《Quando a Mentira É o Único Legado》Capítulo 7

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A luz ofuscante da lanterna cortou a escuridão do corredor do sanatório abandonado, mas a silueta encapuzada rapidamente recuou para a penumbra, desaparecendo antes que pudessem alcançá-la.

Com o coração acelerado batendo contra as costelas, Mateo puxou a irmã para trás de uma pilastra de cimento descascado.

Não era uma armadilha de Gilberto, mas sim um aviso mudo deixado por alguém que também espreitava os segredos daquele lugar maldito.

Naquela mesma manhã, decidindo que pistas anônimas em ruínas eram perigosas demais sem uma base sólida, eles mudaram o rumo da investigação.

Através dos registros de funcionários antigos da clínica obstétrica de Moema, Mateo rastreou o endereço de uma testemunha ainda viva.

Tratava-se da enfermeira aposentada dona Clotilde, que havia trabalhado no parto de Catarina e morava agora em uma casa simples no bairro da Lapa.

A chuva de São Paulo ainda persistia em uma garoa fina quando a caminhonete estacionou em frente ao portão de ferro enferrujado.

O pequeno sobrado exibia paredes com a tinta descascada e dezenas de vasos de samambaias que pareciam tentar camuflar a solidão do lugar.

Valentina bateu levemente à porta de madeira envelhecida, sentindo as mãos suarem frio de pura ansiedade e expectativa contida.

Após alguns instantes de silêncio, a porta se abriu de fresta, revelando o rosto enrugado de uma senhora de cabelos totalmente brancos.

Dona Clotilde os encarou com olhos desconfiados e assustados, segurando firme o cabo de uma vassoura como se quisesse se proteger.

O que os senhores querem aqui? Eu já não atendo mais ninguém daquele tempo, a enfermeira aposentada falou com a voz trêmula.

Por favor, dona Clotilde, nós não somos da polícia e nem enviados por Gilberto, disse Mateo em um tom pacificador.

Nós somos os gêmeos... Os bebês que a senhora ajudou a trazer ao mundo na maternidade em mil novecentos e oitenta e oito.

Aquelas palavras pareceram atingir a idosa como um raio; a vassoura escorregou de suas mãos fracas e caiu pesadamente no chão.

Os olhos enrugados da mulher encheram-se de lágrimas instantaneamente, e seu corpo magro deu um passo trêmulo para trás.

Meu Deus... Vocês cresceram tanto... Entrem rápido, antes que alguém nos veja conversando na calçada, sussurrou a enfermeira em pânico.

Eles entraram na sala modesta, cheirando a chá de camomila e cânfora, e sentaram-se em um sofá de veludo puído pelo uso.

Dona Clotilde fechou a porta com tranca dupla e encostou as costas nela, respirando fundo para controlar o próprio nervosismo.

Eu sabia que esse dia iria chegar, que a culpa um dia viria cobrar o seu preço, começou ela, passando as mãos trêmulas pelo avental.

Durante todos esses anos, o meu travesseiro tem sido o peso de uma consciência pesada por causa daquela noite chuvosa.

A senhora estava lá? A senhora viu o que Gilberto fez com a nossa mãe?, perguntou Valentina com a voz embargada pela dor.

Eu vi tudo, minha filha, a enfermeira assentiu com a cabeça, enquanto uma lágrima grossa sulcava sua bochecha marcada pelas rugas.

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A dona Catarina não abandonou vocês de jeito nenhum; ela amava aqueles recém-nascidos com uma força que eu nunca tinha visto em outra mãe.

Ela foi dopada à força pelos médicos que o tal doutor Gilberto subornou com maletas cheias de dinheiro vivo e promessas de proteção.

O patrão de vocês, aquele homem frio e implacável, queria apenas um herdeiro legítimo para exibir na sociedade paulistana rica.

Mas quando viu que eram gêmeos, um casal perfeito, ele exigiu que apenas um fosse levado para a mansão do Morumbi.

Dona Clotilde fez uma pausa dramática, engolindo em seco antes de revelar a parte mais cruel e revoltante daquela noite de 1988.

A pobre Catarina gritava e implorava de joelhos no chão do quarto de hospital, com os pontos da cesariana sangrando de tanto esforço.

Ela dizia que preferia morrer a ver seus filhos separados, mas os capangas de Gilberto a seguraram com violência desumana.

Eles arrancaram o menino dos braços dela e deixaram a menina para ser despachada para uma instituição de caridade distante.

Foi quando eu tomei a coragem de burlar as ordens do patrão e ajudei Catarina a esconder a menina em um berço seguro.

Mas Gilberto descobriu tudo depois, ameaçou destruir a minha vida e cassar o meu registro profissional para o resto da eternidade.

Valentina sentiu o sangue ferver de um ódio cego, as lágrimas escorrendo livres enquanto ouvia os detalhes daquela barbárie institucionalizada.

O monstro destruiu a nossa família por puro capricho e vaidade, sibilou a moça, com os punhos cerrados até as unhas cravarem na pele.

E depois disso?, interveio Mateo, mantendo a voz firme apesar do tremor nos lábios. O que aconteceu com a nossa mãe ao longo dos anos?

Ela tentou lutar, meu filho, a idosa respondeu com um suspiro doloroso, cruzando os braços como se sentisse frio.

Catarina passou os primeiros anos perseguindo cada pista que encontrava, batendo na porta de advogados, delegacias e juízes de menor.

Mas o dinheiro e a influência política de Gilberto eram barreiras intransponíveis que empurravam ela sempre para o abismo da desesperança.

O poderoso empresário usou todo o seu poder para calar a boca de quem ousasse ajudar aquela mulher a encontrar os filhos roubados.

E mesmo assim, ela nunca desistiu de procurar por vocês, nem mesmo quando a saúde mental e física começou a falhar com a idade.

Acreditam que, há apenas três anos, a dona Catarina ainda rondava os arredores da mansão do Morumbi tentando entregar uma carta?

Três anos atrás?, exclamou Mateo, sobressaltado no sofá. Ela ainda estava viva e tentando nos encontrar recentemente?

Sim, ela estava, mas foi interceptada pelos seguranças particulares de Gilberto bem na esquina da avenida principal, confirmou a enfermeira.

Eles a espancaram verbalmente, tomaram a carta dela e a ameaçaram de morte caso ela ousasse colocar os pés naquele bairro nobre de novo.

Depois disso, ela sumiu completamente do mapa; eu tentei ligar para o número antigo dela, mas a linha estava permanentemente cortada.

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A revelação de que a mãe os procurara tão recentemente deixou os dois irmãos em um estado de choque profundo e paralisante.

Ela esteve tão perto... Apenas a alguns quarteirões de distância de nós, e o maldito do nosso pai a afastou mais uma vez, pensou Valentina.

Onde ela está agora, dona Clotilde? A senhora tem alguma pista de onde ela possa estar morando ou se ainda respira?, perguntou a moça.

Eu não sei, querida... Eu juro que não sei de mais nada, a idosa começou a hiperventilar, o medo tomando conta de suas feições.

Gilberto é um homem perigoso, um monstro que não tem escrúpulos em eliminar quem estiver no caminho dos seus interesses.

Se ele descobrir que vocês conversaram Comigo, ele não vai hesitar em acabar com a vida de todos nós sem o menor remorso.

Por favor, os senhores precisam ir embora daqui agora mesmo, antes que o motorista dele passe por esta rua e nos veja.

Dona Clotilde levantou-se rapidamente do sofá, caminhou com passos trêmulos até a porta de entrada e destrancou as pesadas travas.

Ela abriu a porta de supetão, deixando a luz cinzenta da tarde chuvosa invadir a sala modesta e iluminar o desespero em seu rosto.

Valentina e Mateo tentaram argumentar, querendo fazer mais perguntas sobre o paradeiro atual de Catarina e os detalhes do acobertamento.

Mas a enfermeira aposentada recusou-se a ouvir qualquer outra palavra, empurrando delicadamente os dois para fora da soleira.

Não voltem aqui, por favor!, implorou a idosa com a voz embargada em prantos, os olhos arregalados de puro pavor.

Antes que pudessem dar mais um passo para dentro da casa, dona Clotilde bateu a porta com força e passou a chave por dentro.

O som metálico da tranca ecoou pela varanda estreita, selando o fim daquela conversa reveladora e deixando um vazio gélido no peito.

Mateo olhou para a irmã, que estava com o rosto completamente pálido e os olhos fixos na madeira envelhecida da porta fechada.

A última frase da velha enfermeira ainda parecia vibrar no ar úmido da rua deserta, como uma sentença de morte anunciada.

Ele é um monstro implacável, e se quisermos achar a nossa mãe antes que seja tarde demais, teremos de enfrentá-lo de frente.

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