《Quando a Mentira É o Único Legado》Capítulo 9

PUBLICIDADE

O zumbido abafado dos repórteres e cinegrafistas no saguão do Fórum Cível parecia ecoar dentro da cabeça de Valentina como um alarme ensurdecedor.

A notificação bancária que acabara de pipocar na tela do celular confirmava o pior dos pesadelos: suas contas estavam completamente vazias.

Enquanto ela tentava assimilar a traição financeira dentro do tribunal, o marido, Marcelo, havia desaparecido sem deixar rastros pelo corredor lateral.

Valentina saiu correndo do plenário, ignorando os chamados dos jornalistas, e correu para a área externa na tentativa de alcançá-lo.

O dia em São Paulo estava abafado, com o asfalto da praça da Sé brilhando sob o sol forte que rompera a neblina da manhã.

Ela o avistou encostado na mureta de cimento, fumando um cigarro de forma trêmula e olhando desconfiado para todos os lados.

Valentina aproximou-se a passos firmes, com o olhar faiscando de fúria e indignação, segurando a bolsa preta de couro contra o peito.

Marcelo! O que significa aquela mensagem do banco? Onde foram parar todas as minhas economias e os investimentos da construtora?, gritou ela.

O homem de terno cinza apagou o cigarro bruscamente no chão, ajeitou a gravata torta no pescoço e esboçou um sorriso cínico.

Fala baixo, Valentina, não faz escárnio na rua que a imprensa está ali na porta, Marcelo sibilou, cruzando os braços na defensiva.

Eu precisei fazer uma transferência de emergência das suas contas para cobrir o rombo das minhas operações na bolsa de valores.

Se você não quer ver os federais batendo na nossa porta por sonegação e quebra de contrato, é melhor cooperar comigo agora.

Valentina sentiu o sangue sumir do rosto, as pernas bambas ameaçando ceder sob o peso daquela revelação monstruosa e repugnante.

Você roubou o meu dinheiro? No momento exato em que eu descubro que minha vida inteira é uma farsa, você me dá uma facada nas costas?, balbuciou ela.

Eu não roubei nada, apenas antecipei o que é nosso por direito legal de casamento, revidou Marcelo, perdendo a paciência.

Escuta aqui, Valentina, eu já estou farto dos seus dramas familiares com esse tal de irmão adotivo e esse velho caduco do teu pai.

O que importa agora é salvar a nossa pele, e a única forma de fazer isso é você arrancar dinheiro ou parte daquela mansão do Mateo.

Faz um acordo com ele, cede os seus direitos na justiça em troca de dinheiro vivo, e nós quitamos todas as minhas dívidas com os agiotas.

As palavras do marido soaram como o veneno mais puro, rasgando o pouco de afeto e confiança que ainda restava entre os dois.

Era o reflexo perfeito de um homem mesquinho, um parasita de terno e gravata que só se importava com a própria sobrevivência social.

Ela percebeu que nunca o havia conhecido de verdade, assim como nunca conhecera o pai, a família ou o próprio passado.

Sua vida inteira havia sido construída sobre pilares de mentiras, e o homem que dormia em sua cama era apenas mais um carrasco.

PUBLICIDADE

Valentina respirou fundo, contendo as lágrimas que ameaçavam travar sua garganta, e endireitou a postura com uma frieza cortante.

Você acha mesmo que eu vou negociar com o sangue da minha família para salvar o seu pescoço de jogador irresponsável, Marcelo?, disse ela.

Você acha que eu vou me curvar aos seus caprichos criminosos depois de tudo o que aconteceu nas últimas horas?

Marcelo perdeu a compostura, avançando um passo em direção a ela com o rosto avermelhado de pura raiva e desespero.

Você não tem escolha, Valentina!, berrou o marido, perdendo o controle e segurando-a rudemente pelo braço.

Se eu afundo, você afunda junto comigo na lama, porque nós somos casados sob o regime de comunhão parcial de bens!

As câmeras dos paparazzi escondidos na esquina começaram a disparar flashes na direção deles, atraídas pelo barraco na praça pública.

Valentina olhou para a mão de Marcelo apertando seu pulso com força, sentindo uma repulsa tão profunda que seu estômago revirou.

Ela não gritou, não chorou e não implorou clemência; ela apenas fitou os olhos covardes do homem com um desprezo absoluto.

Com um movimento rápido e certeiro, ela desvencilhou o braço com força, deixando o marido desequilibrado por um segundo.

Valentina olhou fixamente para os olhos dele, o coração batendo firme, e pronunciou as palavras que selavam o fim daquela farsa conjugal.

Divórcio, Marcelo, disse ela com a voz gelada, cortando o ar como uma navalha. É isso o que você vai ter de mim.

Acabou. Pode juntar os seus trapos e sumir do meu apartamento antes que eu mesma chame a polícia para te expulsar.

Dito isso, ela virou as costas imediatamente, ignorando os berros histéricos do marido que tentava correr atrás dela no meio da calçada.

Entrou em seu carro, trancou as portas por dentro e dirigiu às cegas pelas ruas de São Paulo, deixando a tempestade emocional transbordar.

Horas mais tarde, o celular no painel começou a vibrar incessantemente com ligações perdidas e mensagens desesperadas de hospitais da capital.

Uma chamada de emergência informava que Mateo havia sofrido um acidente de carro nas imediações da zona sul durante a fuga dos repórteres.

Sem pensar duas vezes, Valentina mudou a rota no GPS e acelerou o veículo em direção ao pronto-socorro do Hospital Albert Einstein.

O estacionamento estava lotado, e ela correu às pressas pelo saguão de entrada, esbarrando em enfermeiros e pacientes assustados.

A recepcionista indicou o caminho para a ala de observação e tratamento intensivo localizada no final do corredor do segundo andar.

Valentina correu esbaforida pelo piso encerado, com os sapatos batendo no chão de cerâmica branca em um ritmo desesperador.

No entanto, quando dobrou a esquina estreita que dava acesso à sala de espera privativa, seu corpo inteiro travou de repente.

O ar sumiu de seus pulmões, e as pernas pararam de obedecer, fazendo-a congelar no meio do corredor hospitalar.

Sentada em um banco de plástico estofado, com as mãos trêmulas apoiadas em uma bengala de madeira escura, estava uma senhora idosa.

Seus cabelos eram loiros grisalhos, presos em um coque simples, e seus olhos... Aqueles inconfundíveis olhos de uma tonalidade azul gélida.

Era Catarina, a mãe que elas pensavam ter perdido para sempre, encarando-a diretamente na penumbra daquela ala silenciosa do hospital.

PUBLICIDADE

você pode gostar

compartilhar

compartilhar liderança
link de cópia