Estranho.
Ela olhou ao redor.
"Seu Anselmo?"
Nada.
O elevador estava no térreo.
As portas abertas.
Mariana hesitou.
Pensou em usar a escada.
Então lembrou da discussão com Augusto.
Não queria viver com medo.
Entrou.
Apertou o terceiro andar.
As portas começaram a fechar.
Uma mão apareceu entre elas.
Mariana recuou.
As portas abriram novamente.
Um homem entrou.
Alto.
Jaqueta escura.
Barba curta.
Ela nunca o tinha visto.
Ele não apertou nenhum botão.
Apenas ficou parado.
O elevador começou a subir.
Mariana sentiu o corpo inteiro tensionar.
O homem olhou para o painel.
Primeiro andar.
Segundo.
Então virou para ela.
Antes que a porta chegasse ao terceiro, ele estendeu a mão e apertou o botão de manter aberto.
As portas se abriram lentamente.
Ele olhou diretamente para Mariana.
E perguntou:
"Mariana Reis?"
Parte 8
Setenta e Duas Horas
"Mariana Reis?"
O homem segurava a porta do elevador aberta com uma das mãos.
Mariana não respondeu.
Seu corpo inteiro ficou rígido.
O corredor do terceiro andar parecia mais estreito do que nunca, e por um segundo ela pensou em apertar o botão do térreo e tentar fechar a porta antes que ele entrasse.
Mas ele já estava dentro.
"Quem é você?"
O homem não se aproximou.
"Meu nome é Rafael."
"Rafael o quê?"
"Rafael Mendes."
"Eu deveria saber quem você é?"
"Não."
Mariana deu um passo para trás.
"Então sai do elevador."
Ele permaneceu parado.
"Não posso."
Ela sentiu o medo se transformar em raiva.
"Se você não sair agora, eu vou gritar."
"Pode gritar."
Mariana ficou ainda mais assustada.
Rafael levantou lentamente as duas mãos.
"Eu não estou aqui para machucar você."
"Todo mundo que quer machucar alguém fala isso."
"Justo."
"Então quem mandou você?"
Ele hesitou.
Foi o suficiente.
Mariana já sabia.
"Augusto."
Rafael não respondeu.
Ela riu de nervoso.
"Claro."
"Senhora Mariana..."
"Não me chama de senhora."
"Desculpe."
"Você está me seguindo?"
"Estou acompanhando seus deslocamentos."
"Isso é seguir."
"Meu trabalho é garantir que ninguém se aproxime de você sem que a gente saiba."
"A gente quem?"
Rafael olhou para o corredor.
"Seria melhor conversar dentro do apartamento."
"Não."
"Mariana..."
"Você sabe meu nome, sabe onde eu moro e provavelmente sabe onde eu estudo. Eu não sei nada sobre você."
Ele assentiu.
"Você tem razão."
Rafael tirou lentamente uma carteira do bolso interno da jaqueta.
Abriu.
Havia identificação profissional, fotografia e credenciais de uma empresa de segurança.
Mariana leu.
"Proteção executiva?"
"Sim."
"Eu não sou executiva."
"Não."
"Então por que existe proteção executiva me esperando dentro do meu elevador?"
"Porque Augusto Valença pediu."
Ela fechou os olhos.
"Meu Deus."
Rafael continuou:
"E porque existe uma ameaça concreta."
Mariana ergueu o rosto.
"A fotografia?"
"Não só."
"Caio?"
"Principalmente."
"Renato também?"
Rafael permaneceu em silêncio.
Mariana entendeu.
"Vocês sabem mais do que estão me contando."
"Eu só posso falar sobre a parte que me cabe."
"Que conveniente."
"Minha parte é manter você viva."
A frase atingiu Mariana.
Dessa vez ela não respondeu imediatamente.
O elevador começou a apitar porque a porta permanecia aberta.
Rafael soltou o botão.
"Vamos sair daqui."
Mariana hesitou.
Depois saiu.
Ele veio atrás.
Ela se virou imediatamente.
"Não entra."
"Preciso verificar o apartamento."
"Não."
"Mariana."
"Já chega de homens decidindo o que podem fazer dentro da minha vida."
Rafael parou.
Ela pegou o celular.
"Vou ligar para Augusto."
"Pode."
Mariana discou.
Ele atendeu no primeiro toque.
"Mariana."
Ela explodiu:
"Tem um homem na minha porta."
Augusto ficou em silêncio por um segundo.
"Rafael?"
"Então você sabe."
"Se for o Rafael, ele faz parte da equipe."
"Eu vou matar você."
"Prefiro que não."
"Você colocou um segurança dentro do meu prédio sem me contar."
"Depois da ameaça..."
"Eu falei para não fazer isso."
"Eu sei."
"E fez mesmo assim."
"Fiz."
Mariana respirou fundo.
"Você perdeu completamente a noção."
"Talvez."
"Eu estou falando sério."
"Eu também."
Ela olhou para Rafael.
Ele havia se afastado alguns passos, fingindo não ouvir.
"Eu quero ele fora daqui."
Augusto respondeu:
"Então vem para cá."
"Para onde?"
"Eu mando um carro."
"Não quero carro."
"Mariana."
"Para de usar meu nome como se isso resolvesse."
Do outro lado, Augusto ficou quieto.
Ela continuou:
"Você me deve a verdade."
"Eu sei."
"Toda."
"Sim."
"Sem segurança secreta."
"Sim."
"Sem advogado decidindo o que eu posso ou não saber."
"Sim."
"Sem mais metade."
Augusto respirou fundo.
"Vem até mim."
Mariana olhou para Rafael.
"Ele vem junto?"
"Até você chegar, sim."
"Eu odeio isso."
"Eu sei."
"Não, você não sabe."
"Provavelmente não."
A resposta a desarmou um pouco.
"Me manda o endereço."
"Já mandei para Rafael."
Mariana fechou os olhos.
"Claro que mandou."
Quarenta minutos depois, ela estava diante de um prédio discreto no Jardim Paulista.
Nada indicava que Augusto estivesse ali.
Não havia placas.
Não havia carros de luxo estacionados na porta.
Nem jornalistas.
Rafael acompanhou Mariana até um elevador privativo.
No último andar, Helena esperava.
Mariana saiu irritada.
"Você também sabia."
Helena assentiu.
"Sabia."
"Todo mundo sabe tudo menos eu."
"Nem tudo."
"Isso deveria me tranquilizar?"
"Não."
Helena abriu a porta.
Augusto estava na sala.
Ao lado dele, havia uma mesa coberta de documentos.
Mariana entrou.
"Agora você vai me contar."
"Vou."
"Do começo."
"Do começo que importa para você."
Ela estreitou os olhos.
"Augusto."
"Tudo que diz respeito à sua segurança."
"Melhor."
Rafael fechou a porta e ficou do lado de fora.
Mariana apontou.
"Ele vai continuar me seguindo?"
Augusto respondeu:
"Por enquanto."
"Eu não concordei."
"Você foi oficialmente colocada sob proteção de nível máximo."
"Por quem?"
"Por mim."
"Você não é dono de mim."
"Não."
"Então como pode fazer isso?"
"Porque a estrutura jurídica ligada às patentes prevê proteção obrigatória de qualquer pessoa cuja integridade seja relevante para a execução do acordo."
Mariana ficou imóvel.
"Você escreveu isso?"
"Helena."
Ela olhou para a advogada.
Helena respondeu:
"Augusto é desconfiado."
"Estou percebendo."
Augusto puxou uma cadeira.
"Senta."
"Prefiro ficar em pé."
"Como quiser."
Ele abriu uma pasta.
"Você acha que Caio quer apenas te assustar."
"Ele mandou uma foto de cova."
"Eu sei."
"Então parece mais do que assustar."
"Ele quer que você abra mão do instituto."
"Eu já falei que abriria."
"Não é isso que ele quer."
"Então o quê?"
Augusto empurrou um documento na direção dela.
"Ele acredita que as patentes podem voltar diretamente para a estrutura familiar."
Mariana leu algumas linhas.
"Não entendo nada disso."
Helena se aproximou.
"Vou simplificar."
Ela colocou o dedo sobre uma cláusula.
"As três patentes não estão sendo simplesmente dadas a você."
"Isso eu já sabia."
"Elas estão sendo vinculadas a uma estrutura de benefício público."
"Instituto Reis-Valença."
"Sim."
"E o que Caio quer?"
"Controle."
Mariana assentiu.
"Isso eu entendi."
Helena continuou:
"Mas ele provavelmente acredita que, se você assinar uma renúncia ou cessão, o controle volta para Augusto ou para os herdeiros."
"E não volta?"
"Não."
Mariana levantou os olhos.
"Para onde vai?"
"Depende."
Augusto interveio:
"O acordo foi construído justamente para impedir coação."
"Como?"
Helena abriu outra página.
"Qualquer alteração que dependa da sua manifestação exige quatro condições."
Mariana ficou atenta.
"Primeiro, consentimento livre."
"Como provam isso?"
"Entrevista presencial, sem presença de interessados."
"Segundo?"
"Advogado independente escolhido fora da estrutura de Augusto."
"Terceiro?"
"Validação de identidade em múltiplas etapas."
"E quarto?"
Helena olhou para ela.
"Setenta e duas horas."
Mariana franziu a testa.
"Setenta e duas horas para quê?"
"Entre sua primeira manifestação e qualquer decisão definitiva."
"Por quê?"
"Para impedir que alguém coloque uma arma na sua cabeça e consiga alguma coisa."
O silêncio caiu na sala.
Mariana demorou a responder.
"Você está dizendo que, mesmo se eles me sequestrarem e me obrigarem a assinar..."
"Não vale."
"E se eu gravar um vídeo?"
"Não vale."
"Assinar documento?"
"Não vale."
"Fazer reconhecimento?"
"Não vale sem todas as etapas."
"Então eles não conseguem nada à força."
"Exatamente."
Mariana soltou o ar.
Pela primeira vez em dias, sentiu um pouco de alívio.
Durou pouco.
Ela olhou para Augusto.
"Então por que estão me ameaçando?"
"Porque não sabem."
"Caio não leu os documentos."
Augusto quase sorriu.
"Caio raramente lê documentos."
"Renato lê."
"Sim."
"Então ele pode descobrir."
"Pode."
Mariana se aproximou da mesa.
"E se alguma coisa acontecer comigo antes dessas setenta e duas horas?"
Helena ficou séria.
"Existe outra cláusula."
Mariana percebeu pelo rosto dela.
"Qual?"
Augusto respondeu:
"Se você desaparecer de forma suspeita ou morrer enquanto estiver vinculada à estrutura, as patentes saem automaticamente do alcance de qualquer parte ligada à família Valença."
Mariana ficou parada.
"E vão para onde?"
"Um fundo internacional de finalidade pública."
"Então..."
Ela precisou organizar o pensamento.
"Se eles me matarem..."
Augusto interrompeu:
"Eles perdem qualquer possibilidade de recuperar controle."
"Para sempre?"
"Sim."
"E se me sequestrarem?"
"Não conseguem assinatura válida."
"Se me ameaçarem?"
"Também não."
"Então eu não sirvo para nada para eles."
Helena respondeu:
"Juridicamente, não."
Mariana sentiu um frio subir pela nuca.
"Mas eles não sabem disso."
Augusto não respondeu.
Ela entendeu.
"Eles acham que eu sou a chave."
"Sim."
"Meu Deus."
Mariana afastou-se da mesa.
"Então vocês me colocaram no centro de um plano que faz de mim um alvo para homens que não sabem que eu sou inútil para o objetivo deles."