A médica continuou.
"Estamos falando de tempo."
Caio perdeu a paciência.
"E eu estou falando de bom senso."
"Bom senso é tentar salvar o paciente."
"Mesmo quando o paciente já está praticamente morto?"
"Ele não está morto."
"Ainda."
Mariana deu um passo à frente.
"Com licença."
Caio virou.
"De novo você?"
Ela segurava o prontuário.
"Os marcadores estão piorando."
Renato franziu a testa.
"Você está lendo documentos médicos sem autorização?"
"Estou acompanhando a equipe."
"Você é estudante."
"Sou."
"Então pare de agir como se fosse responsável por alguma coisa."
Mariana encarou Renato.
"Neste momento, alguém precisa agir como se fosse."
A frase caiu no corredor como um tapa.
Caio se aproximou dela.
"Escuta, garota..."
"Meu nome é Mariana."
"Não me interessa."
"Então deveria interessar o nome dele."
Ela apontou para mim.
"Augusto Valença. Sessenta e oito anos. Sepse. Pressão instável. Infecção resistente. Histórico de alergia grave."
Caio riu sem humor.
"Parabéns. Você sabe ler."
Mariana não recuou.
"E sei o que acontece quando alguém com sepse grave fica sem o antibiótico adequado."
"Isso não é problema seu."
"Ele pode morrer esta noite."
Caio ficou completamente imóvel.
Mariana esperou alguma reação.
Talvez tivesse certeza de que aquela frase finalmente despertaria alguma coisa.
Foi aí que meu filho respondeu:
"Então amanhã ele deixa de dar despesa."
Ninguém falou.
Uma enfermeira que passava pelo corredor diminuiu o passo.
A Dra. Lívia fechou os olhos por um segundo.
Mariana ficou pálida.
"Você está falando do seu pai."
Caio respondeu sem alterar a voz.
"Você não sabe nada sobre a minha família."
"Sei o suficiente."
"O quê?"
"Que ele está no chão e você está preocupado com quanto vai sobrar."
Renato interveio.
"Chega."
Mariana virou para ele.
"Você concorda com isso?"
Renato a encarou.
"Não devo explicações a você."
"Não foi o que perguntei."
"Mariana", a médica chamou.
Mas ela não parou.
"Ele criou vocês?"
Caio sorriu.
"Agora virou assistente social?"
"Ele criou vocês ou não?"
"Isso não interessa."
"Para mim interessa."
Caio chegou mais perto.
"Você quer saber o quê? Se ele pagou nossa escola? Pagou. Se deu casa? Deu. Se pagou universidade? Pagou."
Cada palavra saía carregada de irritação.
"Então por que está falando como se gastar dinheiro para salvá-lo fosse um absurdo?"
Caio soltou uma risada amarga.
"Porque você não entende como homens como ele funcionam."
"Explique."
"Ele nunca deu nada de graça."
Meu peito apertou.
A mentira doeu mais do que eu esperava.
Mariana cruzou os braços.
"O que ele cobrou?"
Caio abriu a boca.
Não respondeu.
Porque não havia resposta.
Nunca cobrei pelo carro.
Nunca cobrei pelo curso.
Nunca cobrei pela cirurgia.
Nunca cobrei pelas dívidas.
Nunca cobrei pelos erros.
Talvez esse tivesse sido meu maior erro.
Renato segurou o irmão.
"Vamos embora."
A Dra. Lívia bloqueou o caminho.
"Preciso registrar formalmente que vocês foram informados da gravidade."
"Registre", Renato respondeu.
"E que não autorizaram a transferência particular."
"Registre."
"E que o risco de morte foi explicado."
"Registre tudo."
Mariana olhou para ele com nojo.
Renato ajeitou a gravata.
"Estamos dentro dos nossos direitos."
"Direito não é a mesma coisa que decência."
Por um segundo, a máscara dele caiu.
"Tenha cuidado com o jeito que fala comigo."
Mariana não desviou o olhar.
"Ele está morrendo."
Renato respondeu:
"Então cuide dele."
E virou as costas.
Caio o seguiu.
Os dois caminharam até o fim do corredor.
Mariana permaneceu imóvel.
Eu conseguia vê-la de lado.
Ela parecia ter levado um golpe.
Não porque me conhecesse.
Porque simplesmente não conseguia compreender.
Talvez ainda acreditasse que famílias funcionavam como deveriam.
Talvez achasse impossível que dois filhos pudessem olhar para o homem que os criou e fazer contas enquanto ele morria.
Eu também achava.
Até aquela noite.
Caio e Renato pararam perto dos elevadores.
Eu não conseguia ouvir tudo.
Apenas pedaços.
"Se ele morrer..."
"...ações..."
"...holding..."
"...Helena..."
Depois uma frase chegou claramente.
Caio perguntou:
"Quando ele morrer, quanto a gente pega de verdade?"
Renato respondeu alguma coisa mais baixa.
Caio ficou irritado.
"Não quero porcentagem. Quero número."
Minha visão escureceu.
Pensei novamente em Caio menino segurando minha camisa.
Em Renato acordando da cirurgia e me encontrando ao lado da cama.
Em aniversários.
Formaturas.
Natal.
Viagens.
Jantares.
Abraços.
Tudo começou a parecer fotografias pertencentes à vida de outra pessoa.
Os elevadores abriram.
Meus filhos entraram.
Nenhum dos dois olhou para trás.
Mariana olhou.
Ela voltou até mim.
Abaixou-se.
"Seu Augusto?"
Abri os olhos.
"Eu não sei se o senhor consegue entender tudo."
Entendia.
Entendia demais.
"Mas eu sinto muito."
Tentei falar.
Dessa vez consegui produzir um som fraco.
Ela aproximou o ouvido.
"Não..."
"Não o quê?"
Forcei outra vez.
"Não..."
A garganta falhou.
Ela segurou minha mão.
"Não precisa falar."
Eu queria dizer:
Não confie neles.
Não deixe que decidam.
Não estou pronto para morrer.
Mas nenhuma frase saiu.
A Dra. Lívia voltou.
"A situação piorou."
Mariana se levantou imediatamente.
"Quanto tempo para conseguir a medicação pelo hospital?"
"Não sabemos."
"E pela distribuidora?"
"Se houver pagamento e retirada imediata, talvez menos de uma hora."
"Quanto?"
A médica citou o valor.
Mariana ficou em silêncio.
"Não temos autorização da família para fazer isso por via particular."
"E se outra pessoa pagar?"
A médica a encarou.
"Mariana..."
"Estou perguntando."
"É mais complicado."
"Mas é possível?"
"Em tese, sim."
"Então faça."
A médica demorou um instante para entender.
"Você não pode estar falando sério."
"Qual é o contato da distribuidora?"
"Mariana, isso custa..."
"Eu ouvi."
"Você não tem esse dinheiro."
"Tenho parte."
"E o restante?"
Ela não respondeu.
Pegou o celular.
Caminhou até um canto do corredor.
Abriu o aplicativo do banco.
Eu conseguia vê-la de longe.
O saldo na tela não era fortuna.
Era tudo o que ela tinha.
Meses de economia.
Dinheiro guardado para matrícula.
Mensalidades.
Aluguel.
Livros.
Transporte.
O último semestre antes de concluir medicina.
Ela olhou para o valor.
Depois olhou para mim.
Um estranho.
Um homem velho no chão.
Alguém cujo sobrenome, para ela, ainda não significava absolutamente nada.
A médica se aproximou.
"Mariana, pense bem."
"Já pensei."
"Você pode comprometer seu curso."
"Eu sei."
"E ele pode não sobreviver."
Mariana fechou os olhos.
Por um segundo, vi medo.
Não medo de mim.
Medo da decisão.
Então abriu novamente.
"Se eu não fizer nada e ele morrer, eu vou saber que podia ter tentado."
"Isso não é sua responsabilidade."
"Talvez não."
Ela respirou fundo.
"Mas a minha consciência é."
Abriu a lista de contatos.
Digitou o número que a médica havia fornecido.
Antes de ligar, ainda hesitou.
Seu polegar ficou parado sobre a tela.
Então a voz de Caio pareceu ecoar dentro da minha cabeça.
"Então amanhã ele deixa de dar despesa."
Mariana apertou o botão.
A ligação foi atendida.
"Boa noite. Estou ligando do Hospital Municipal Santa Helena."
Ela ouviu a resposta.
"Sim, é sobre o antibiótico reservado para Augusto Valença."
Outra pausa.
"Não. A família não autorizou."
A pessoa do outro lado falou por alguns segundos.
Mariana olhou mais uma vez para o saldo bancário.
Engoliu em seco.
Então disse:
"Eu pago."
Parte 3
A Desconhecida
"Eu pago."
Foi a última frase que ouvi antes de a febre me arrastar novamente para um lugar onde o tempo não existia.
Quando voltei a perceber o corredor, havia vozes demais ao meu redor.
Alguém apertava meu braço.
Outra pessoa conferia o acesso venoso.
Um homem dizia que a medicação estava a caminho.
E, em algum ponto próximo, Mariana discutia com alguém ao telefone.
"Eu já fiz a transferência."
Ela respirou fundo.
"Não, eu não sou parente."
Silêncio.
"Também não sou responsável legal."
Outra pausa.
"Sou estudante de medicina."
A pessoa do outro lado provavelmente perguntou a mesma coisa que todos perguntariam.
Por quê?
Mariana olhou para mim antes de responder.
"Porque ele precisa do remédio agora."
Eu queria dizer a ela que não precisava fazer aquilo.
Queria dizer que existiam contas, advogados, empresas, fundos e pessoas cujo trabalho era resolver exatamente aquele tipo de problema.
Mas minha voz ainda não existia.
Então fiquei olhando enquanto uma desconhecida desmontava a própria vida para salvar a minha.
Pouco depois, Mariana voltou até a maca improvisada que finalmente haviam conseguido para mim.
Sua expressão estava tensa.
"O medicamento já saiu da distribuidora."
A Dra. Lívia apareceu ao lado dela.
"Você conseguiu?"
Mariana assentiu.
"Consegui."
"Quanto ficou faltando?"
Mariana desviou o olhar.
"Resolvi."
"Mariana."
"Resolvi, doutora."
A médica a encarou por alguns segundos.
Depois abaixou a voz.
"Você usou seu limite do cartão?"
Mariana não respondeu.
Aquilo já era resposta suficiente.
A Dra. Lívia respirou fundo.
"Você não deveria ter feito isso."
"Se eu não fizesse, ele podia morrer esperando."
"Você sabe que não existe garantia."
"Eu sei."
"Pode perder dinheiro e ele pode não sobreviver."
Mariana olhou para mim.
"Então pelo menos ele não vai morrer porque ninguém quis tentar."
Fechei os olhos.
Durante décadas, eu negociei com homens que falavam de bilhões como se estivessem escolhendo um vinho.
Vi executivos demitirem centenas de pessoas sem mudar o tom de voz.
Vi sócios traírem amigos por contratos.
Mas nunca havia visto alguém colocar praticamente tudo o que possuía na vida de um estranho.