O antibiótico chegou quarenta e três minutos depois.
Eu soube porque Mariana olhou o relógio assim que a caixa apareceu.
O enfermeiro conferiu nome, concentração e prescrição.
A equipe conversou rapidamente.
Depois senti o líquido entrar pela veia.
Mariana permaneceu ao lado da maca.
"Agora o senhor precisa colaborar."
Tentei perguntar como.
Saiu apenas um ruído.
Ela sorriu de leve.
"Respirando."
A medicação começou a correr.
Por algum tempo, nada mudou.
Depois minha temperatura subiu ainda mais.
Os tremores pioraram.
Meu corpo parecia lutar contra alguma coisa que eu não conseguia enxergar.
Em determinado momento, abri os olhos e Mariana estava sentada numa cadeira de plástico, com um livro de cardiologia aberto sobre as pernas.
Ela lia uma página.
Olhava para mim.
Lia outra.
Olhava novamente.
"Você devia ir para casa", consegui pensar.
Mas nenhuma palavra saiu.
Ela percebeu que eu estava acordado.
"Oi."
Piscar foi o máximo que consegui oferecer.
"Eu estou aqui."
Não sabia por que aquilo me confortava.
Talvez porque, desde que meus filhos chegaram ao hospital, todas as palavras que ouvi sobre mim estivessem ligadas a dinheiro, patrimônio ou morte.
Mariana simplesmente estava ali.
Sem pedir nada.
Sem querer nada.
Sem saber quem eu era.
As horas passaram.
O movimento do pronto-socorro diminuiu perto da madrugada.
Alguns pacientes foram transferidos.
Outros receberam alta.
O corredor finalmente ficou menos barulhento.
Mariana ainda estava na cadeira.
A cabeça dela caiu uma vez.
Ela despertou imediatamente.
Olhou para mim.
Depois para o monitor.
Foi nesse momento que a expressão dela mudou.
Ela se levantou tão rápido que o livro caiu no chão.
"Seu Augusto?"
Minha respiração estava diferente.
Eu percebia.
Não conseguia puxar o ar até o fundo.
Era como tentar respirar através de um pano molhado.
Mariana se aproximou.
"Olhe para mim."
Tentei.
"Respira fundo."
Não consegui.
Ela colocou os dedos no meu pulso.
Depois olhou para o monitor.
"Enfermeiro!"
Um profissional passou ao fim do corredor.
"Preciso de ajuda aqui."
Ele se aproximou sem pressa.
"Qual o problema?"
"A saturação caiu."
"Ele está em tratamento."
"Estava em noventa e quatro."
O enfermeiro conferiu.
"Agora está noventa."
"Está caindo."
"Pode oscilar."
"Ele está usando musculatura acessória para respirar."
O enfermeiro me examinou rapidamente.
"Vou avisar o médico."
"Agora."
Ele olhou para Mariana.
"Eu disse que vou avisar."
Mariana ficou ao meu lado.
Minha respiração piorou.
Cada tentativa de puxar ar produzia um som estranho.
"Senhor Augusto, não fecha os olhos."
Eu queria obedecer.
Mas minhas pálpebras estavam pesadas.
"Não fecha."
Segundos depois, ela saiu correndo.
Ouvi a voz dela antes de enxergá-la.
"Doutor Henrique!"
Um homem respondeu de longe.
"Mariana, estou atendendo."
"Precisa ver o paciente da sepse agora."
"Já passei nele."
"A saturação está caindo."
"Quanto?"
"Oitenta e oito."
Houve um silêncio curto.
"Ele estava acima de noventa há pouco."
"Agora não está."
Passos rápidos se aproximaram.
Um homem alto, de barba curta e expressão cansada apareceu.
Dr. Henrique Tavares.
Ele colocou o estetoscópio no meu peito.
"Senhor Augusto, consegue me ouvir?"
Assenti minimamente.
Ele ouviu meus pulmões.
A expressão ficou séria.
"Oxigênio."
O enfermeiro correu.
Henrique olhou para Mariana.
"Quando começou?"
"Há poucos minutos."
"Febre?"
"Continua alta."
"Pressão?"
Ela respondeu.
Henrique xingou baixinho.
"Chama a Lívia."
O oxigênio foi colocado.
Não adiantou o suficiente.
O monitor continuava marcando números cada vez menores.
Minha visão começou a escurecer pelas bordas.
Henrique falou mais alto.
"Precisamos de um leito de terapia intensiva."
O enfermeiro respondeu:
"Não tem."
"Então arruma."
"Está lotado."
"Ele vai entrar em insuficiência respiratória."
Mariana estava pálida.
"Tem leito no andar antigo?"
"Está fechado."
"Na unidade conveniada?"
"Não sei."
"Então liga."
Henrique virou para ela.
"Mariana, deixa a equipe trabalhar."
Ela recuou um passo.
Mas não saiu.
Minha consciência começou a escapar.
Lembro de máscaras.
Mãos.
Uma luz sobre meu rosto.
Alguém dizendo meu nome.
"Augusto."
Outra voz.
"Pressão setenta por quarenta."
"Prepara."
"Terapia intensiva confirmou vaga."
"Agora?"
"Agora."
Depois nada.
Quando despertei novamente, o teto era diferente.
Branco.
Fixo.
Sem luz piscando.
Havia tubos ao meu redor.
Um aparelho fazia um som regular.
Tentei levantar a mão.
Não consegui.
Uma enfermeira percebeu.
"Seu Augusto?"
Abri os olhos completamente.
"Calma."
Ela veio até mim.
"O senhor está na terapia intensiva."
Minha garganta ardia.
Tentei falar.
"Não force."
A enfermeira sorriu.
"O pior passou."
O pior.
Eu ainda não sabia se acreditava.
Passei o resto daquele dia entre sono e pequenos períodos de consciência.
No dia seguinte, consegui ficar acordado por mais tempo.
No terceiro, retiraram parte do suporte respiratório.
No quarto, comecei a reconhecer horários.
No quinto, consegui sentar.
E em nenhum deles Caio apareceu.
Renato também não.
Nenhuma ligação.
Nenhuma mensagem entregue.
Nenhum pedido para saber se eu continuava vivo.
Mariana apareceu todos os dias.
No primeiro, trouxe um café tão ruim que o cheiro atravessou o quarto.
Ela colocou o copo sobre a mesa.
"Esse é para mim. O senhor ainda não tem autorização para tomar."
Olhei para ela.
Minha voz saiu como um sopro.
"Injusto."
Ela congelou.
Depois abriu um sorriso enorme.
"Você falou."
Aquilo me fez sorrir também.
Foi a primeira vez desde que cheguei ao hospital.
"Pouco."
"Pouco já é muito."
Ela puxou a cadeira.
"Quer água?"
Assenti.
Ela me ajudou.
No segundo dia, trouxe uma sacola com bananas e maçãs.
A enfermeira barrou metade.
Mariana reclamou.
"Nem fruta?"
"Ele está com dieta controlada."
"Então vou comer."
E comeu uma banana sentada ao meu lado enquanto estudava.
No terceiro dia, espalhou apostilas sobre a mesa.
"Tenho prova."
Eu a observei por alguns minutos.
"Cardiologia?"
Ela levantou a cabeça.
"A voz está melhor."
"Não respondeu."
"Sim. Cardiologia."
"Você gosta?"
"Às vezes."
"Às vezes?"
"Gosto quando entendo."
Soltei um riso rouco.
Ela também.
Mariana tinha um jeito curioso de tratar meu quarto como se eu fosse apenas parte do cenário da rotina dela.
Não demonstrava reverência.
Não tentava impressionar.
Não fazia perguntas sobre dinheiro.
Aparentemente, nem sequer havia pesquisado meu nome direito.
No quarto dia, ela perguntou:
"O senhor trabalhava com o quê?"
Pensei antes de responder.
"Engenharia."
"Eu sabia."
"Como?"
"Tem cara."
"Existe cara de engenheiro?"
"Existe."
"Qual?"
"Pessoa que olha para uma cadeira quebrada e pensa primeiro em como foi montada."
Olhei para a cadeira ao lado.
"Ela está com um parafuso frouxo."
Mariana começou a rir.
"Viu?"
Eu não disse que minha engenharia havia gerado dezenas de patentes.
Não disse que havia fundado uma das maiores empresas de tecnologia do país.
Não disse que o nome Valença aparecia em revistas de negócios, eventos de inovação e contratos públicos.
Naquele quarto, eu gostava de ser apenas Augusto.
O velho engenheiro abandonado pelos filhos.
Era humilhante.
E, ao mesmo tempo, estranhamente libertador.
No quinto dia, encontrei Mariana dormindo sobre uma apostila.
Acordei-a.
"Você tem casa?"
Ela levantou a cabeça assustada.
"Tenho."
"Não parece."
"Por quê?"
"Você vive aqui."
Ela fez uma careta.
"Meu apartamento é mais feio."
"Impossível."
"Você não viu."
"Deve ser muito ruim."
"É pequeno."
"Quanto?"
"Pequeno."
"Isso não é medida."
Ela sorriu.
"Um quarto, sala minúscula, cozinha que só cabe uma pessoa e um banheiro onde dá para tomar banho sentado no vaso."
Eu ri.
Ela apontou para mim.
"Não ri. É verdade."
"Você mora sozinha?"
"Sim."
"Hospedagem estudantil?"
"Mais ou menos."
"Família?"
O sorriso dela diminuiu.
"Minha mãe morreu há alguns anos."
"Seu pai?"
"Não faz parte da minha vida."
Não perguntei mais.
Aprendi que algumas dores não precisam ser abertas só porque temos curiosidade.
Na manhã do sexto dia, a Dra. Lívia entrou com uma pasta.
"Tenho boas notícias."
Mariana estava ao lado da janela.
Eu ergui uma sobrancelha.
"Finalmente?"
"Os exames melhoraram muito."
"Alta?"
"Talvez amanhã."
Mariana comemorou antes de mim.
"Eu sabia."
A médica olhou para ela.
"Você também precisa voltar a frequentar sua própria vida."
"Eu frequento."
"Seu curso sente falta."
"Duvido."
A Dra. Lívia sorriu.
Depois ficou séria.
"Seu Augusto, precisamos conversar sobre a recuperação."
Assenti.
"Vai precisar de acompanhamento, medicação e alguém por perto nos primeiros dias."
"Eu tenho funcionários."
"Família?"
Houve um silêncio.
"Não."
Mariana olhou para mim.
A médica percebeu.
"Seus filhos não voltaram."
Não era pergunta.
"Não."
Ela hesitou.
"Quer que a assistência social entre em contato?"
"Não."
Minha resposta saiu mais dura do que pretendia.
"Desculpe."
"Não precisa."
"Eu não quero que liguem."
"Entendi."
Mariana não disse nada naquele momento.
Mas, horas depois, quando estávamos sozinhos, ela perguntou:
"Você vai para onde?"
"Casa."
"Alphaville?"
Meu coração quase parou.
Ela sorriu.
"Vi seu endereço no prontuário."
"Ah."
"Não sou investigadora."
"Comecei a desconfiar."
Ela se sentou.
"Tem alguém lá?"
"Funcionários."
"Alguém que possa ficar com você?"
"Posso contratar."
Mariana franziu a testa.
"Você fala como se fosse simples."
"É."
Ela me encarou.
"Você é muito estranho."
"Obrigado."
"Não foi elogio."
Na tarde da alta, finalmente fiz a pergunta que estava preso dentro de mim havia dias.
Mariana estava colocando minhas coisas numa pequena sacola.
"Mariana."
"Hum?"
"Quanto você gastou?"
Ela parou.
"Com o quê?"
"Você sabe."
"Não importa."
"Importa para mim."
"Depois a gente vê."
"Agora."
Ela suspirou.
"Você acabou de sair da terapia intensiva e já está mandando nos outros."