《Eles Me Deixaram Morrer Pelo Meu Dinheiro》Capítulo 2

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Caio ficou calado.

Renato se aproximou ainda mais dele.

"Não existe testamento novo."

Ouvir aquilo doeu de uma forma diferente.

Não estavam discutindo minha sobrevivência.

Estavam discutindo minha sucessão.

Eu ainda respirava.

E meus filhos já dividiam o cadáver.

Caio soltou o ar lentamente.

"Então qual é o problema?"

"O problema é não fazer besteira."

"Não precisamos fazer nada."

"Exatamente."

Houve uma pausa.

Então Caio olhou para mim.

"Então deixa a natureza terminar o trabalho."

Fechei os olhos por um instante.

Uma memória surgiu.

Renato aos treze anos, numa cama de hospital.

Uma cirurgia complicada.

Ele chorava porque tinha medo de não acordar.

Eu segurava sua mão.

"Você vai abrir os olhos e eu vou estar aqui."

Eu estive.

Quando a seguradora recusou parte do procedimento, vendi uma participação no primeiro laboratório que havia construído.

Não contei a ele.

Nunca achei necessário.

Família não mantém planilha de dívida.

Ou pelo menos era nisso que eu acreditava.

Outra lembrança veio.

Caio aos vinte e sete.

Primeira empresa falida.

Funcionários cobrando salários.

Dívidas acumuladas.

Ele apareceu na minha casa às duas da manhã.

"Pai, eu estraguei tudo."

Eu poderia ter deixado que enfrentasse as consequências.

Não deixei.

Paguei.

Ajudei.

Recomecei com ele.

Depois houve outra empresa.

Outro empréstimo.

Outro desastre.

Outra mentira.

Sempre existia uma justificativa.

Sempre existia uma segunda chance.

Naquela noite, deitado no chão de um hospital, percebi que talvez eu não tivesse criado dois homens capazes de reconhecer misericórdia.

Talvez tivesse criado dois homens convencidos de que nunca haveria consequência.

A Dra. Lívia voltou acompanhada de um enfermeiro.

"Precisamos repetir a pressão."

Caio e Renato se afastaram.

O aparelho apertou meu braço.

A médica olhou o resultado e xingou baixinho.

"Está caindo."

O enfermeiro ajustou o soro.

"Vou chamar o Henrique."

"Agora."

Ela se ajoelhou ao meu lado.

"Seu Augusto, fique comigo."

Abri os olhos.

"Isso. Muito bem."

Eu queria dizer que estava ouvindo tudo.

Queria apontar para meus filhos.

Queria dizer para não deixá-los decidir nada.

Mas minha língua parecia pesada demais.

Caio aproximou-se.

"Ele consegue falar?"

"Neste momento, não."

"Mas está consciente?"

"Oscila."

Renato observou meu rosto.

"Ele entende o que está acontecendo?"

A médica não respondeu imediatamente.

"Não posso afirmar com precisão."

Foi suficiente.

Vi o alívio passar pelo rosto de Renato.

Pequeno.

Rápido.

Mas eu vi.

Caio também.

Os dois trocaram um olhar.

A médica se levantou.

"Preciso que um de vocês venha comigo. Há decisões que podem precisar ser tomadas rapidamente caso o quadro piore."

"Renato vai", Caio respondeu.

Renato virou o rosto.

"Por que eu?"

"Porque você entende melhor essas coisas."

"Que coisas?"

"Papelada."

A médica parecia cada vez mais desconfortável.

"Senhores, isso não é uma questão burocrática."

Caio sorriu.

"Para alguém sempre é."

Renato acompanhou a médica.

Caio ficou.

Sozinho comigo.

Ele puxou o celular do bolso.

Leu alguma mensagem.

Respondeu.

Depois fez uma ligação.

"Oi."

Silêncio.

"Não, ainda não."

Outra pausa.

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"Eu disse que ainda não."

Ele se afastou um pouco, mas eu continuava ouvindo.

"Está muito mal."

Pausa.

"Não sei. Talvez hoje."

Meu sangue gelou.

Quem estava do outro lado?

Caio virou-se de costas.

"Não mexe em nada até eu ligar."

Desligou.

Ficou alguns segundos olhando para a tela.

Depois veio até mim.

Seus sapatos apareceram primeiro no meu campo de visão.

Couro marrom perfeitamente polido.

Lembrei-me de tê-los dado a ele no aniversário anterior.

Ele se agachou.

Pela primeira vez naquela noite, seu rosto ficou perto do meu.

"Pai?"

Não respondi.

"Augusto?"

Nada.

Ele olhou para os lados.

Ninguém prestava atenção.

Então falou quase num sussurro.

"Você sempre disse que um homem precisa saber a hora de sair de cena."

Eu nunca tinha dito aquilo.

Mas Caio sempre teve talento para colocar palavras na boca dos outros.

"Talvez a sua tenha chegado."

Minha respiração ficou curta.

Ele não percebeu.

Ou não se importou.

"Você teve tudo."

A voz dele mudou.

Havia ressentimento ali.

Antigo.

"Empresa. Dinheiro. Respeito. Todo mundo abaixando a cabeça quando você entrava numa sala."

Ele aproximou o rosto.

"E nós?"

Quase ri.

Se meu corpo tivesse permitido, talvez tivesse rido.

E nós?

Trinta anos de escolas particulares.

Viagens.

Casas.

Carros.

Empregos que não mereciam.

Cargos que não conquistaram.

Empresas que eu salvei.

Dívidas que eu paguei.

Erros que escondi.

Caio ainda se considerava privado de alguma coisa.

"Você nunca soube dividir o poder", ele murmurou.

Ali estava.

Não era apenas dinheiro.

Era poder.

Meu filho não estava esperando a morte do pai.

Estava esperando uma promoção.

Ele se levantou.

A febre aumentava.

As bordas da minha visão ficaram escuras.

Por alguns segundos, pensei que perderia a consciência de verdade.

Então ouvi uma voz feminina do outro lado do corredor.

"Quem jogou isso no lixo?"

Ninguém respondeu.

"Esse prontuário é deste paciente?"

Abri os olhos apenas o suficiente para enxergar uma jovem de uniforme azul desbotado parada ao lado de uma lixeira.

Ela segurava algumas folhas.

Meu prontuário.

Não sabia como haviam ido parar ali.

A jovem conferiu meu nome.

Depois olhou para mim.

Seu crachá estava virado, e eu não consegui ler.

Caio percebeu que ela se aproximava.

"Senhor, isso estava no lixo?"

"Não faço ideia."

"É do paciente."

"Então entregue para alguém."

Ela franziu a testa.

"Ele é seu pai?"

Caio olhou para ela como se a pergunta fosse inconveniente.

"É."

A jovem baixou os olhos para os exames.

Seu rosto mudou.

"Esses resultados..."

"Você é médica?"

"Ainda não."

"Então não mexa nisso."

"Eu sou estudante de medicina."

"Ótimo. Estude."

Ela ignorou o insulto.

Continuou lendo.

"Ele está com sepse."

"Já me informaram."

"E a cultura mostra resistência."

"Também já me informaram."

A jovem olhou para mim novamente.

Havia preocupação genuína em seus olhos.

Eu quase tinha esquecido como aquilo parecia.

Ela se aproximou.

"Seu Augusto?"

Caio segurou o braço dela.

"Ele não está respondendo."

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Ela olhou para a mão dele em seu braço.

"Pode me soltar."

Caio soltou.

"Eu só estou poupando seu tempo."

"Quem decide como eu uso meu tempo sou eu."

Foi a primeira pessoa naquela noite que falou com Caio sem parecer impressionada com o sobrenome Valença.

Ele deu um sorriso frio.

"Boa sorte na carreira."

"Obrigada."

Ela se ajoelhou ao meu lado.

"Seu Augusto, se consegue me ouvir, aperte minha mão."

Meu instinto foi obedecer.

Mas ouvi passos.

Renato estava voltando.

"Caio."

A jovem virou a cabeça.

Renato se aproximou e falou baixo demais para ela ouvir.

"Precisamos ir."

"Agora?"

"A médica quer uma resposta sobre a transferência."

"E?"

"Eu disse que vamos pensar."

Caio assentiu.

A estudante se levantou.

"Pensar?"

Renato olhou para ela.

"Desculpe?"

"O quadro dele pode piorar muito rápido."

"Isso é assunto da família."

"É assunto médico."

"Você acabou de dizer que nem médica é."

Ela apertou o prontuário contra o peito.

"Não preciso ter diploma para saber que um homem com sepse não tem tempo para uma reunião de família."

Caio riu.

"Vamos, Renato."

Os dois começaram a andar.

Então Caio parou.

Voltou.

Veio diretamente até mim.

A estudante observou.

Renato também.

Caio ficou parado ao lado da minha mão direita, que havia escapado debaixo da manta.

Ele olhou para meu rosto.

Depois para meus dedos.

Eu compreendi imediatamente.

Ele queria saber.

Queria ter certeza de que eu não tinha ouvido.

Então fez algo que nenhum filho deveria fazer com o homem que o criou.

Encostou a ponta do sapato nos meus dedos.

Empurrou de leve.

Nada.

Empurrou novamente.

Mais forte.

Meu corpo reagiu antes que eu pudesse impedir.

Meu dedo indicador se moveu.

Foi mínimo.

Quase imperceptível.

Mas Caio viu.

O rosto dele perdeu a cor.

Renato também viu.

A jovem estudante olhou para minha mão.

"Seu Augusto?"

Caio se inclinou rapidamente.

Nossos olhos quase se encontraram.

Naquele segundo, percebi exatamente o que ele procurava.

Consciência.

Medo.

Acusação.

Qualquer sinal de que o pai que ele havia acabado de condenar à morte ainda estava ali.

Eu poderia ter aberto os olhos.

Poderia ter tentado falar.

Poderia ter segurado a mão da estudante e denunciado meus próprios filhos.

Não fiz nada disso.

Passei a vida inteira construindo empresas enquanto homens mais barulhentos do que eu revelavam seus planos porque confundiam silêncio com fraqueza.

Aprendi cedo que uma pessoa mostra quem realmente é quando acredita que ninguém está observando.

Caio ainda precisava acreditar nisso.

Renato também.

Então controlei a respiração.

Deixei minha mão cair completamente imóvel.

E, quando Caio aproximou o rosto para verificar se eu estava consciente, fechei os olhos de propósito.

Foi naquele instante que ouvi Renato sussurrar:

"Se ele escutou alguma coisa, a gente tem um problema."

Caio permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Depois respondeu:

"Então é melhor garantir que ele não tenha tempo de contar."

Parte 2

Deixa Ele Morrer

"Então é melhor garantir que ele não tenha tempo de contar."

A frase de Caio atravessou a névoa da febre como uma lâmina.

Eu permaneci imóvel.

Não porque estivesse inconsciente.

Porque, pela primeira vez em trinta anos, eu queria descobrir até onde meus filhos seriam capazes de ir quando acreditassem que eu já não podia mais impedi-los.

Minha respiração estava curta.

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