《Eles Me Deixaram Morrer Pelo Meu Dinheiro》Capítulo 7

PUBLICIDADE

"Chama a médica."

"Ela está com uma parada na sala dois."

"Então chama outro médico."

"Todo mundo está ocupado."

Mariana se virou.

"Cadê o Dr. Henrique?"

"Na sala vermelha."

Ela saiu correndo.

A enfermeira chamou:

"Mariana!"

Ela não parou.

Eu puxei o ar.

Nada.

A sensação era de afogamento.

Só que não havia água.

Apenas meu próprio corpo falhando.

Meu campo de visão começou a escurecer.

Então ouvi Mariana gritando no corredor.

"Doutor!"

Um homem alto, de jaleco amassado, apareceu com ela.

"Qual paciente?"

"A sepse resistente."

Ele se abaixou ao meu lado.

"Augusto?"

Colocou o estetoscópio no meu peito.

Seu rosto mudou.

"Saturação?"

A enfermeira respondeu.

Ele verificou novamente.

"Máscara agora."

Mariana ficou ao lado.

"O pulmão?"

"Pode estar começando uma insuficiência respiratória."

"Ele precisa de terapia intensiva."

O médico não respondeu.

"Dr. Henrique."

"Eu ouvi."

"Ele precisa de terapia intensiva."

"Não tem vaga."

"Então arruma."

Ele virou para ela.

"Mariana, não funciona assim."

"Se ficar aqui, ele vai piorar."

"Você acha que eu não sei?"

"Então faz alguma coisa."

O médico respirou fundo.

"Tem um leito sendo liberado."

"Para quando?"

"Talvez em uma hora."

Mariana olhou para mim.

"Ele não tem uma hora."

O médico não gostou.

Vi no rosto dele.

Mas ela estava certa.

Minha respiração ficou ainda mais rápida.

O aparelho começou a apitar de novo.

"Pressão caindo!", disse a enfermeira.

Dr. Henrique mudou na mesma hora.

"Chama a UTI. Agora."

Mariana soltou o ar.

A equipe se movimentou.

Aquela discussão durou talvez quarenta segundos.

Para mim, pareceu uma vida inteira.

Quando colocaram a máscara sobre meu rosto, o ar entrou com mais força.

Ainda era difícil.

Mas entrou.

Mariana segurou minha mão.

"Não vai morrer agora."

A frase me surpreendeu.

Talvez porque tivesse sido dita como uma ordem.

Não como uma esperança.

Ela repetiu:

"Está me ouvindo?"

Pisquei.

"Então fica."

Eu fiquei.

Fui levado para a unidade de terapia intensiva antes das quatro da manhã.

Lembro apenas de pedaços.

Luzes passando sobre minha cabeça.

Portas.

Vozes.

Um elevador.

Depois silêncio.

Quando acordei de verdade, já era tarde.

Não sabia quanto tempo havia passado.

Havia fios ligados ao meu corpo.

Uma máquina ao lado da cama.

O ar entrava melhor.

O teto era diferente.

Por alguns segundos, não consegui lembrar onde estava.

Então vi um copo de café numa mesa.

Barato.

De máquina.

Ao lado dele, um caderno cheio de anotações.

E uma jovem dormindo sentada numa cadeira, com a cabeça apoiada na parede.

Mariana.

Ela ainda estava ali.

Mexi a mão.

Ela acordou.

"Seu Augusto?"

Aproximou-se imediatamente.

"Está me ouvindo?"

Assenti.

"Está com dor?"

Movi a cabeça.

Ela sorriu.

"Ótimo."

Tentei falar.

Minha voz saiu áspera.

"Quanto..."

Ela arregalou os olhos.

"Você falou."

Respirei devagar.

"Quanto tempo?"

"Desde ontem?"

Assenti.

"Quase um dia."

Fechei os olhos.

"Você melhorou."

Ela sorriu.

"Pelo menos um pouco."

Minha garganta ardia.

"Filhos?"

O sorriso dela desapareceu.

"Não vieram."

Eu já esperava.

PUBLICIDADE

Ainda assim, doeu.

No dia seguinte, também não vieram.

Nem no terceiro.

Nem no quarto.

Durante seis dias, Caio e Renato não apareceram uma única vez.

Nenhuma visita.

Nenhum café.

Nenhuma pergunta.

Nenhum telefonema diretamente para mim.

Apenas contatos burocráticos com o hospital.

Perguntavam sobre documentos.

Previsão de alta.

Possível incapacidade.

Nunca perguntavam:

"Ele está com medo?"

"Ele comeu?"

"Ele consegue dormir?"

Mariana perguntava.

Todos os dias.

Ela aparecia pela manhã ou no fim da tarde.

Às vezes chegava correndo.

Às vezes com olheiras profundas.

Sempre carregava alguma coisa.

Um café barato.

Uma banana.

Uma maçã.

Um pão de queijo embrulhado num guardanapo.

No quarto dia, trouxe um livro.

"Eu não sabia o que você gosta de ler."

Olhei para a capa.

"Cardiologia?"

Ela riu.

"É o que eu tinha na mochila."

"Empolgante."

"Você reclamou. Isso é um ótimo sinal."

Comecei a rir.

A tosse veio logo depois.

Ela levantou assustada.

"Não faz isso."

"Rir?"

"Quase morrer porque achou graça."

"Vou tentar ser mais sério."

"Por favor."

Havia algo leve nela.

Mesmo quando estava cansada.

Mesmo quando a vida dela claramente não era fácil.

Eu percebia pelas roupas.

Pelos sapatos gastos.

Pelo celular com a tela rachada.

Pelo jeito como sempre conferia o preço antes de comprar alguma coisa na cafeteria.

No quinto dia, perguntei:

"Você perdeu aula por minha causa?"

"Algumas."

"Quantas?"

"Poucas."

"Mariana."

Ela sorriu.

"Talvez várias."

"Isso pode te prejudicar."

"Eu recupero."

"E o dinheiro?"

Ela ficou quieta.

"Quanto sobrou?"

"Não é assunto seu."

"Você pagou meu remédio."

"Então é assunto encerrado."

"Quanto?"

Ela suspirou.

"Pouco."

"Quanto é pouco?"

"Augusto."

"Eu sou velho. Posso ser insistente."

"Não usa idade como desculpa."

"Funciona normalmente."

Ela revirou os olhos.

Eu gostei daquilo.

Ninguém fazia isso comigo havia anos.

As pessoas concordavam.

Funcionários concordavam.

Executivos concordavam.

Meus filhos fingiam concordar até saírem da sala.

Mariana não.

No sexto dia, o médico informou que eu poderia sair da unidade intensiva.

No sétimo, começou a falar em alta.

Eu já conseguia andar alguns passos com apoio.

Minha voz havia voltado.

Ainda fraca.

Mas suficiente.

Mariana apareceu com dois cafés.

Entregou um para mim.

"Sem açúcar."

"Como sabe?"

"Você fez uma cara horrível quando colocaram açúcar ontem."

"Boa observação."

"Serei uma médica excelente."

"Modesta também."

Ela sorriu.

Fiquei olhando para ela.

Pensei na noite em que ela abrira a conta bancária.

Na hesitação.

Na dívida.

No medo.

E na decisão.

Então perguntei:

"Você gastou tudo aquilo sem saber nem o meu nome?"

Mariana parou.

"Eu sabia seu nome."

"Depois."

"Está querendo discutir detalhe técnico?"

"Estou falando sério."

Ela percebeu.

Sentou-se.

Eu continuei:

"Você não sabia quem eu era."

"Não."

"Não sabia se eu tinha dinheiro."

"Não."

"Não sabia se eu poderia devolver."

"Não."

"Nem se eu sobreviveria."

Ela olhou para mim.

"Não."

"Então por quê?"

Mariana demorou um pouco.

Depois respondeu:

"O nome de uma pessoa não decide quanto vale a vida dela."

PUBLICIDADE

Fiquei em silêncio.

Ela continuou:

"Naquela noite, eu não sabia se você era rico, pobre, difícil, gentil ou insuportável."

"Insuportável é possível."

"Já percebi."

Sorri.

Ela também.

"Eu só sabia que você estava no chão e podia morrer porque ninguém queria tomar uma decisão."

Minha garganta apertou.

Não pela infecção.

Por outra coisa.

"Você não tinha obrigação."

"Talvez não."

"Então por que fez?"

Mariana apoiou o copo sobre a mesa.

"Minha mãe dizia que a gente descobre quem é quando ninguém está olhando."

A frase me atingiu.

Porque eu havia passado a vida acreditando quase na mesma coisa.

"O que aconteceu com ela?"

Mariana baixou os olhos.

"Ela morreu há quatro anos."

"Sinto muito."

"Eu também."

Ficamos em silêncio.

Depois ela levantou.

"Agora precisamos falar da sua alta."

"Precisamos?"

"Sim."

"Você virou minha responsável?"

"Alguém precisa."

Ela abriu a mochila.

"Seu médico disse que você não deve ficar sozinho."

"Eu tenho uma casa."

"Ótimo."

"E funcionários."

"Ótimo."

"Então qual é o problema?"

"Você vai voltar para lá?"

Não respondi.

A casa de Alphaville estava cheia de funcionários.

Seguranças.

Motoristas.

Câmeras.

Mas também estava ligada a Caio e Renato por décadas de acesso.

Eles conheciam horários.

Rotinas.

Portões.

Funcionários.

Eu ainda não queria voltar.

Mariana percebeu.

"Se não quiser, pode ficar comigo uns dias."

Olhei para ela.

"Com você?"

"Meu apartamento é pequeno."

"Quão pequeno?"

"Você está muito exigente para alguém que dormiu no chão de um hospital."

Ri.

"Tem elevador?"

"Não."

"Quantos andares?"

"Três."

"Você quer me matar depois de me salvar?"

Ela riu.

"Eu ajudo."

"Você pesa quarenta quilos."

"Quarenta e sete."

"Impressionante."

"Tem uma cama."

"E você?"

"Durmo no colchão da sala."

"Não."

"Então fica na sua mansão imaginária."

Quase respondi.

Parei a tempo.

Mariana ainda acreditava que eu era um engenheiro aposentado.

Nunca havia pesquisado meu nome.

Ou talvez o cansaço e o hospital tivessem impedido.

Ela sequer desconfiava.

Era estranho.

E libertador.

Durante anos, todas as pessoas que se aproximavam de mim sabiam exatamente o que Augusto Valença possuía.

Mariana conheceu primeiro o homem no chão.

Por isso aceitei.

"Dois dias."

"Três."

"Dois."

"Fechado."

Na tarde da alta, ela saiu do quarto para buscar os documentos e chamar um carro.

Fiquei sozinho.

Olhei para a porta.

Esperei até seus passos desaparecerem.

Então ergui o braço esquerdo.

No pulso estava meu relógio antigo.

Para qualquer pessoa, parecia apenas um modelo ultrapassado que eu insistia em usar.

Pressionei a lateral três vezes.

Nada aconteceu.

Depois encostei o polegar sobre o vidro.

O mostrador apagou.

Surgiu uma pequena área de autenticação.

Meu dedo permaneceu ali por dois segundos.

A tela mudou.

"FUNDO PRIVADO VALENÇA"

Respirei fundo.

Havia anos que eu não utilizava aquele protocolo.

A última vez fora durante uma ameaça empresarial que nunca chegou a se concretizar.

Eu tocara naquele relógio pensando que talvez tivesse gasto dinheiro demais em precauções que jamais seriam necessárias.

Agora sabia que não.

Abri a seção de acessos familiares.

Dois nomes apareceram.

Caio Valença.

Renato Valença.

Toquei no primeiro.

A tela pediu confirmação.

"REVOGAR ACESSO TOTAL?"

Confirmei.

"CAIO VALENÇA — ACESSO REVOGADO."

O segundo nome apareceu.

Renato Valença.

Lembrei-me dele aos doze anos naquela cama de hospital.

Lembrei-me da promessa.

"Quando abrir os olhos, eu vou estar aqui."

Ele abriu.

Eu estava.

PUBLICIDADE

você pode gostar

compartilhar

compartilhar liderança
link de cópia