"O hospital possui câmeras em várias áreas. E Augusto também tem outras evidências."
Mariana virou para ele.
"Que outras?"
Augusto não respondeu imediatamente.
"Coisas que meus filhos acreditavam que ninguém estava registrando."
Ela lembrou do hospital.
Da frase.
"Deixa a natureza terminar o trabalho."
Sentiu o estômago apertar.
Augusto continuou:
"Eles querem transformar você em culpada porque precisam de alguém para culpar."
"Por quê?"
"Porque é mais fácil dizer que uma desconhecida me manipulou do que admitir que fui eu quem finalmente decidiu parar de protegê-los."
Mariana fechou os olhos.
Parte dela ainda queria sair.
Apagar o nome.
Sumir.
Voltar às aulas e fingir que nada daquilo havia acontecido.
Mas o vídeo permanecia na tela.
Caio jogando o prontuário no lixo.
Renato olhando.
Ela recolhendo.
Aquela imagem mostrava uma verdade brutal.
Ela não entrara naquela família.
A família já estava destruída antes de ela aparecer.
Enquanto Mariana tentava decidir se ficava ou fugia, Renato estava estacionado num subsolo da Vila Olímpia.
O local estava quase vazio.
Ele permanecia dentro do carro com o motor desligado.
Na tela do celular havia um número que não usava havia anos.
Hesitou.
Depois ligou.
Um homem atendeu.
"Alô?"
Renato olhou pelo retrovisor.
"Sou eu."
Silêncio.
"Renato?"
"Preciso de uma informação."
"Depois de três anos, você liga pedindo informação?"
"Eu pago."
O homem riu.
"Continua igual."
"Você ainda conhece gente dentro da segurança do Grupo?"
"Talvez."
"Conhece ou não?"
"Depende do que quer."
Renato fechou os olhos.
Diferentemente de Caio, ele não gritava.
Nunca precisava.
"Preciso localizar uma pessoa."
"Quem?"
Renato abriu uma fotografia de Mariana.
Ficou olhando para ela.
"Mariana Reis."
O homem ficou em silêncio.
"Essa garota das notícias?"
"Sim."
"Por quê?"
"Isso não é da sua conta."
"Se eu for procurar, passa a ser."
Renato respirou devagar.
Então fez a única pergunta que importava.
"Mariana está morando onde?"
Parte 7
A Fotografia da Cova
A primeira mensagem chegou às seis e quarenta e dois da manhã.
Mariana ainda estava sentada à mesa da cozinha, com uma caneca de café frio ao lado e um livro de infectologia aberto diante dela.
Augusto dormia no quarto.
Ou fingia dormir.
Nos últimos dias, ela já não sabia dizer.
O celular vibrou.
Número desconhecido.
Mariana abriu.
Não havia texto.
Apenas uma fotografia.
Ela demorou alguns segundos para entender o que estava vendo.
Terra escura.
Capim amassado.
Uma pá jogada ao lado.
E, no centro da imagem, uma cova recém-aberta.
Longa.
Profunda.
Do tamanho exato para um corpo adulto.
Mariana ficou imóvel.
O café pareceu azedar em sua boca.
Ampliou a imagem.
Ao fundo havia árvores.
Uma estrada de terra.
Nada que permitisse identificar o lugar.
Então chegou uma segunda mensagem.
"Devolve o que roubou."
Mariana parou de respirar por um instante.
O celular vibrou novamente.
"Ou alguém vai ocupar essa cova."
Ela levantou tão rápido que a cadeira caiu para trás.
O barulho acordou Augusto.
Ele apareceu na porta do quarto poucos segundos depois.
Ainda usava a camisa larga que Mariana havia emprestado para dormir.
"Mariana?"
Ela não respondeu.
"Mariana."
Augusto se aproximou.
Viu o rosto dela.
"O que aconteceu?"
Ela entregou o celular.
Ele leu.
Depois ampliou a fotografia.
Nenhuma mudança visível.
Nenhum susto.
Nenhuma explosão.
Mariana percebeu.
E aquilo a irritou.
"É só isso?"
Augusto levantou os olhos.
"Como?"
"Você olha uma foto de uma cova e fica com essa cara?"
"Que cara?"
"Essa."
"Eu não sei que cara estou fazendo."
"Exatamente."
Ela pegou o celular de volta.
"Parece que alguém mandou uma cobrança de condomínio."
Augusto respirou fundo.
"Eu já esperava alguma coisa assim."
Mariana ficou parada.
"Você esperava?"
"Sim."
"E não achou importante me avisar?"
"Eu não sabia quando aconteceria."
"Mas sabia que podia acontecer."
"Sabia."
Ela riu sem humor.
"Claro."
"Mariana."
"Não."
Ela andou até a janela.
"Não fala meu nome nesse tom."
"Que tom?"
"Como se eu estivesse exagerando."
"Eu não acho que esteja."
"Parece."
Augusto se aproximou.
"Isso é grave."
"Então começa a agir como se fosse."
"Eu estou agindo."
"Como?"
"Helena já foi avisada."
Mariana virou.
"Já?"
Augusto percebeu o erro.
"Você mandou a mensagem para ela?"
"Não."
"Então como ela já sabe?"
Silêncio.
Mariana franziu a testa.
"Augusto."
Ele não respondeu imediatamente.
"Você está monitorando meu celular?"
"Não."
"Então fala."
Augusto passou a mão pelo rosto.
"Há alertas configurados para ameaças relacionadas ao seu nome."
Mariana ficou alguns segundos sem entender.
"Alertas?"
"Segurança digital."
"Você colocou segurança digital em mim sem perguntar?"
"Depois do que aconteceu com a imprensa, achei necessário."
"Você achou."
"Sim."
"Você decide tudo."
"Eu tento impedir que alguém te machuque."
"Sem me contar nada."
"Se eu te contasse cada medida..."
"Eu decidiria se quero."
A discussão foi interrompida por uma ligação.
Número oculto.
Mariana olhou para a tela.
Depois para Augusto.
Ele estendeu a mão.
"Não atende."
Ela recuou.
"Por quê?"
"Pode ser eles."
"É exatamente por isso que eu vou atender."
"Mariana."
Ela tocou na tela.
"Alô?"
Silêncio.
Depois uma respiração.
Mariana sentiu o corpo inteiro endurecer.
Uma voz masculina veio do outro lado.
"Finalmente."
Ela reconheceu.
Caio.
"Como conseguiu meu número?"
Ele riu.
"Isso importa?"
"Importa para a polícia."
"Você já chamou?"
Mariana olhou para Augusto.
Ele ficou imóvel.
"Você está me ameaçando?"
"Estou te dando uma chance."
"De quê?"
"De consertar o que fez."
"Eu não fiz nada."
"Você roubou meu pai."
Mariana apertou o celular.
"Seu pai estava morrendo no chão."
"E você viu uma oportunidade."
"Eu paguei o remédio antes de saber quem ele era."
Caio ficou em silêncio.
Por meio segundo.
Depois respondeu:
"Bonita história."
"É verdade."
"Verdade depende de quem conta."
Mariana respirou fundo.
"Você jogou o prontuário dele no lixo."
O silêncio do outro lado mudou.
Augusto observou.
Caio respondeu mais baixo:
"Você está achando que sabe demais."
"Eu sei o suficiente."
"Não."
A voz ficou fria.
"Você sabe exatamente o que Augusto deixou você saber."
"Ele não deixou nada."
"Então por que seu nome está nas patentes?"
"Meu nome não é da sua conta."
"É da minha família."
Mariana explodiu.
"Família?"
Augusto levantou os olhos.
"Você deixou seu pai morrer porque achou caro salvar ele."
Caio respondeu:
"Você não entende o que aconteceu."
"Entendo."
"Não entende."
"Você perguntou quanto sobraria."
Silêncio.
"Você ouviu?"
"Não precisava."
"Quem te contou?"
Mariana percebeu a tensão.
"Por quê? Está preocupado com o que ficou registrado?"
Caio respirou fundo.
"Devolve o que roubou."
"Eu não roubei nada."
"Então abre mão."
"Do quê?"
"Das patentes."
"Você nem sabe como os documentos funcionam."
"Eu sei o bastante."
"Não parece."
"Mariana."
Ela ficou quieta.
Caio pronunciou o nome dela de um jeito que fez sua pele arrepiar.
"Você viu a foto?"
Ela apertou os dentes.
"Vi."
"Bonita, não é?"
"Doente."
"É só terra."
"Você está ameaçando me matar?"
Caio riu.
"Eu não falei isso."
"Então fala claramente."
"Não preciso."
Mariana fechou os olhos.
Augusto já estava digitando algo no celular.
Caio continuou:
"Você vai sair disso."
"Não."
"Vai."
"Não."
"Você não faz ideia de onde se meteu."
"Eu sei exatamente."
"Não sabe."
Ele baixou ainda mais a voz.
"Você acha que Augusto vai ficar vivo para sempre?"
Mariana sentiu o estômago virar.
"Deixa ele fora disso."
"Ele se colocou nisso."
"É pai de vocês."
"Era."
Augusto ficou imóvel.
Mariana ouviu.
Aquilo doeu nela de um jeito que não esperava.
"Você é um monstro."
Caio respondeu sem hesitar:
"Monstro é quem entra numa família e rouba o que não é seu."
"Você não perdeu nada por minha causa."
"Não?"
"Não."
"Então por que meu cartão foi bloqueado?"
"Porque você roubou dinheiro da empresa."
Silêncio.
Dessa vez foi longo.
Caio não esperava.
"Quem te falou isso?"
"Não interessa."
"Foi Augusto."
"Não interessa."
"Ele está aí?"
Mariana olhou para ele.
Augusto fez um gesto de não.
Ela respondeu:
"Você não tem o direito de perguntar."
Caio riu.
"Claro que tenho."
"Não."
"Então manda um recado."
"Qual?"
"Se você não devolver o que roubou, o velho vai ser o primeiro a entrar naquela cova."
Mariana ficou gelada.
Augusto ouviu.
Ela percebeu pela expressão.
Pela primeira vez desde que a ameaça começara, algo mudou no rosto dele.
Não medo.
Raiva.
Caio desligou.
Mariana ficou segurando o celular.
Silêncio.
Depois olhou para Augusto.
"Você ouviu."
"Sim."
"Agora acredita?"
"Eu já acreditava."
"Então chama a polícia."
"Helena já chamou."
Ela ficou parada.
"Quando?"
"Ontem."
"Ontem?"
"Depois do primeiro acesso irregular aos seus dados."
Mariana balançou a cabeça.
"Você já sabia que estavam procurando meu endereço."
"Sim."
"Você sabia."
"Sim."
"E eu continuei indo para faculdade."
"Com proteção."
Ela piscou.
"Com o quê?"
"Proteção."
"Que proteção?"
"Você não estava sozinha."
Mariana começou a rir.
Não porque achasse engraçado.
Porque estava perto de perder o controle.
"Você colocou gente me seguindo?"
"Protegendo."
"Seguindo."
"Mariana..."
"Há quanto tempo?"
Augusto não respondeu.
"Há quanto tempo?"
"Três dias."
Ela levou a mão à testa.
"Meu Deus."
"Era necessário."
"Você não pode decidir isso por mim."
"Eu posso quando existe risco concreto."
"Não."
"Posso."
"Não pode."
Augusto ficou firme.
"Se alguma coisa acontecer com você por minha causa..."
"Já está acontecendo."
Ela apontou para o celular.