colocou sobre o banco e tornou a colocá-lo a cada vez que uma porta se abria.
Camila chegou com as acusações formais: tentativa de homicídio, sequestro, fraude, falsidade documental e associação criminosa. Marco começara a falar. Enzo permanecia em silêncio.
O depoimento de Marco ocupou cento e quarenta páginas. Ele admitiu a troca das cápsulas, o frasco plantado no avental e a invasão da casa. Também identificou o homem mascarado como chefe de segurança particular de Enzo.
Meses depois, durante a audiência, a defesa tentou reduzir Sofia a uma oportunista. Ela colocou as mãos sobre a mesa, mostrou a cicatriz da queimadura e respondeu apenas ao que lhe perguntaram.
— Quanto recebeu dos Russo?
— Salário previsto em contrato por dezesseis horas de trabalho.
— E a bolsa?
— Conquistei em seleção pública. Minha nota está nos autos.
— Mantém relação íntima com Antônio Russo?
Sofia olhou para o juiz.
— Isso altera a composição química da cápsula?
O advogado recebeu uma advertência. Maria riu alto na primeira fila.
Enzo e Marco foram pronunciados para julgamento. Os bens desviados voltaram ao controle de Maria, e o Bellarosa indenizou funcionários submetidos a assédio. Sofia pediu que parte de seu acordo financiasse a matrícula de Júlio num curso de gestão.
— Cozinheiro em sala de aula azeda — ele reclamou.
— Panela continua falando — ela respondeu. — Agora aprende a fazer planilha escutar.
— Bianca entregou todos os arquivos — disse. — Paulo também depõe por vídeo amanhã.
Antônio olhou para a porta.
— Sofia perguntou por mim?
— Perguntou se você ainda estava ocupando o corredor.
— Isso significa o quê?
Camila deu de ombros.
— Eu prendo gente. Romance é outro departamento.
Dona Cida saiu do quarto e apontou para Antônio.
— Cinco minutos. Se falar de dinheiro, eu puxo o aparelho da tomada.
Sofia estava sentada, o ombro enfaixado. Ele parou a dois passos da cama.
— Posso chegar perto?
— Pode.
Antônio puxou a cadeira. Manteve as mãos sobre os próprios joelhos.
— A bolsa de estudos foi cancelada. A fundação abriu seleção pública com os mesmos critérios. Você pode se candidatar ou mandar todos nós para o inferno.
— Já me candidatei.
— Claro.
— E você?
— Eu o quê?
— Vai continuar dando entrevista sobre mulheres temporárias?
Ele passou o polegar pela cicatriz da sobrancelha.
— Quero pedir desculpa em público.
— Começa aqui.
Antônio voltou todos os dias seguintes, sempre perguntando antes de entrar. Levava café para Dona Cida, jornal para Maria e nada para Sofia além de comida dividida no refeitório.
Na alta, ela encontrou um táxi esperando. Antônio estava ao lado do carro, com as mãos nos bolsos.
— Não mandei motorista.
— Notei.
— Posso acompanhar?
Sofia abriu a porta traseira.
— Pode pagar metade.
Ele entrou ao lado dela. Durante o caminho, os joelhos se tocaram numa curva. Nenhum afastou a perna.
Quando chegaram ao prédio, a fechadura já havia sido reparada pela seguradora. Antônio parou no corredor onde antes havia três homens armados.
— Quer que eu confira o apartamento?
— Quero que espere aqui.
Sofia entrou, examinou cada cômodo e voltou. Segurou a porta aberta.
— Agora pode entrar. Cinco minutos.
Ele tirou os sapatos sem que ela pedisse. Dona Cida, atrás dos dois, fez sinal de aprovação.
Antônio inclinou o corpo.
— Eu usei proteção para controlar você. Tirei sua escolha e chamei isso de cuidado. Desculpa.
Sofia ajeitou o lençol com uma mão.
— Melhorou.
— Posso tentar de novo amanhã?
— Depende do que pretende tentar.
O canto da boca dele subiu. Dona Cida bateu no vidro da porta e mostrou quatro dedos, avisando que o tempo corria.
Seis meses depois, Sofia atravessou o auditório da faculdade usando beca branca. Maria levantou-se na primeira fila com ajuda da bengala. Dona Cida ficou em pé ao lado dela, embora o médico tivesse mandado permanecer sentada.
Antônio passara a visitar o apartamento perguntando antes de entrar. Na primeira noite, trocou a lâmpada do corredor, comeu arroz requentado e lavou o prato. Quando Sofia limitou a visita a cinco minutos, ele saiu sem negociar e telefonou apenas no horário permitido.
O hábito continuou durante o semestre. Ele esperava o fim dos plantões com café da máquina, e Sofia corrigia contratos da fundação no banco do hospital. Nenhum presente caro apareceu. Cada aproximação vinha acompanhada de uma pergunta e espaço para uma recusa.
Antônio esperou atrás das duas. Sem seguranças. Quando Sofia recebeu o diploma, ele aplaudiu até Maria bater no braço dele e mandar que deixasse os outros ouvirem os nomes.
O processo contra Enzo e Marco seguia para julgamento. A holding restituiu valores desviados, extinguiu acessos familiares e criou auditoria externa. Bianca assumiu a colaboração com a Justiça e deixou a advocacia do grupo.
Sofia iniciou residência em enfermagem cardiológica. Com Dona Cida e Maria, estruturou um programa de bolsas para alunos que abandonavam o curso a fim de cuidar de parentes.
O Bellarosa reabriu sob nova administração. Júlio ganhou participação no restaurante e instalou um servidor de câmeras cuja senha não cabia em gaveta alguma.
Na noite da formatura, Sofia recebeu uma mensagem de Maria: "Mesa sete. Não se atrase como meu filho."
Ela chegou usando vestido vinho, sem avental. A mesa tinha dois lugares, pão quente e nenhuma caixa de joias. Antônio se levantou quando a viu.
— Minha mãe armou isso?
— Sua mãe arma coisas melhores que seu primo.
Ele puxou a cadeira. Sofia sentou e examinou a mesa.
— Sem envelope?
— Fui proibido por duas idosas e uma enfermeira.
— Ótimo começo.
Antônio ocupou a cadeira diante dela. O salão continuou conversando; ninguém largou talheres, ninguém correu para a porta.
— Eu trouxe uma coisa — ele disse.
Sofia ergueu uma sobrancelha.
Ele colocou sobre a mesa o cartão que ela recebera no hospital, agora dobrado ao meio. No verso, havia escrito um número novo.
— Meu telefone pessoal. Sem segurança, assistente ou empresa no meio.
— Eu já tenho seu número.
— Você tem o que manda carros. Esse recebe bronca.
Sofia guardou o cartão na bolsa.
— E o que espera em troca?
— Uma resposta.
O garçom serviu água e saiu. Antônio deixou as mãos abertas sobre a toalha.
— Respeito foi onde começou — disse, puxando a cadeira dela alguns centímetros para perto. — O resto... você me deixa conquistar?
Sofia colocou a mão sobre a dele.
— Começa pelo jantar.