《Eles Me Deixaram Morrer Pelo Meu Dinheiro》Capítulo 14

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"Minha vida foi virada do avesso."

"Eu sei."

"Não sabe."

"Eu sei, sim."

"Você continua agindo como se isso fosse uma operação empresarial."

"Porque eu preciso pensar."

"Eu preciso sentir."

A frase parou Augusto.

Mariana respirava rápido.

"Você está sendo ameaçado de morte."

"Não é a primeira vez."

Ela ficou chocada.

"Isso não torna normal."

"Eu não disse que torna."

"Parece."

Augusto passou a mão pelo rosto.

"Mariana, se eu entrar em pânico, Caio ganha."

"Isso não é sobre ganhar."

"É."

"Não."

"É sobre fazer eles responderem pelo que fizeram."

"Eu não quero morrer no meio da sua justiça."

Silêncio.

Augusto abaixou os olhos.

A frase o atingiu.

Mariana percebeu.

Mas não retirou.

"Eu quero sair."

"Não é seguro."

"Eu quero sair disso."

"Do instituto?"

"De tudo."

"Não dá mais."

"Por quê?"

"Porque agora eles sabem quem você é."

"Então isso é minha prisão?"

"Não."

"Parece."

Augusto tentou se aproximar.

Ela recuou.

"Não."

"Mariana."

"Eu preciso pensar."

"Não sai sozinha."

"Eu preciso ir para aula."

"Hoje não."

"Você não manda em mim."

"Hoje eu estou pedindo."

"Com segurança escondida atrás?"

Ele ficou em silêncio.

Mariana pegou a mochila.

"Não faz isso."

"Eu tenho prova."

"Depois de uma ameaça de morte?"

"Se eu faltar toda vez que eles ameaçarem alguma coisa, eles conseguem exatamente o que querem."

Augusto reconheceu as próprias palavras nela.

E isso o assustou.

"Então vai com alguém."

"Não."

"Mariana."

Ela olhou para ele.

"Eu não quero viver olhando por cima do ombro."

Augusto respondeu:

"Talvez precise por alguns dias."

"Isso para você é normal."

"Para mim é sobrevivência."

"E para mim era só terça-feira."

Ela saiu.

A porta bateu.

Augusto ficou sozinho.

Pegou o celular.

Ligou.

Helena atendeu imediatamente.

"Ela recebeu a ameaça?"

"Sim."

"Gravamos."

"Caio ligou."

"Melhor ainda."

Augusto fechou os olhos.

"Ele ameaçou me matar."

"Eu sei."

"Ela está com medo."

"Também sei."

"Quero encerrar isso rápido."

Helena ficou em silêncio.

"Rápido pode estragar tudo."

Augusto olhou para a porta.

"Eu não quero que ela pague pelo tempo que precisamos."

"Ela já está pagando."

A resposta veio dura.

Augusto não contestou.

Helena continuou:

"O Ministério Público já tem parte do material."

"E a polícia?"

"Está acompanhando."

"Quando prendem?"

"Quando tivermos crime suficiente e ligação direta."

"Uma ameaça não basta?"

"Ajuda."

"Helena."

"Augusto, se prendermos Caio agora por uma ameaça isolada, Renato pode desaparecer, destruir documentos e cortar todas as pontes."

Ele ficou em silêncio.

"Você quer os dois?"

"Quero verdade."

"Então precisamos de mais."

Augusto apertou o celular.

"E o contato deles?"

"Ativo."

"Confia?"

"Completamente."

"Ele está se aproximando de Renato?"

"Já está."

Enquanto isso, Renato acreditava exatamente no contrário.

Ele estava sentado numa mesa discreta nos fundos de um restaurante na Zona Sul.

À sua frente, um homem de quarenta e poucos anos mexia o café sem beber.

Seu nome era Marcelo Duarte.

Ex-funcionário do setor de segurança patrimonial do Grupo Valença.

Tinha saído dois anos antes depois de uma investigação interna.

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Pelo menos era essa a história que Renato conhecia.

"Você encontrou?", Renato perguntou.

Marcelo deu de ombros.

"Talvez."

"Eu não vim aqui para talvez."

"Você veio aqui porque não pode pedir isso para quem ainda trabalha lá."

Renato colocou um envelope sobre a mesa.

Marcelo nem tocou.

"Quanto?"

"Primeira parte."

"Para quê?"

"Endereço."

"De quem?"

"Você sabe."

Marcelo olhou ao redor.

"Mariana Reis."

Renato assentiu.

"Ela não está mais no endereço original."

O rosto dele mudou.

"Como sabe?"

"Porque alguém tirou ela de lá."

"Augusto?"

"Provavelmente."

"Onde?"

"Estou descobrindo."

Renato colocou outro envelope.

Marcelo arqueou a sobrancelha.

"Agora está melhor."

"Eu quero localização."

"E depois?"

"Não é problema seu."

Marcelo encarou Renato.

"Se alguém aparecer morto, vira problema meu."

"Não vai."

"Tem certeza?"

Renato ficou calado.

Marcelo continuou:

"Caio está fora de controle."

"Eu sei."

"Então por que está com ele?"

"Porque não tenho escolha."

"Todo mundo tem."

Renato riu sem humor.

"Você não conhece Augusto."

"Conheço o suficiente."

"Não conhece."

Marcelo apoiou os braços na mesa.

"Talvez você também não."

Renato fechou o rosto.

"Consegue o endereço."

"Vou tentar."

"Até amanhã."

"Pode custar mais."

"Dinheiro não é problema."

Marcelo quase sorriu.

"Por enquanto."

Renato se levantou.

"Me liga."

Saiu.

Marcelo esperou alguns minutos.

Depois entrou no banheiro.

Trancou uma cabine.

Tirou o envelope do bolso.

Abriu.

Fotografou as cédulas.

Depois pegou outro celular.

Fez uma chamada.

Helena atendeu.

"Ele mordeu."

Marcelo falou baixo.

"Quer o endereço da Mariana."

"Pagou?"

"Sim."

"Registrou?"

"Foto, áudio e câmera do restaurante."

"Perfeito."

"E tem mais."

"O quê?"

"Ele falou que Caio está fora de controle."

Helena ficou em silêncio.

"Continua perto."

"Até onde?"

"Até eles mostrarem o que pretendem fazer."

Marcelo olhou para o envelope.

"Isso está ficando perigoso."

"Eu sei."

"Augusto sabe?"

"Sabe."

Marcelo respirou fundo.

"E Mariana?"

Helena demorou.

"Não tudo."

Ele fechou os olhos.

"Isso pode dar errado."

Helena respondeu:

"É por isso que você está aí."

A ligação terminou.

Nos dois dias seguintes, tudo piorou.

Caio enviou mais mensagens.

Nenhuma tão direta quanto a primeira.

Mas todas suficientemente claras.

Uma fotografia do prédio da faculdade.

Outra de uma rua que Mariana atravessava com frequência.

Depois uma imagem de Augusto saindo de uma consulta.

Mariana mostrou tudo para Helena.

"Isso significa que estão seguindo a gente."

"Ou querem que você pense isso."

"Qual a diferença?"

"Uma muda a estratégia."

"Para mim não muda o medo."

Helena assentiu.

"Você tem razão."

Era a primeira pessoa envolvida naquela história que respondia sem tentar diminuir.

Mariana gostou dela um pouco mais por isso.

"Vocês sabem quem está fazendo?"

"Temos indícios."

"Caio?"

"Principalmente."

"E Renato?"

"Também está se movimentando."

"Como?"

"Procurando informações."

"Que tipo?"

"Endereço. Rotina. Pessoas próximas."

Mariana ficou gelada.

"Você fala isso como se fosse normal."

"Não é."

"Então prendam eles."

"A investigação precisa estar sólida."

"Enquanto isso eu faço o quê?"

"Não fica sozinha."

Ela riu.

"Todo mundo diz isso."

"Porque é importante."

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"E Augusto?"

"O quê?"

"Ele acha que pode provocar eles até fazerem alguma coisa maior."

Helena não respondeu.

Mariana percebeu.

"É isso?"

"Não exatamente."

"É exatamente."

"Augusto quer que eles cometam erros."

"Comigo perto."

"Não."

"Sim."

Helena respirou fundo.

"Ele jamais usaria você como isca."

"Tem certeza?"

Helena demorou um segundo.

Foi suficiente.

Mariana entendeu.

Naquela noite, Augusto voltou ao apartamento depois de uma reunião com advogados.

Mariana estava esperando.

Sentada à mesa.

Braços cruzados.

"Precisamos conversar."

Ele fechou a porta.

"Sobre o quê?"

"Sobre eu ser uma isca."

Augusto parou.

"Quem disse isso?"

"Ninguém precisou."

"Mariana..."

"Você sabe que eles estão procurando meu endereço."

"Sei."

"Você sabe que estão comprando informação."

"Sei."

"Você sabe que Caio me ameaçou."

"Sei."

"E você continua esperando."

"Não estou esperando."

"Então o que está fazendo?"

Augusto tirou o casaco.

"Reunindo provas."

Ela se levantou.

"Pronto."

"Pronto o quê?"

"Você acabou de admitir."

"Admitir o quê?"

"Você quer que eles continuem."

"Eu quero que sejam presos."

"Então chama a polícia."

"Já chamei."

"Mas não quer que pare agora."

Augusto ficou em silêncio.

Mariana sentiu raiva subir.

"Meu Deus."

"Mariana."

"Você está fazendo isso."

"Eu estou tentando resolver de uma vez."

"À custa de quê?"

"De nada."

"Mentira."

Ela apontou para si.

"Eu."

"Não."

"Sim."

"Você está protegida."

"Protegida não significa segura."

Augusto deu um passo.

"Eu não deixaria nada acontecer."

"Você quase morreu num hospital porque seus próprios filhos decidiram não pagar um remédio."

A frase o parou.

"Você não controla tudo."

"Eu sei."

"Não parece."

A voz dela começou a falhar.

"Você passou a vida inteira achando que podia consertar tudo depois."

Augusto ficou imóvel.

Mariana continuou:

"Caio quebra, você conserta."

"Renato mente, você conserta."

"E agora eles ameaçam matar alguém e você acha que vai controlar até o momento certo de eles serem presos."

Ele baixou os olhos.

"Você está certa."

Mariana não esperava.

"Mas..."

Ela riu amarga.

"Sempre tem um mas."

Augusto falou:

"Se eu recuar agora, eles desaparecem."

"Então deixa."

"Não posso."

"Por quê?"

"Porque fizeram isso com a empresa."

"Isso é dinheiro."

"Não é só."

"E fizeram isso comigo."

"Isso é entre vocês."

"E agora estão fazendo com você."

"Porque você me colocou aqui."

A frase ficou no ar.

Augusto não respondeu.

Mariana pegou a bolsa.

"Vou sair."

"Agora?"

"Preciso respirar."

"Não sozinha."

"Eu não aguento mais ouvir isso."

"É noite."

"Eu sei ver relógio."

"Mariana."

"Não."

Ele se colocou diante da porta.

Ela o encarou.

"Vai me impedir?"

Augusto recuou imediatamente.

"Não."

"Ótimo."

"Mas leva o carro."

"Não."

"Então deixa Sérgio..."

"Não quero conhecer Sérgio."

Augusto fechou os olhos.

"Me manda mensagem quando chegar."

Mariana respondeu:

"Talvez."

E saiu.

Foi para a biblioteca da faculdade.

Ficou lá até quase dez da noite.

Tentou estudar.

Não conseguiu.

Toda vez que o celular vibrava, seu coração acelerava.

Nenhuma ameaça nova.

Apenas mensagens de colegas.

Uma de Helena.

Outra de Augusto.

"Chegou?"

Ela não respondeu.

Às dez e vinte, decidiu voltar.

Pegou um carro por aplicativo até o prédio.

A rua parecia normal.

Uma farmácia aberta.

Um casal caminhando com um cachorro.

Dois adolescentes rindo perto de uma lanchonete.

Mariana se odiou por sentir medo de tudo.

Entrou.

O porteiro não estava no balcão.

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