Agora, quando eu quase não abri os meus, ele não apareceu nenhuma vez.
Confirmei.
"RENATO VALENÇA — ACESSO REVOGADO."
Contas.
Imóveis.
Veículos.
Documentos privados.
Autorizações corporativas.
Tudo começaria a ser bloqueado.
Caio provavelmente descobriria primeiro.
Renato entenderia antes.
Nenhum dos dois saberia onde eu estava.
Ainda.
Fechei o sistema.
Depois peguei meu celular.
Havia um número que eu não discava diretamente havia quase três anos.
Eu sabia de cor.
Digitei.
Chamou uma vez.
Duas.
Na terceira, uma voz feminina atendeu.
"Augusto?"
Fiquei alguns segundos em silêncio.
Helena Sampaio não perguntou onde eu estava.
Não perguntou por que eu estava ligando.
Ela me conhecia bem demais.
"Helena."
A voz dela mudou imediatamente.
"O que aconteceu?"
Olhei para a porta por onde Mariana havia saído.
Depois para a marca da agulha no meu braço.
Pensei em Caio perguntando quanto receberia quando eu morresse.
Pensei em Renato dizendo que não havia testamento novo.
Pensei no sapato tocando meus dedos.
E na jovem desconhecida que havia entregue praticamente tudo o que possuía para que eu tivesse mais uma noite.
Meu corpo ainda estava fraco.
Minha voz também.
Mas minha decisão nunca estivera tão clara.
"Prepare tudo."
Parte 4
O Sobrenome Valença
"Esse cartão foi recusado de novo."
Caio encarou a tela da máquina como se o problema estivesse nela.
A atendente da loja de vinhos tentou manter o sorriso.
"Talvez seja alguma instabilidade do banco."
"Não existe instabilidade no meu banco."
Ele tirou outro cartão da carteira.
"Passa esse."
A máquina apitou.
Recusado.
Caio ficou imóvel.
Renato, ao lado, ergueu os olhos do celular.
"De novo?"
"Deve ser bloqueio de segurança."
"Nos dois cartões?"
"Eu resolvo depois."
Caio guardou a carteira com violência.
Tinham parado no caminho para Alphaville porque ele queria comprar uma garrafa de champanhe.
Não qualquer garrafa.
Uma francesa que Augusto costumava servir apenas em ocasiões especiais.
Quando Renato perguntou o motivo, Caio respondeu sem hesitar:
"Porque hoje é uma ocasião especial."
Augusto ainda estava vivo.
Mas, na cabeça dos dois, a sucessão já havia começado.
Saíram da loja sem a garrafa.
Caio entrou no carro irritado.
"Isso está estranho."
Renato fechou a porta.
"Talvez o banco tenha detectado alguma movimentação."
"Que movimentação?"
"Não sei."
"Você está usando seus cartões normalmente?"
Renato demorou um segundo.
"Um pagamento meu também foi recusado de manhã."
Caio virou o rosto.
"E você não falou nada?"
"Era uma compra pequena."
"Quanto?"
"Isso importa?"
"Agora importa."
Renato abriu o aplicativo do banco.
A tela carregou.
Depois apareceu uma mensagem.
Acesso temporariamente restrito.
Ele fechou o aplicativo.
Abriu novamente.
A mesma mensagem.
Caio percebeu.
"Mostra."
"Não."
"Renato."
"Eu disse que não."
O carro ficou em silêncio.
Por alguns segundos, os dois se encararam.
Então Caio perguntou:
"Você acha que foi ele?"
Renato olhou pela janela.
"Se ele estivesse consciente o suficiente para fazer isso, alguém teria avisado."
"Quem?"
"Helena."
Caio riu.
"Helena não avisa nem quando respira."
"Ela é advogada dele."
"Era para ser advogada da família."
"Você sabe que nunca foi."
Caio acelerou.
"Quando ele morrer, a primeira coisa que eu faço é demitir aquela mulher."
Renato respondeu sem olhar para ele:
"Se você tiver poder para isso."
Caio apertou o volante.
"Eu vou ter."
A entrada de Alphaville apareceu alguns minutos depois.
O condomínio onde Augusto morava não parecia apenas exclusivo.
Parecia uma pequena cidade construída para lembrar a quem entrava que dinheiro podia comprar distância.
Distância do trânsito.
Do barulho.
Da insegurança.
Dos vizinhos.
Da realidade.
A casa de Augusto ocupava um dos maiores terrenos da região.
Caio crescera ali.
Renato também.
Conheciam cada entrada.
Cada câmera.
Cada funcionário.
Cada senha que Augusto havia permitido que conhecessem.
Por isso Caio não diminuiu a velocidade quando chegou ao primeiro portão.
Encostou o carro.
O sistema de leitura deveria reconhecer a placa automaticamente.
Nada aconteceu.
Ele esperou.
O portão permaneceu fechado.
Caio buzinou.
Uma vez.
Duas.
Três.
Renato franziu a testa.
"Para."
"Tem gente lá dentro."
"Eu sei."
Caio baixou o vidro.
O segurança apareceu na guarita.
Era Júlio, um funcionário que trabalhava para Augusto havia quase dez anos.
Caio estendeu a mão.
"Abre."
Júlio não se mexeu.
"Boa tarde, senhor Caio."
"Eu disse para abrir."
"Não posso."
Caio ficou alguns segundos sem entender.
"Como é?"
"Recebi ordem expressa para não autorizar a entrada."
"Ordem de quem?"
Júlio hesitou.
"Do escritório da doutora Helena."
Caio soltou uma risada incrédula.
"Você está me impedindo de entrar na casa do meu pai?"
"Estou cumprindo uma determinação."
"Essa também é a minha casa."
Renato virou lentamente para ele.
Não era.
Caio sabia.
Renato sabia.
A escritura estava apenas no nome de Augusto.
Mesmo assim, durante anos, os dois haviam se comportado como se tudo aquilo já lhes pertencesse.
Caio abriu a porta do carro.
Renato segurou seu braço.
"Não faz cena."
"Eu vou entrar."
"Você vai fazer exatamente o que ela quer."
"Quem?"
"Helena."
Caio se soltou.
"Eu não tenho medo daquela mulher."
Renato olhou para o portão.
"Talvez devesse."
Antes que Caio respondesse, um veículo preto surgiu pela rua interna do condomínio.
Parou do outro lado do portão.
A porta traseira se abriu.
Helena Sampaio desceu.
Cinquenta e dois anos.
Cabelos escuros presos num coque simples.
Terno bege.
Pasta de couro sob o braço.
Atrás dela desceram dois homens.
Caio reconheceu um imediatamente.
Beatriz Nogueira, diretora financeira do Grupo Valença, não estava ali.
Mas aqueles dois eram auditores externos que Caio já vira em reuniões do conselho.
Seu estômago apertou.
Helena caminhou até o portão.
"Boa tarde."
Caio avançou.
"Abre essa droga."
"Não."
"Eu quero ver meu pai."
"Seu pai não está aqui."
A informação atingiu os dois.
Renato foi o primeiro a reagir.
"Onde ele está?"
"Não posso informar."
"Ele está vivo?"
Helena olhou para ele.
"Sim."
Caio mudou de expressão.
"Você falou com ele?"
"Falei."
"Quando?"
"Hoje."
"Ele estava consciente?"
Helena abriu a pasta.
"Completamente."
Caio riu.
Mas o som saiu forçado.
"Isso é impossível."
"Por quê?"
"Porque ele estava quase morto."
"Quase não é a mesma coisa que morto."
Renato observava Helena com atenção.
"Foi ele quem mandou bloquear nossos cartões?"
"Foi."
Caio deu um passo à frente.
"E minhas contas?"
"Parcialmente restritas."
"Meu acesso à casa?"
"Revogado."
"Meus veículos?"
"Os que pertencem ao patrimônio do senhor Augusto foram recolhidos ou tiveram autorização de uso suspensa."
Caio ficou vermelho.
"Você enlouqueceu."
"Não."
"Ele enlouqueceu."
"Também não."
Helena retirou um documento.
"E antes que você tente usar incapacidade mental como argumento, sugiro que leia."
Caio pegou as folhas.
Leu as primeiras linhas.
Depois parou.
Renato estendeu a mão.
"Me dá."
Caio não entregou.
"Isso é falso."
"Não é."
"Dois médicos?"
"Dois médicos independentes."
"Quem autorizou isso?"
"O próprio Augusto."
Helena continuou:
"Além disso, houve acompanhamento jurídico e registro formal de capacidade civil."
Renato finalmente tirou o documento da mão do irmão.
Leu.
A expressão dele mudou.
"Que horas isso foi feito?"
"Hoje de manhã."
"Ele assinou?"
"Assinou."
"Sem coação?"
Helena quase sorriu.
"Você está realmente perguntando isso?"
Caio perdeu a paciência.
"Augusto quase morreu e você aparece aqui com um monte de papel dizendo que ele está ótimo?"
"Ninguém disse que ele está ótimo."
"Então onde ele está?"
"Protegido."
"De quem?"
Helena olhou diretamente para ele.
"Essa é uma pergunta interessante."
Silêncio.
O rosto de Caio endureceu.
Renato interrompeu antes que o irmão falasse alguma besteira.
"O que exatamente foi suspenso?"
Helena abriu outra pasta.
"Seus cartões corporativos."
"Por quê?"
"Auditoria."
"Minhas contas?"
"Algumas estão sob análise."
"Por quê?"
"Auditoria."
"E o conselho?"
Helena olhou para os dois.
"Os assentos de vocês foram suspensos temporariamente."
Caio empalideceu.
"Você não tem poder para fazer isso."
"Eu não."
"Então quem tem?"
"Augusto."
"Ele não pode simplesmente..."
"Pode."
"Somos diretores."
"Vocês eram membros do conselho por nomeação vinculada ao bloco de controle do seu pai."
Renato baixou os olhos.
Ele sabia.
Sempre soube.
Mas ouvir aquilo em voz alta era diferente.
Caio apontou para Helena.
"Isso é vingança."
"Não."
"Então o que é?"
"Governança."
Caio riu com desprezo.
"Você sempre adorou essas palavras."
"E você sempre detestou lê-las."
Um dos auditores desviou o rosto para esconder uma reação.
Caio percebeu.
"Tem alguma coisa engraçada?"
O homem permaneceu calado.
Helena fechou a pasta.
"Vocês deveriam ir para casa."
"Esta é a minha casa."
"Não."
A palavra veio seca.
Caio se aproximou do portão.
"Eu cresci aqui."
"Isso não altera a matrícula do imóvel."
"Meu pai está morrendo."
Helena respondeu:
"Seu pai sobreviveu."
"Por enquanto."
Renato lançou um olhar rápido para o irmão.
Helena não perdeu.
"Interessante escolha de palavras."
Caio percebeu tarde demais.
"Você sabe o que eu quis dizer."
"Não tenho certeza."
"Você quer transformar tudo em ameaça."
"Eu não preciso transformar nada."
Ela inclinou a cabeça.
"As pessoas normalmente fazem isso sozinhas."
Renato colocou a mão no braço de Caio.
"Chega."
Caio se virou.
"Não manda em mim."
"Então pelo menos pensa."
"Eu estou pensando."
"Não parece."
O clima entre os irmãos mudou.
Até aquela tarde, Caio acreditava que a maior discussão seria sobre o que cada um receberia depois da morte de Augusto.
Quem ficaria com a casa de Alphaville.