《Eles Me Deixaram Morrer Pelo Meu Dinheiro》Capítulo 10

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Augusto abaixou os olhos.

"Porque, naquela noite, eu realmente não tinha."

Mariana ficou em silêncio.

A frase a atingiu, mas não diminuiu sua raiva.

"Você podia ter me contado."

"Podia."

"Então por que não contou?"

Augusto demorou alguns segundos.

"Porque eu queria saber como era ser tratado sem o peso do meu sobrenome."

"Eu não sou um experimento seu."

"Eu sei."

"Tem certeza?"

"Tenho."

Mariana cruzou os braços.

"Porque, do meu ponto de vista, eu passei dias achando que estava ajudando um homem abandonado pelos filhos, enquanto esse mesmo homem podia comprar o prédio inteiro onde eu moro."

Augusto quase respondeu.

Ela não deixou.

"Você viu minha conta bancária praticamente desaparecer."

"Vi."

"Viu eu usar crédito."

"Vi."

"Viu eu faltar aula."

"Vi."

"E ficou em silêncio."

A acusação doeu.

Augusto aceitou.

"Sim."

Mariana respirou fundo.

"Por quê?"

"Porque, no começo, eu mal conseguia falar."

"E depois?"

"Depois eu tive vergonha."

Ela franziu a testa.

"Vergonha de quê?"

"De admitir que eu tinha tudo aquilo."

Augusto apontou para a televisão.

"Empresa. Dinheiro. Casas. Investimentos. Pessoas que me chamavam de poderoso."

A voz dele baixou.

"E mesmo assim fui deixado no chão pelos dois filhos que criei."

Mariana ficou imóvel.

Augusto continuou:

"Se eu dissesse quem eu era, tudo mudaria."

"Eu não mudaria."

"Eu não sabia."

Ela recuou um passo.

"Então você desconfiava de mim?"

"Eu desconfiava de todo mundo."

"Que ótimo."

"Mariana."

"Não."

Ela pegou o copo que havia caído e o colocou na pia.

"Você sabe o que é pior?"

Augusto esperou.

"Eu estava começando a confiar em você."

Ele respondeu baixo:

"Eu também estava começando a confiar em você."

Mariana virou.

"Não compara."

"Não estou comparando."

"Eu contei sobre minha mãe."

"Eu sei."

"Contei sobre a faculdade."

"Eu sei."

"Contei sobre minhas dívidas."

"Eu sei."

"E você me disse que era engenheiro aposentado."

"Eu sou engenheiro."

Ela riu, incrédula.

"Claro. Tecnicamente, você não mentiu."

"Foi covardia."

Mariana parou.

Augusto não desviou o olhar.

"Eu devia ter contado."

A sinceridade desarmou parte da raiva.

Não toda.

"Por que seus filhos fizeram aquilo?"

Augusto respirou devagar.

"Porque eles acreditavam que minha morte resolveria muitos problemas."

"Que problemas?"

"Dinheiro."

Mariana olhou para ele.

"Você tem dinheiro demais."

"Eu tenho."

"Então por que eles precisariam esperar você morrer?"

Augusto levantou.

Ainda caminhava com dificuldade.

Apoiou a mão na mesa.

"Porque uma coisa é ter acesso ao dinheiro de alguém."

Fez uma pausa.

"Outra é acreditar que ele pertence a você."

Mariana percebeu que havia algo maior.

"Do que estamos falando?"

Augusto olhou para a televisão.

Depois para ela.

"De onze milhões."

Ela franziu a testa.

"Onze milhões de reais?"

"Não."

Augusto respondeu com calma.

"Onze milhões de dólares em movimentações suspeitas."

Mariana ficou em silêncio.

"Isso dá..."

"Muito mais de cinquenta milhões de reais, dependendo do câmbio e do período."

Ela sentou lentamente.

"O que eles fizeram?"

Augusto permaneceu de pé.

"Durante anos, Caio e Renato tiveram acesso a contratos do Grupo Valença."

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"Você deu esse acesso?"

"Dei."

"Por quê?"

"Porque eram meus filhos."

A resposta pareceu pequena diante do tamanho do problema.

Augusto percebeu.

"Caio sempre quis provar que era capaz de comandar."

"Era?"

"Não."

"Você sabia?"

"Sim."

"Mesmo assim colocou ele dentro da empresa?"

"Sim."

Mariana balançou a cabeça.

"Isso foi um erro."

"Foi."

Augusto não tentou se defender.

"Renato era diferente."

"Mais competente?"

"Muito."

"Então ele era o cérebro?"

Augusto pensou.

"Talvez."

"Você não sabe?"

"Estou começando a aceitar coisas que antes não queria enxergar."

Mariana permaneceu em silêncio.

Augusto continuou:

"Primeiro apareceram fornecedores novos."

"Que tipo de fornecedor?"

"Consultorias. Empresas de segurança digital. Prestadores administrativos. Intermediários em contratos internacionais."

"E eram falsos?"

"Alguns existiam apenas no papel."

"Empresas de fachada?"

"Sim."

"E o dinheiro ia para onde?"

"Passava por várias contas."

Augusto caminhou até a janela.

"Algumas no Brasil. Outras fora."

"Você descobriu quando?"

"Há anos."

Mariana virou para ele.

"Anos?"

"Os primeiros sinais apareceram quase cinco anos atrás."

"Então você sabia."

"Eu suspeitava."

"E não fez nada?"

Augusto ficou em silêncio.

"Você deixou seus filhos roubarem milhões da própria empresa?"

"Não era tão simples."

"Era, sim."

Ela se levantou.

"Ou roubavam ou não roubavam."

"Eu precisava de provas."

"Levou cinco anos?"

"Não."

Augusto fechou os olhos.

"Levou cinco anos para eu parar de encontrar desculpas."

A sala ficou quieta.

Mariana percebeu que aquela era a verdadeira resposta.

"Você achava que eles iam parar sozinhos."

"Sim."

"Por quê?"

"Porque eu queria acreditar que ainda existia um limite."

"Não existia."

"Não."

Augusto virou para ela.

"No começo, pensei que Caio tivesse usado recursos da empresa para cobrir uma dívida."

"E você pagou."

"Sim."

"Depois?"

"Descobri outra movimentação."

"Pagou de novo?"

"Corrigi internamente."

"Augusto."

"Eu sei."

"Não, acho que não sabe."

Mariana se aproximou.

"Você tratou crimes como se fossem crianças quebrando alguma coisa em casa."

Ele não respondeu.

"Eles perceberam."

"Sim."

"Perceberam que você sempre consertaria."

"Sim."

"Então foram aumentando."

"Sim."

Ela ficou com raiva por ele.

"Como você não viu?"

Augusto respondeu:

"Eu vi."

A voz saiu baixa.

"Esse é o pior."

Mariana parou.

"Eu vi tudo."

Ele passou a mão no rosto.

"Vi contratos estranhos. Vi empresas criadas por pessoas ligadas a antigos funcionários. Vi consultorias sem relatórios. Vi pagamentos por serviços que nunca consegui localizar."

"E mesmo assim esperou."

"Porque, toda vez que eu chegava perto de confrontá-los, lembrava de duas crianças sentadas no banco traseiro do meu carro depois de perderem os pais."

Mariana respirou fundo.

"Augusto..."

"Eu lembrava de Caio com medo do escuro."

A voz dele falhou.

"Lembrava de Renato numa cama de hospital."

"Isso não apaga o que eles fizeram."

"Eu sei agora."

"Mas não sabia antes?"

"Sabia como empresário."

Ele olhou para ela.

"Não queria saber como pai."

Mariana entendeu.

E aquilo era pior.

"Naquela noite no hospital, o que mudou?"

Augusto não precisou pensar.

"Tudo."

Ele voltou para a poltrona.

"Eu ouvi eles discutirem meu testamento."

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Mariana ficou tensa.

"Ouvi Caio perguntar quanto receberia quando eu morresse."

Ela já sabia parte.

Mas ouvir diretamente dele era diferente.

"Ouvi Renato confirmar que não havia um testamento novo."

Augusto apertou as mãos.

"E ouvi Caio dizer para deixar a natureza terminar o trabalho."

Mariana baixou os olhos.

"Eu lembro."

"Naquele momento, percebi que não estavam apenas esperando minha morte."

Augusto encarou-a.

"Eles estavam contando com ela."

Mariana ficou em silêncio.

Augusto continuou:

"Eu sempre achei que um dia sentiria raiva suficiente para agir."

"Sentiu?"

"Não."

"Então o quê?"

"Cansaço."

Ele sorriu sem humor.

"Foi pior."

"Por quê?"

"Porque raiva passa."

"E o cansaço?"

"Acaba com a esperança."

Mariana sentou novamente.

Augusto falou:

"No hospital, eu parei de esperar que eles mudassem."

"Foi por isso que bloqueou tudo."

"Sim."

"E a auditoria?"

"Já começou."

"Vai denunciar?"

"Se os documentos confirmarem, sim."

Mariana ficou alguns segundos pensando.

Depois perguntou:

"Se você é tão rico, por que precisou de mim naquela noite?"

Augusto a encarou.

"Eu não precisava do seu dinheiro."

"Precisava do remédio."

"Sim."

"Então precisava."

"Eu podia pagar."

"Mas estava incapaz."

"Sim."

"E seus filhos não quiseram."

"Sim."

Ela ficou irritada.

"Então eu ainda não entendo."

Augusto se inclinou para frente.

"Dinheiro compra remédio."

Fez uma pausa.

"Compra hospital."

Outra.

"Compra médico particular, helicóptero, equipe, segurança."

Mariana ouviu.

"Mas dinheiro não compra o que você fez."

"Eu paguei um medicamento."

"Não."

Augusto balançou a cabeça.

"Você decidiu que minha vida valia alguma coisa antes de saber meu nome."

Mariana ficou quieta.

"Isso não está à venda."

A campainha tocou.

Os dois olharam para a porta.

Mariana franziu a testa.

"Você está esperando alguém?"

"Sim."

"Claro que está."

Ela foi abrir.

Helena Sampaio estava do lado de fora.

Ao lado dela havia um homem carregando duas pastas rígidas.

Mariana reconheceu a advogada da reportagem.

Ficou imediatamente desconfortável.

"Boa tarde."

Helena sorriu.

"Você deve ser Mariana Reis."

"Devo?"

"Augusto falou muito de você."

Mariana olhou para ele.

"Espero que dessa vez tenha contado a verdade."

Helena levantou uma sobrancelha.

Augusto respondeu:

"Estou pagando pelos meus pecados."

"Ótimo."

Helena entrou.

O homem entregou as pastas e foi embora.

Mariana fechou a porta.

"O que é isso?"

Helena colocou as pastas sobre a mesa.

"Documentos."

Mariana riu.

"Estou cercada por gente que adora essa palavra."

Augusto se aproximou.

Helena abriu a primeira pasta.

Dentro havia contratos, registros e certificados.

Mariana não entendeu.

"O que são?"

Augusto respondeu:

"Patentes."

"De quê?"

"Três tecnologias."

"Isso ajuda bastante."

Helena quase sorriu.

"São três dos ativos mais valiosos ligados à história do Grupo Valença."

Mariana olhou para Augusto.

"Quanto valem?"

"Depende."

"Não gosto quando gente rica responde depende."

"Centenas de milhões."

Ela ficou imóvel.

"De reais?"

Augusto e Helena se entreolharam.

Mariana entendeu.

"Não."

Helena respondeu:

"Os fluxos de licenciamento podem ultrapassar isso ao longo dos próximos anos."

Mariana fechou a pasta.

"Por que isso está na minha mesa?"

Augusto respondeu:

"Porque quero mudar o destino deles."

"Dos documentos?"

"Das patentes."

"Para onde?"

"Para um instituto."

Mariana sentiu que não ia gostar.

"Qual instituto?"

Augusto olhou diretamente para ela.

"Instituto Reis-Valença."

Silêncio.

Mariana piscou.

"Não."

Augusto nem havia terminado.

"O instituto vai usar parte dos royalties para..."

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