Quem assumiria o controle operacional do Grupo Valença.
Quem teria direito ao apartamento de Brasília.
Quem ficaria com a coleção de arte.
Quem poderia usar o avião executivo.
Na noite anterior, dentro do carro, Caio já havia falado como se tudo estivesse decidido.
"Eu fico com a empresa."
Renato riu.
"Você não sabe administrar a empresa."
"Eu sou diretor."
"Você tem um cargo."
"É a mesma coisa."
"Não é."
Caio apertou o maxilar.
"Então o que você quer?"
"A participação imobiliária."
"E a casa?"
"Você nem mora aqui."
"Isso não responde."
"Você quer a casa?"
"Talvez."
"Para quê?"
"Vender."
Caio ficou indignado.
"Você não vai vender a casa."
"Por quê?"
"Porque eu posso querer ficar."
"Então compra minha parte."
"Com que dinheiro?"
Renato havia rido.
Naquele momento, a frase parecera apenas uma provocação.
Agora nenhum dos dois sabia quanto dinheiro ainda podia movimentar.
Caio voltou a encarar Helena.
"Quanto tempo essa palhaçada vai durar?"
"Depende."
"De quê?"
"Dos resultados da investigação."
Renato ergueu os olhos.
"Que investigação?"
Helena ficou em silêncio por um segundo.
Foi o suficiente.
Renato compreendeu antes do irmão.
"Não."
Caio virou para ele.
"Não o quê?"
Renato ignorou.
"Helena, que investigação?"
Ela retirou um terceiro conjunto de documentos.
Dessa vez, não entregou.
"A auditoria cobre os últimos cinco anos."
Caio tentou rir.
"Auditoria de rotina?"
"Não."
"Então?"
"Fraude interna."
O rosto de Renato ficou completamente imóvel.
Caio respondeu rápido demais:
"Isso é ridículo."
Helena continuou:
"Contratos com fornecedores."
"Temos centenas."
"Empresas de consultoria."
"Também."
"Pagamentos internacionais."
Caio cruzou os braços.
"E?"
"Empresas sem estrutura operacional compatível."
Renato ficou pálido.
Helena olhou para ele.
"Algumas sequer possuem funcionários."
Caio respirou fundo.
"Isso prova o quê?"
"Ainda estamos verificando."
"Então não prova nada."
"Por enquanto, prova que há dinheiro saindo do Grupo Valença para empresas cuja prestação de serviço não está documentada."
Renato perguntou:
"Quanto?"
Helena não respondeu imediatamente.
Caio virou.
"Quanto o quê?"
Renato manteve os olhos nela.
"Quanto está sendo questionado?"
Helena abriu a pasta.
"Nas primeiras análises, o equivalente a mais de cinquenta milhões de reais."
Ninguém se mexeu.
O barulho da água de uma fonte do jardim parecia mais alto do que antes.
Caio tentou falar.
A voz falhou.
"Cinquenta..."
"Até agora."
Renato fechou os olhos por um segundo.
Caio virou para ele.
"Você sabia disso?"
"Não fala besteira."
"Eu perguntei se sabia."
"E eu estou dizendo para você ficar quieto."
Helena observava.
Não interferiu.
Caio se aproximou do irmão.
"Você está com essa cara desde que ela falou em auditoria."
"Porque eu sei o que isso significa."
"Ou porque sabe de alguma coisa?"
Renato baixou a voz.
"Você quer discutir isso aqui?"
"Eu quero saber."
"Então não seja idiota."
Caio entendeu.
Ou fingiu entender.
Os dois se calaram.
Helena fechou a pasta.
"Ótimo."
Caio encarou-a.
"O quê?"
"Vocês finalmente perceberam a gravidade."
"Você não tem prova nenhuma."
"Talvez."
"Então não pode nos tratar como criminosos."
"Não tratei."
"Bloqueou nossas contas."
"As contas vinculadas a recursos sob investigação."
"Suspendeu nossos cargos."
"Como medida cautelar."
"Nos expulsou da casa."
"Augusto revogou o acesso."
Caio bateu no portão com a palma da mão.
"Eu quero falar com ele."
"Ele não quer falar com você."
A frase foi pior do que todas as outras.
Caio ficou parado.
"Ele disse isso?"
"Disse."
"Com essas palavras?"
Helena olhou diretamente nos olhos dele.
"Ele disse que, se tivesse alguma coisa para ouvir de vocês, teria ouvido no hospital."
Renato desviou o rosto.
Caio não.
A expressão dele se transformou.
Primeiro incredulidade.
Depois medo.
Depois raiva.
"Ele ouviu?"
Helena não respondeu.
"Helena."
Silêncio.
"Ele ouviu o quê?"
Ela fechou a pasta lentamente.
"Essa pergunta vocês precisam responder sozinhos."
Caio começou a respirar mais rápido.
Renato aproximou-se dele.
"Vamos embora."
"Não."
"Caio."
"Ele estava inconsciente."
Renato apertou o braço do irmão.
"Entra no carro."
"Eu testei."
Helena ergueu uma sobrancelha.
Renato fechou os olhos.
Tarde demais.
Caio percebeu o que tinha acabado de dizer.
"Testou o quê?", Helena perguntou.
"Nada."
"Interessante."
"Eu disse nada."
Renato praticamente empurrou o irmão na direção do carro.
"Vamos."
Caio ainda tentou resistir.
Mas acabou entrando.
Renato foi para o banco do passageiro.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Então Caio perguntou:
"Você acha que ele escutou tudo?"
Renato encarou o painel.
"Eu acho que a gente tem problemas maiores."
"Maiores do que ele saber?"
"Se essa auditoria chegar nas empresas..."
"Não fala nome."
"Estamos dentro do carro."
"Não fala."
Renato virou para ele.
"Você está surtando."
"Eu estou pensando."
"Não. Agora você está com medo."
Caio ligou o motor.
"Eu não tenho medo dele."
Renato respondeu:
"Devia."
O carro arrancou.
Helena permaneceu diante do portão.
Observou até desaparecer.
Então pegou o celular.
Fez uma ligação.
"Augusto?"
A voz do outro lado respondeu.
Helena olhou para os auditores.
"Eles vieram."
Pausa.
"Sim."
Outra pausa.
"Caio falou mais do que devia."
Ela ouviu.
Depois perguntou:
"Quer que eu avance para a segunda etapa?"
Silêncio.
A resposta veio.
Helena fechou os olhos por um instante.
"Entendido."
Enquanto isso, a quase trinta quilômetros dali, Mariana Reis tentava descobrir como duas pessoas poderiam caber num apartamento que já parecia pequeno demais para uma.
Augusto estava sentado na única poltrona da sala.
Ou no que Mariana chamava de sala.
Na prática, era um espaço estreito entre a cozinha, uma mesa de duas cadeiras e uma estante velha.
"Não olha assim", ela disse.
"Assim como?"
"Como se estivesse calculando quantos metros quadrados isso tem."
"Eu sou engenheiro."
"Engenheiro aposentado."
Augusto sorriu.
"Detalhe importante."
"Eu avisei que era pequeno."
"Você disse pequeno."
"E é."
"Eu estava imaginando um conceito diferente de pequeno."
Mariana colocou uma almofada no sofá.
"Se reclamar muito, dorme aqui."
"Você disse que eu ficaria na cama."
"Posso mudar de ideia."
"Isso é abuso contra idoso."
"Denuncia."
Ele riu.
Ainda se cansava com facilidade.
Mariana percebia.
"Quer água?"
"Quero."
Ela foi até a cozinha.
Augusto observou o apartamento.
Paredes antigas.
Pintura descascando perto da janela.
Uma geladeira pequena coberta de ímãs.
Livros de medicina empilhados no chão.
Nada naquela casa valia, financeiramente, o preço de um dos relógios que Caio costumava usar.
Ainda assim, Augusto se sentia mais seguro ali do que na mansão de Alphaville.
Mariana voltou com o copo.
"Você precisa descansar."
"Você também."
"Tenho coisas para estudar."
"Você não perdeu aulas demais por minha causa?"
"Já discutimos isso."
"Eu posso pagar."
Ela ficou imóvel.
"Não."
"Mariana."
"Não."
"É justo."
"Não quero."
"Você praticamente esvaziou sua conta."
"Eu resolvo."
"Como?"
"Trabalhando."
"Você já estuda o dia inteiro."
"Então trabalho à noite."
Augusto apertou os lábios.
"Isso não faz sentido."
"Minha vida não precisa fazer sentido para você."
"Você é sempre assim?"
"Assim como?"
"Teimosa."
"Você também."
Ele quase respondeu.
Um som vindo da pequena televisão chamou a atenção dos dois.
Mariana havia deixado um canal de notícias ligado sem volume.
Ela pegou o controle.
"Deixa eu ver o tempo."
A previsão terminou.
Então apareceu a imagem de um prédio moderno na Avenida Faria Lima.
O logotipo atrás da repórter era familiar demais para Augusto.
Mariana aumentou o volume.
"Uma movimentação inesperada no Grupo Valença chamou a atenção do mercado nesta tarde."
Augusto ficou imóvel.
Mariana não percebeu.
A repórter continuou:
"Executivos ligados à família tiveram acessos suspensos, enquanto uma auditoria interna teria sido ampliada por determinação do controlador da companhia."
Na tela, apareceu uma fotografia.
Augusto.
Terno escuro.
Cabelos perfeitamente penteados.
Sorrindo ao lado de autoridades durante um evento empresarial.
Mariana olhou para a televisão.
Depois para o homem sentado em sua poltrona.
Depois de volta para a televisão.
A reportagem continuou:
"O bilionário Augusto Valença, fundador do Grupo Valença Tecnologia, reapareceu após uma internação cercada de sigilo."
O copo escapou da mão de Mariana.
Caiu no chão.
A água se espalhou pelos azulejos.
Ela não se mexeu.
Na televisão, a imagem de Augusto apareceu novamente.
O mesmo rosto.
O mesmo homem que, poucas horas antes, ela acreditava ser apenas um engenheiro aposentado abandonado pelos filhos.
Mariana virou lentamente para ele.
"Você..."
Augusto não respondeu.
"Você é Augusto Valença?"
Ele sustentou o olhar dela.
Mariana deu um passo para trás.
"Bilionário Augusto Valença?"
Augusto respirou fundo.
"Mariana..."
Ela ergueu a mão.
"Não."
Na televisão, a repórter ainda falava.
"Fontes próximas à família afirmam que decisões patrimoniais importantes podem ser anunciadas nos próximos dias."
Mariana olhou para o chão molhado.
Depois para o homem que dormira sob seu teto.
Então perguntou, com a voz baixa:
"Quem exatamente eu trouxe para dentro da minha casa?"
Parte 5
Onze Milhões
"Quem exatamente eu trouxe para dentro da minha casa?"
Mariana ficou parada no meio da sala, olhando para Augusto como se tivesse acabado de descobrir que havia convivido com um desconhecido.
Na televisão, a imagem dele continuava aparecendo ao lado de prédios empresariais, gráficos financeiros e fotografias antigas do Grupo Valença.
Augusto não tentou desligar.
Também não tentou inventar outra explicação.
"Eu sou Augusto Valença."
Mariana soltou uma risada curta, sem humor.
"Essa parte eu já entendi."
Ela apontou para a televisão.
"O que eu não entendi é por que um bilionário estava deitado no chão de um hospital público parecendo um homem que não tinha ninguém."