"Você está nervoso demais."
"Claro que estou!"
Renato abriu os braços.
"Estamos presos dentro de um corredor blindado, cercados de câmeras, carregando armas, depois de ameaças registradas."
Ele olhou para o teto.
"Augusto já ganhou."
Caio avançou sobre ele.
"Não fala isso."
"É verdade."
"Não é."
"É."
Renato apontou para o vidro.
"Olha para você."
Caio empurrou o irmão.
"Covarde."
Renato quase caiu.
"Eu queria sair antes."
"Mas não saiu."
"Porque você me ameaçou."
"E agora vai me culpar?"
"Eu estou dizendo a verdade."
"Você nunca soube o que é verdade."
Augusto ouviu tudo.
Cada palavra.
Cada acusação.
Cada rachadura entre os dois homens que um dia ele colocara na mesma cama quando tinham medo de dormir sozinhos.
Mariana olhou para ele.
"Você está bem?"
Augusto respondeu:
"Não."
Foi a primeira vez naquela noite em que sua voz pareceu velha.
Não fraca.
Velha.
Como se trinta anos tivessem caído sobre ele de uma vez.
Mariana se aproximou.
"Você não precisa ir lá."
Augusto olhou para o monitor.
"Preciso."
"Não."
"Preciso."
"Para quê?"
"Para terminar olhando nos olhos deles."
"Você pode falar daqui."
"Não é a mesma coisa."
Sérgio se aproximou.
"Augusto, eu não recomendo."
"Eu sei."
"Eles estão armados."
"Eu sei."
"Caio está instável."
"Eu sei."
"Então não."
Augusto olhou para ele.
"Sérgio."
O homem ficou em silêncio.
"Eu os criei."
Sérgio respirou fundo.
"Isso não torna você à prova de bala."
"Por isso você vem comigo."
Mariana segurou o braço de Augusto.
"Você prometeu que aqui era seguro."
"E é."
"Então fica na parte segura."
Ele olhou para a mão dela.
Depois para o rosto.
"Eu passei a vida toda colocando outras pessoas entre mim e as consequências das escolhas deles."
Mariana soltou devagar.
"Eu não vou fazer isso agora."
Sérgio fechou os olhos.
"Então pelo menos colete."
Augusto assentiu.
Poucos minutos depois, uma porta lateral se abriu atrás de uma segunda barreira balística.
Sérgio apareceu primeiro.
Rafael ao lado.
Augusto veio entre os dois.
Mariana permaneceu na sala de controle.
Caio viu o pai.
Ficou imóvel.
Por um instante, ninguém falou.
O corredor parecia ter parado no tempo.
Augusto estava mais magro do que antes.
Ainda carregava sinais da internação.
Mas estava de pé.
Olhando diretamente para os filhos.
Caio foi o primeiro a quebrar o silêncio.
"Então era isso."
Augusto respondeu:
"Isso o quê?"
"Você fingiu."
"Não."
"Fingiu que estava morrendo."
"Eu estava morrendo."
"Mentira."
"Você estava lá."
Caio apertou a arma.
"Você planejou tudo."
"Eu não planejei o hospital."
"Planejou depois."
"Sim."
Renato olhou para Augusto.
"Você ouviu."
Não era pergunta.
Augusto respondeu:
"Cada palavra."
Caio perdeu parte da cor do rosto.
"Não."
"Ouvi você perguntar quanto tempo eu duraria sem tratamento."
Caio não respondeu.
"Ouvi Renato perguntar sobre o testamento."
Renato abaixou os olhos.
"Ouvi vocês discutirem quanto receberiam depois da minha morte."
Caio apertou o maxilar.
"E ouvi quando você disse para deixar a natureza terminar o trabalho."
O silêncio ficou pesado.
Augusto continuou:
"Também senti seu sapato na minha mão."
Mariana fechou os olhos na sala de controle.
Aquela parte ainda doía.
Caio tentou rir.
"Você está dramatizando."
Augusto deu um passo.
Sérgio imediatamente acompanhou.
"Não."
Augusto respondeu.
"Eu estou lembrando."
Caio levantou a arma.
Sérgio apontou a dele.
Rafael também.
Augusto não se moveu.
"Baixa", Renato disse.
Caio ignorou.
"Baixa essa arma!", Renato gritou.
"Você fica fora."
Augusto olhou para o cano.
Depois para Caio.
"Eu já tive mais medo de você."
Caio pareceu ofendido.
"Quando?"
"Quando tinha nove anos."
Caio congelou.
Augusto continuou:
"Na primeira noite na minha casa."
"Para."
"Você não queria dormir."
"Para."
"Porque achava que, se apagasse a luz, o incêndio voltaria."
Caio respirou mais rápido.
"Eu disse para parar."
"Você segurou minha camisa."
"Chega!"
"E perguntou se eu ficaria até você acordar."
Caio gritou:
"Cala a boca!"
Augusto não parou.
"Eu fiquei."
A arma tremia.
Renato olhava para o chão.
Augusto virou para ele.
"E você?"
Renato fechou os olhos.
"Não."
"Doze anos."
"Pai..."
A palavra escapou.
Todos ouviram.
Renato percebeu.
Augusto também.
"Hospital."
Renato balançou a cabeça.
"Não faz isso."
"Você perguntou se morreria na cirurgia."
"Para."
"Eu prometi que estaria lá quando abrisse os olhos."
Renato chorava agora.
Silenciosamente.
"Eu vendi parte do meu primeiro laboratório para pagar seu tratamento."
Ele ergueu o rosto.
"Eu nunca soube."
"Porque você não precisava saber."
Caio riu com desprezo.
"Agora vai fazer uma lista de tudo que pagou?"
Augusto virou.
"Não."
"Então para de fingir que foi santo."
"Eu não fui."
"Finalmente."
"Eu errei muito."
Caio sorriu.
"Isso."
"Eu confundi amor com proteção."
O sorriso dele desapareceu.
"Confundi perdão com ausência de consequência."
Augusto continuou:
"Quando você abriu sua primeira empresa e perdeu tudo, eu paguei as dívidas."
Caio desviou o olhar.
"Na segunda, também."
"Eu não pedi..."
"Pediu."
"Você podia ter recusado."
"Devia."
Caio olhou para ele.
Augusto assentiu.
"Devia ter deixado você aprender."
Silêncio.
"Quando Renato usou minha influência para sair de um contrato ruim, eu consertei."
Renato fechou os olhos.
"Quando vocês mentiram, eu escondi."
"Quando erraram, eu paguei."
"Quando feriram pessoas, eu expliquei para mim mesmo que vocês ainda estavam aprendendo."
Augusto respirou fundo.
"E assim, sem perceber, ensinei a vocês que nada tinha consequência."
Caio respondeu:
"Você nos fez depender de você."
"Não."
"Fez."
"Eu dei oportunidades."
"E sempre lembrou que eram suas."
"Isso não é verdade."
"É."
Caio aproximou-se do vidro.
"Você queria filhos agradecidos."
Augusto respondeu:
"Eu queria filhos vivos."
Caio ficou em silêncio.
"Depois quis filhos bons."
Augusto balançou a cabeça.
"Talvez tenha sido tarde demais."
Renato começou a chorar de verdade.
"Eu não queria chegar nisso."
Caio virou.
"Cala a boca."
"Eu não queria."
"Você estava comigo."
"Porque eu estava com medo."
"Covarde."
"Sim."
Renato respirou fundo.
"Eu fui covarde."
Caio avançou.
"Você vai começar a confessar agora?"
Renato olhou para o pai.
"Eu devia ter impedido."
Caio acertou o rosto dele com a mão.
Renato caiu contra a parede.
Mariana levou a mão à boca.
Augusto endureceu.
"Chega."
Caio virou.
"Você não manda mais em mim."
Augusto respondeu:
"Eu nunca mandei o suficiente."
Caio levantou a arma.
Apontou diretamente para o pai.
Sérgio e Rafael reagiram.
"Baixa!"
Caio gritou:
"Se eu não vou ter nada, ninguém vai!"
Mariana saiu da sala de controle.
Sérgio ouviu o movimento pelo rádio.
"Mariana, não."
Ela ignorou.
Uma porta lateral abriu atrás do vidro blindado.
Mariana apareceu.
Caio virou.
"Você."
Augusto olhou assustado.
"Mariana, volta."
"Não."
Caio mudou a mira.
Apontou para ela.
Augusto avançou.
"Caio!"
Mariana ficou atrás da barreira.
"Você perdeu."
"Você roubou tudo."
"Eu não roubei nada."
"Seu nome está em tudo."
"Porque seu pai decidiu."
"Você manipulou ele."
"Não."
"Ele estava doente."
"Ele estava consciente."
"Mentira!"
Mariana olhou para o teto.
"Tem vídeo."
Caio ficou imóvel.
"Do hospital."
Ela continuou:
"Tem você jogando o prontuário no lixo."
Caio apertou o gatilho sem perceber.
Ou talvez percebendo.
O disparo explodiu no corredor.
Mariana viu o clarão.
Augusto gritou.
A bala atingiu o vidro exatamente à altura do peito dela.
O impacto formou uma mancha branca na camada externa.
Mas não atravessou.
Mariana recuou por reflexo.
O coração disparou.
Na sala de controle, quatorze câmeras registraram o tiro.
Sérgio falou no rádio:
"Disparo confirmado."
Luzes azuis começaram a piscar do lado de fora.
Sirenes.
Caio olhou para o vidro.
Depois para a arma.
E finalmente entendeu.
Aquilo não era mais ameaça.
Não era discussão familiar.
Não era disputa patrimonial.
Ele acabara de disparar contra uma mulher diante de dezenas de registros.
Renato encarou o irmão.
"Acabou."
Caio apontou a arma para ele.
"Não."
"Acabou."
"Não!"
As portas de acesso externo se abriram.
Vozes ecoaram.
"Polícia! Larguem as armas!"
Os quatro homens contratados reagiram primeiro.
Dois largaram imediatamente.
Um se ajoelhou.
Outro hesitou até ver os pontos vermelhos sobre seu peito.
Então soltou a arma.
Renato olhou para a própria mão.
Estava segurando uma pistola que mal havia levantado durante toda a invasão.
Ele abriu os dedos.
A arma caiu no chão.
Caio olhou horrorizado.
"O que você está fazendo?"
Renato levantou as mãos.
"Terminando."
"Traidor."
"Eu não vou morrer por você."
"Você já está nisso!"
"Eu sei."
Policiais avançaram.
Caio recuou.
Apontou para Augusto.
"Você fez isso!"
Augusto respondeu:
"Não."
"Fez!"
"Eu abri uma porta."
Caio respirava como um animal acuado.
"Vocês escolheram entrar."
A arma dele tremia.
Augusto olhou para os dois filhos.
Trinta anos.
Duas crianças sobreviventes de um incêndio.
Dois meninos que chamaram um estranho de pai.
Dois homens que transformaram amor em direito adquirido.
Ele sentiu tristeza.
Não vitória.
Nunca vitória.
"O sangue não acabou com esta família."
Caio encarou.
Augusto terminou:
"A escolha de vocês acabou."
Caio gritou e ergueu a arma.
Não chegou a atirar.
Um dispositivo de contenção explodiu em som e luz no corredor.
Caio perdeu o equilíbrio.
A arma caiu.
Dois agentes entraram.
Ele tentou lutar.
Foi derrubado.
Algemado.
Continuou gritando.
"Eu sou Caio Valença!"
Um policial respondeu:
"Agora você é um preso."
Renato ficou ajoelhado.
As mãos atrás da cabeça.
Quando os agentes se aproximaram, ele começou a falar.
"Eu conto tudo."