"É um defeito antigo."
"Percebi."
Olhei para ela.
"Você gastou tudo aquilo sem saber nem o meu nome?"
Mariana ficou em silêncio.
Então puxou a cadeira e sentou diante de mim.
"Eu sabia seu nome."
"Você sabe o que quero dizer."
"Sei."
"Você não sabia quem eu era."
"Não."
"Não sabia se eu poderia devolver."
"Não."
"Não sabia se eu sobreviveria."
"Não."
"Então por quê?"
Ela me encarou com uma simplicidade que me desarmou.
"O nome de uma pessoa não decide quanto vale a vida dela."
Não consegui responder.
Mariana continuou.
"Eu vi dois homens olhando para você como se sua morte fosse uma vantagem."
Ela engoliu em seco.
"E não queria ir para casa sabendo que fiz a mesma conta."
Aquelas palavras tocaram alguma coisa que meus filhos tinham quebrado.
Passei trinta anos acreditando que família era aquilo que eu construía oferecendo proteção.
Mariana não me devia nada.
E ainda assim ficou.
Caio e Renato me deviam pelo menos humanidade.
E escolheram o contrário.
"Eu vou devolver."
"Não precisa."
"Vou."
"Depois."
"Mariana."
"Augusto."
Ela falou meu nome com a mesma autoridade que eu usava com executivos.
"Depois."
Não pude evitar um sorriso.
Minutos mais tarde, ela perguntou:
"Você realmente vai ficar sozinho naquela casa?"
"Não vou morrer outra vez só para dar trabalho a você."
"Não foi isso que perguntei."
"Vou ficar bem."
Ela cruzou os braços.
"Minha casa é pequena."
"Você deixou claro."
"E feia."
"Também."
"O interfone não funciona."
"Está melhorando."
"A janela do quarto fecha só se empurrar com o ombro."
"Excelente."
"Mas tem uma cama."
Olhei para ela.
"Mariana..."
"Você fica lá dois ou três dias."
"Não."
"Até conseguir alguém."
"Não preciso."
"Precisa."
"Você sempre discute assim com pacientes?"
"Só com os teimosos."
"Então deve trabalhar muito."
Ela ignorou.
"Eu durmo no sofá."
"Não vou tirar sua cama."
"Eu durmo no sofá mesmo."
"Por quê?"
"Porque tem uma pilha de livros em cima da cama."
Eu ri novamente.
No fim, concordei.
Não porque precisasse.
Eu poderia acionar dez pessoas com uma ligação.
Mas porque, naquele momento, eu precisava entender uma coisa.
Quem era aquela mulher que havia colocado o próprio futuro em risco por mim?
Na saída do quarto, Mariana pediu:
"Espera aqui. Vou pegar os documentos da alta."
"Eu sei esperar."
"Não vai embora sozinho."
"Tenho sessenta e oito anos."
"Exatamente."
Ela saiu.
Fiquei sozinho.
O sorriso desapareceu do meu rosto.
Olhei para a porta.
Depois para meu pulso.
O relógio parecia velho.
Arranhado.
Simples.
Era exatamente por isso que eu o usava.
Pressionei dois pontos da lateral ao mesmo tempo.
A tela apagou.
Depois pediu uma sequência de autenticação.
Digitei.
Um menu oculto apareceu.
FUNDO PRIVADO VALENÇA.
Havia dezenas de opções.
Contas.
Imóveis.
Participações.
Protocolos de segurança.
Autorizações.
Abri a seção de acesso familiar.
Dois nomes apareceram.
CAIO VALENÇA.
RENATO VALENÇA.
Por trinta anos, eles tiveram chaves para quase tudo.
Casas.
Cartões.
Veículos.
Contas corporativas.
Fundos de emergência.
Acesso a informações que poucos executivos possuíam.
Olhei para o nome de Caio.
Lembrei do sapato sobre minha mão.
Lembrei de sua voz.
"Então deixa a natureza terminar o trabalho."
Toquei na tela.
Uma pergunta apareceu.
CONFIRMAR REVOGAÇÃO TOTAL?
Pressionei.
CAIO VALENÇA.
ACESSO REVOGADO.
Passei para o próximo nome.
RENATO VALENÇA.
Meu dedo permaneceu imóvel por alguns segundos.
Lembrei do menino acordando da cirurgia.
"Você vai estar aqui?"
Eu estivera.
Agora era minha vez de acordar.
Ele não estava.
Pressionei a tela.
ACESSO REVOGADO.
O relógio vibrou uma vez.
Depois duas.
Uma nova mensagem apareceu.
PROTOCOLO DE PROTEÇÃO PESSOAL DISPONÍVEL.
Pensei nos meus filhos.
No telefonema de Caio.
"Talvez hoje."
"Não mexe em nada até eu ligar."
Talvez o problema fosse maior do que abandono.
Talvez eles já tivessem ido longe demais.
Ativei o protocolo.
Por fim, abri um canal criptografado.
Havia apenas um contato no topo.
HELENA SAMPAIO.
Minha advogada.
Minha confidente.
A única pessoa que conhecia todas as estruturas do meu patrimônio.
Digitei apenas duas palavras.
PREPARE TUDO.
Antes que eu guardasse o relógio, ele vibrou.
A resposta de Helena apareceu quase imediatamente.
"Você tem certeza?"
Olhei para a porta por onde Mariana havia saído.
Depois pensei em Caio.
Em Renato.
No hospital.
No prontuário no lixo.
No valor da minha vida calculado como despesa.
Digitei:
"Absoluta."
A resposta veio segundos depois.
"Então amanhã eles vão descobrir que você não morreu."
Parte 3
A Desconhecida
"Eu pago."
A voz de Mariana não tremeu quando ela disse aquilo.
Mas a mão que segurava o celular tremia.
Do outro lado da ligação, alguém fez uma pergunta.
Ela fechou os olhos por um instante, como se estivesse se obrigando a não olhar novamente para o saldo da conta.
"Sim. Eu entendi o valor."
Outra pausa.
"Pode reservar. Eu vou conseguir."
Eu estava deitado no chão, envolto pela manta térmica, com a sensação de que meu corpo já não me pertencia.
Mesmo assim, ouvi cada palavra.
A Dra. Lívia aproximou-se de Mariana.
"Você não precisa fazer isso."
Mariana cobriu o microfone do celular com a mão.
"Se eu não fizer, quanto tempo até o hospital conseguir o remédio?"
"Não sabemos."
"Então eu preciso."
"Mariana, esse dinheiro é da sua faculdade."
Ela desviou o olhar.
"Eu sei."
"E do seu aluguel."
"Eu sei."
"Você pode perder o semestre."
"Eu sei."
A médica baixou a voz.
"E ele pode morrer mesmo com o antibiótico."
Mariana olhou para mim.
Foi um olhar demorado.
Não de pena.
Era como se estivesse tentando decidir que tipo de pessoa queria ser depois daquela noite.
Então voltou ao telefone.
"Pode confirmar."
Ela ouviu as instruções.
"Sim."
"Eu transfiro agora."
A ligação terminou.
Por alguns segundos, Mariana ficou parada diante da tela.
Depois abriu o aplicativo bancário.
Vi quando digitou a senha.
Vi o saldo desaparecer quase inteiro.
Ela fez uma transferência.
Depois outra.
Na terceira tentativa, o aplicativo recusou.
"Não."
A Dra. Lívia se aproximou.
"O que aconteceu?"
"Limite."
"Eu falei que..."
"Espera."
Mariana abriu outro aplicativo.
Digitou informações.
A médica arregalou os olhos.
"Você vai usar crédito?"
"Vou."
"Mariana."
"Depois eu resolvo."
"Isso pode virar uma dívida enorme."
Ela respondeu sem levantar o rosto:
"Depois é depois."
Alguns minutos mais tarde, ela conseguiu completar o pagamento.
A confirmação apareceu na tela.
Mariana soltou o ar.
"Pronto."
A Dra. Lívia ficou olhando para ela.
"Você é maluca."
"Provavelmente."
"Vou falar com a farmácia."
"Quanto tempo?"
"Se tudo der certo, quarenta minutos."
Mariana olhou para mim.
"Então agora ele precisa continuar vivo por quarenta minutos."
Eu quase sorri.
Não consegui.
Minha boca estava seca demais.
Minha cabeça parecia pesar o dobro.
Mas, pela primeira vez naquela noite, alguém falava sobre minha vida como algo que ainda valia a pena proteger.
Quarenta minutos.
Talvez parecesse pouco para qualquer pessoa saudável.
Para mim, parecia uma eternidade.
Minha pressão caiu de novo.
A equipe correu.
Um acesso venoso foi trocado.
Mais líquidos.
Mais monitorização.
Mariana permaneceu perto.
Quando alguém pediu que ela saísse, ela recuou.
Mas não foi embora.
"Seu Augusto, continue comigo."
A voz dela aparecia entre os ruídos do corredor.
"Não fecha os olhos agora."
Fechei mesmo assim.
Não por escolha.
A febre me puxava para baixo.
Vi novamente meus filhos quando eram pequenos.
Vi Caio correndo no quintal com um joelho ralado.
Vi Renato dormindo no sofá com um livro aberto sobre o peito.
Vi um Natal em que os dois brigaram por causa de um presente.
Eu ri naquela época.
Agora não havia nada engraçado.
Ouvi uma voz distante.
"Chegou!"
Meus olhos abriram por reflexo.
Um funcionário apareceu carregando uma caixa térmica.
A Dra. Lívia conferiu o nome do medicamento.
Mariana ficou ao lado.
"É esse?"
"É."
"Tem certeza?"
"Temos a confirmação da infectologia."
A médica olhou para mim.
"Vamos começar agora."
Senti a agulha.
Depois o frio do medicamento entrando na veia.
Era uma sensação pequena.
Quase ridícula.
Tanta coisa podia depender de algumas gotas transparentes descendo por um tubo.
Mariana observava.
"Quanto tempo até fazer efeito?"
"Não é imediato."
"E se ele piorar?"
"A gente age."
Ela assentiu.
"Então eu fico."
A Dra. Lívia olhou para ela.
"Você tem plantão?"
"Tenho aula às sete."
"São quase duas da manhã."
"Eu sei."
"Vai para casa."
Mariana balançou a cabeça.
"Depois."
Foi assim que ela passou a primeira noite comigo.
Não como filha.
Não como parente.
Nem como alguém que devia qualquer coisa.
Apenas como uma desconhecida que se recusava a ir embora.
A primeira dose entrou.
Depois a segunda medicação.
A febre não cedeu.
Às três e vinte, comecei a sentir uma pressão no peito.
No início, achei que fosse ansiedade.
Depois o ar ficou curto.
Tentei inspirar.
Não consegui encher os pulmões.
Mariana estava sentada numa cadeira de plástico, lendo um caderno.
Quando me ouviu puxar o ar, levantou imediatamente.
"Seu Augusto?"
Tentei respirar outra vez.
Meu peito queimou.
Ela tocou meu ombro.
"Olha para mim."
Eu olhei.
"Está sentindo falta de ar?"
Pisquei.
Ela chamou uma enfermeira.
"Ele está piorando."
A enfermeira se aproximou.
"Ele já estava dispneico."
"Não assim."
"Mariana..."
"Olha a frequência."
A enfermeira conferiu.
O monitor apitou.
Mariana ficou tensa.