《Eles Me Deixaram Morrer Pelo Meu Dinheiro》Capítulo 3

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O suor escorria pelas têmporas.

A pressão continuava caindo, e cada som do corredor parecia chegar até mim de muito longe, como se eu estivesse submerso.

Ainda assim, eu ouvia.

Caio se afastou primeiro.

Renato ficou alguns segundos parado ao meu lado.

Senti o olhar dele sobre mim.

Meu segundo filho sempre fora melhor em esconder o que pensava.

Caio atacava.

Renato esperava.

Caio gritava.

Renato calculava.

Talvez por isso, durante tantos anos, eu tivesse acreditado que Renato ainda possuía um limite que o irmão não tinha.

Naquela noite, comecei a entender que prudência e caráter não eram a mesma coisa.

"Vamos sair daqui", Caio murmurou.

"Não podemos simplesmente desaparecer", Renato respondeu.

"Por quê?"

"Porque fica estranho."

Caio soltou uma risada baixa.

"Ele está morrendo e você está preocupado com aparência?"

"Eu estou preocupado exatamente porque ele está morrendo."

Os passos dos dois se afastaram.

Eu tentei abrir os olhos.

A luz fluorescente acima de mim se transformou numa mancha branca.

Depois veio a escuridão.

Não a escuridão do hospital.

Outra.

Antiga.

Cheia de fumaça.

Trinta anos antes.

Eu ainda conseguia sentir o cheiro daquela casa queimada.

Madeira molhada.

Fuligem.

Plástico derretido.

E duas crianças sentadas no banco traseiro do meu carro sem entender por que ninguém as levava de volta para casa.

Caio tinha nove anos.

Renato, seis.

Os pais deles, Marcelo e Patrícia, eram meus amigos havia mais de uma década.

Marcelo trabalhara comigo quando o Grupo Valença ainda era apenas uma sala alugada com dois computadores usados e uma cafeteira que vazava.

Na madrugada do incêndio, recebi uma ligação.

Quando cheguei, a rua estava tomada por caminhões dos bombeiros.

As chamas já haviam sido controladas.

Marcelo e Patrícia não saíram.

Os meninos, sim.

Uma vizinha os encontrara no quintal dos fundos.

Durante os primeiros dias, parentes apareceram.

Tias.

Primos.

Um avô doente.

Todos falavam sobre o que deveria ser feito.

Ninguém dizia:

"Eu fico com eles."

Eu disse.

Não porque tivesse planejado ser pai.

Eu não tinha esposa.

Minha vida era trabalho.

Eu mal sabia cozinhar alguma coisa além de ovos e café.

Mas, numa noite, Caio acordou gritando.

Entrei no quarto e o encontrei encolhido contra a parede.

"Não apaga a luz."

"Eu não vou apagar."

"Promete?"

"Prometo."

Ele me agarrou pela camisa.

"Se eu dormir, eles voltam?"

Não soube o que responder.

Sentei no chão ao lado da cama.

"Eu vou ficar aqui."

"Até eu dormir?"

"Até você acordar."

E fiquei.

Naquela noite.

Na seguinte.

E em muitas outras.

Durante quase três meses, dormi numa poltrona com a luz do corredor acesa porque Caio entrava em pânico quando a casa ficava escura.

Foi naquela época que ele me chamou de pai pela primeira vez.

Não houve cerimônia.

Não houve discurso.

Ele acordou de um pesadelo, abriu os olhos e disse:

"Pai?"

Eu respondi antes mesmo de pensar.

"Estou aqui."

A lembrança se dissolveu quando alguém tocou meu braço.

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"Seu Augusto?"

Era a jovem estudante.

A voz dela me trouxe de volta ao corredor.

"Consegue me ouvir?"

Abri os olhos lentamente.

Ela estava ajoelhada ao meu lado.

Seu crachá agora estava virado corretamente.

Mariana Reis.

Ela segurava meu prontuário.

O mesmo prontuário que meus filhos haviam tratado como lixo.

"Se consegue me ouvir, pisque duas vezes."

Pisquei.

O rosto dela mudou.

"Ótimo."

Ela olhou ao redor.

"Dra. Lívia!"

Uma enfermeira passou correndo.

"Ela está com outro paciente."

"Ele está consciente."

"Avise o médico da sala três."

Mariana voltou a olhar para mim.

"Não tente falar."

Eu tentei mesmo assim.

Minha garganta ardeu.

Nenhum som compreensível saiu.

"Não force."

Ela segurou minha mão.

Foi um gesto simples.

Mas meu corpo inteiro pareceu reagir.

Havia horas que ninguém me tocava sem medir alguma coisa.

Pressão.

Pulso.

Temperatura.

Caio havia tocado minha mão com o sapato.

Mariana apenas segurou.

"Seu Augusto, eu vou ficar aqui um pouco."

Meus olhos se fecharam novamente.

Outra memória veio.

Renato.

Doze anos.

Um quarto de hospital particular em São Paulo.

Diferentemente de Caio, ele nunca chorava na frente de desconhecidos.

Até aquela noite.

Os médicos haviam descoberto um problema cardíaco que exigia cirurgia.

O tratamento era complexo.

A empresa ainda não tinha se tornado o império que seria anos depois.

Eu estava em meio à negociação mais importante da minha vida.

Precisava de dinheiro para manter o laboratório funcionando.

Então recebi o orçamento do procedimento de Renato.

Na manhã seguinte, vendi parte da minha participação no primeiro laboratório que havia construído.

Meu sócio tentou me impedir.

"Augusto, se vender agora, vai perder uma fortuna no futuro."

Eu respondi:

"Empresa eu construo outra."

"E essa participação?"

"Também."

Ele me olhou, irritado.

"Você está jogando anos de trabalho fora."

"É meu filho."

A discussão terminou ali.

Na noite anterior à cirurgia, Renato finalmente desabou.

"Eu posso morrer?"

Eu me sentei ao lado da cama.

"Não vai."

"Você não sabe."

"Não sei."

"Então por que falou que não vou?"

Porque pais mentem quando a verdade assusta demais.

Eu segurei sua mão.

"Você vai fechar os olhos. Quando abrir, eu vou estar aqui."

"Promete?"

"Prometo."

Quando ele acordou, eu estava.

Nem sequer fui para casa tomar banho.

Fiquei naquele hospital quase três dias.

Agora era eu quem estava no chão.

E Renato estava discutindo quanto poderia receber quando eu morresse.

Abri os olhos novamente.

Mariana ainda estava ali.

Ela lia meus exames com atenção.

"Isso não faz sentido", murmurou.

Uma médica mais velha se aproximou.

"Você é da clínica?"

"Estou no internato."

"Então não deveria estar com esse prontuário."

"Encontrei no lixo."

A médica parou.

"No lixo?"

"Sim."

"Quem jogou?"

Mariana olhou na direção em que meus filhos haviam ido.

"Não sei."

Era mentira.

Ela sabia.

Mas não disse.

A médica pegou as folhas.

"Esse paciente está aguardando definição da família."

"Definição sobre o quê?"

"Transferência e acesso imediato ao antibiótico."

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"Mas vocês já solicitaram pelo sistema?"

"Sim."

"E não chegou?"

"Não."

"Quanto tempo?"

"Não sabemos."

Mariana olhou para mim.

"Ele tem tempo?"

A médica respirou fundo.

"Talvez não."

Ouvir aquilo deveria ter me assustado.

Mas eu estava cansado demais para sentir medo.

Minha mente continuava deslizando entre presente e passado.

Caio aos dezoito anos.

Primeiro carro.

Eu queria comprar um modelo usado.

Ele queria um importado.

"Todo mundo da faculdade tem carro bom."

"Você não é todo mundo."

"Você pode pagar."

"Esse não é o ponto."

"Então qual é?"

Eu deveria ter dito não.

Em vez disso, comprei.

Renato aos vinte e um.

Intercâmbio.

Londres.

Depois um curso complementar em Zurique.

Mais tarde, uma pós-graduação nos Estados Unidos.

Tudo pago.

Caio aos vinte e sete.

A primeira empresa.

Um desastre.

Ele apareceu na minha casa com dívidas, funcionários sem receber e lágrimas nos olhos.

"Pai, eu só preciso de uma chance."

Eu dei.

Depois veio a segunda empresa.

Outro desastre.

Outra chance.

Depois um investimento que ele jurou que seria revolucionário.

Perdeu milhões.

Eu cobri.

Quando Renato se casou, pediu que eu comprasse um apartamento maior porque a esposa não queria morar num imóvel "compatível com salário de executivo".

Comprei.

Quando o casamento acabou, paguei advogados.

Quando ele se mudou, comprei outro apartamento.

Quando Caio acumulou uma dívida que poderia virar escândalo, resolvi.

Quando Renato entrou numa sociedade ruim, resolvi.

Durante anos, eu chamava aquilo de ajudar meus filhos.

Agora começava a chamar pelo nome certo.

Eu os havia protegido das consequências.

E talvez tivesse criado dois homens convencidos de que tudo existia para servi-los.

Meu dinheiro.

Minha empresa.

Minha reputação.

Minha vida.

A voz de Caio voltou a surgir ao longe.

"Eu quero saber um número."

Eles estavam de volta.

Mariana se afastou um pouco para deixar a médica passar.

Caio e Renato pararam próximos à parede.

A Dra. Lívia se aproximou deles.

"Precisamos de uma resposta."

Renato cruzou os braços.

"Sobre a transferência?"

"Sim."

"Não vamos transferi-lo agora."

"Por quê?"

"Porque queremos aguardar."

A médica arregalou os olhos.

"Aguardar o quê?"

"A evolução."

"A evolução pode ser uma parada respiratória."

Caio deu de ombros.

"Então vocês tratam."

"Estamos tratando com os recursos disponíveis."

"E pronto."

"Não é tão simples."

"Está parecendo bem simples."

A Dra. Lívia respirou fundo.

"Existe uma distribuidora em São Paulo com estoque confirmado da medicação indicada pela infectologia. Também existe uma unidade particular com leito de terapia intensiva disponível, mas precisamos autorizar a logística imediatamente."

Caio colocou as mãos nos bolsos.

"E quanto vai custar?"

"Eu já expliquei que há custos envolvidos."

"Quanto?"

Ela mencionou uma estimativa.

Mesmo sem ouvir cada palavra, percebi a reação de Caio.

Ele riu.

Renato não.

"Isso é absurdo", Caio disse.

"É um tratamento emergencial."

"Por um remédio?"

"Por medicamento, transporte, internação e suporte."

"E se ele morrer mesmo assim?"

A médica ficou em silêncio.

Caio insistiu.

"Qual a garantia?"

"Não existe garantia."

"Então querem que a gente autorize tudo isso sem saber se ele vai sobreviver?"

"Seu pai tem condições financeiras."

A frase atingiu alguma coisa dentro de Caio.

Ele olhou rapidamente para Renato.

"Não é tão simples."

Mariana observava a conversa alguns metros atrás.

A expressão dela se tornou cada vez mais incrédula.

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