Parte 1
O Homem no Chão
"Se a gente não fizer nada, quanto tempo ele ainda aguenta?"
Ouvi a pergunta do meu filho antes mesmo de conseguir abrir os olhos.
Não havia medo na voz de Caio. Não havia desespero, urgência ou sequer aquela falsa preocupação que as pessoas costumam demonstrar quando estão diante de alguém entre a vida e a morte.
Havia apenas cálculo.
Eu estava deitado no chão de um corredor do Hospital Municipal Santa Helena, na Região Metropolitana de São Paulo, tremendo tanto que meus dentes batiam uns contra os outros.
Uma manta térmica prateada cobria meu corpo. O piso gelado atravessava minhas costas, e a luz fluorescente acima da minha cabeça piscava num ritmo irritante.
A cada vez que a lâmpada apagava, eu pensava que talvez não estivesse mais ali quando ela acendesse de novo.
Naquela noite, um engavetamento na Rodovia dos Bandeirantes havia transformado o pronto-socorro em um cenário de guerra.
Macas ocupavam corredores. Enfermeiros corriam entre pacientes. Familiares choravam encostados nas paredes. Médicos gritavam pedidos de exames enquanto ambulâncias continuavam chegando.
Eu tivera uma maca durante vinte e três minutos.
Então trouxeram um rapaz de dezenove anos com o tórax esmagado.
Ouvi uma médica dizer que ele precisava ser estabilizado imediatamente.
Minha maca foi levada.
Não reclamei.
Aquele garoto precisava dela mais do que eu.
A ironia era que, poucas horas depois, meus próprios filhos decidiriam que eu não precisava de mais nada.
Nem de uma cama.
Nem de remédio.
Nem de vida.
Meu nome é Augusto Valença.
Naquela noite, porém, ninguém naquele corredor parecia saber disso.
Eu usava uma calça de moletom cinza, uma camisa velha e um casaco que havia comprado anos antes numa pequena loja em Campinas. Meu cabelo branco estava grudado na testa pelo suor, e havia manchas de vômito na manga.
Eu não parecia o fundador do Grupo Valença Tecnologia.
Não parecia o homem cuja assinatura podia alterar o preço das ações de três empresas antes do almoço.
Muito menos alguém que possuía uma casa em Alphaville, participação em empresas no exterior e patentes avaliadas em centenas de milhões de reais.
Eu parecia exatamente o que Caio diria que eu era algumas horas depois.
Um velho jogado no chão.
A febre tinha começado dois dias antes.
Primeiro vieram os calafrios. Depois, a fraqueza. Naquela manhã, eu já não conseguia atravessar sozinho o corredor de casa.
No fim da tarde, minha pressão despencou.
Foi a funcionária que cuidava da casa quem chamou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência.
Caio não atendeu.
Renato também não.
Quando finalmente cheguei ao hospital, a infecção já havia avançado para o sangue.
Sepse.
Eu conhecia a palavra.
Não conhecia o medo que ela provocava até ouvir um médico pronunciá-la olhando para mim.
As primeiras medicações não funcionaram.
Depois vieram os exames.
Culturas.
Mais exames.
Mais espera.
Então a expressão dos médicos mudou.
Foi assim que percebi que o problema era pior do que haviam imaginado.
Uma médica de cabelos presos aproximou-se de mim com uma prancheta nas mãos. Seu crachá dizia "Dra. Lívia Martins".
Ela se abaixou.
"Seu Augusto, o senhor consegue me ouvir?"
Tentei responder.
Minha boca se abriu, mas minha garganta produziu apenas um som rouco.
"Não force."
Ela encostou dois dedos no meu pulso.
"A bactéria que encontramos apresenta resistência a vários dos antibióticos que temos disponíveis aqui."
Tentei perguntar o que aquilo significava.
Nenhuma palavra saiu.
Ela continuou.
"E existe outro problema. No seu prontuário constam reações alérgicas graves a duas das alternativas que normalmente consideraríamos."
Eu sabia.
Anos antes, uma dose errada quase fechara minha garganta em menos de cinco minutos.
A médica respirou fundo.
"Estamos tentando conseguir uma medicação específica. O hospital já acionou os protocolos de emergência, mas não temos esse medicamento disponível agora, e a transferência também está complicada por causa do acidente."
Fechei os olhos.
"Precisamos agir rápido."
Foi então que ouvi passos apressados.
"Augusto Valença?"
Reconheci a voz imediatamente.
Caio.
Meu filho mais velho atravessou o corredor como se estivesse chegando atrasado a uma reunião.
Camisa branca impecável. Relógio caro. Sapatos italianos que provavelmente custavam mais do que o salário mensal de alguns profissionais que trabalhavam ali.
Atrás dele vinha Renato.
Meu segundo filho usava um terno azul-marinho e uma gravata de seda. Diferentemente do irmão, não demonstrava irritação.
Renato quase nunca demonstrava nada.
Era isso que tornava difícil saber quando ele estava mentindo.
Caio me viu no chão.
Parou.
Por um instante, esperei alguma coisa.
Um susto.
Talvez vergonha.
Talvez aquele reflexo humano de correr até alguém que você chama de pai há trinta anos.
Ele apenas franziu a testa.
"Por que ele está no chão?"
A médica se levantou.
"Tivemos uma emergência de grande proporção. A maca precisou ser destinada a um paciente politraumatizado. Estamos aguardando outra."
Caio olhou ao redor.
"Isso aqui é um hospital ou uma rodoviária?"
"Senhor, estamos fazendo o possível."
"O possível parece pouco."
Renato tocou o braço dele.
"Caio."
"Não, Renato. Olha isso."
Ele apontou para mim.
"Um homem de sessenta e oito anos largado no chão."
Por um segundo, alguém poderia acreditar que aquilo era indignação de filho.
Eu quase acreditei.
Então Caio perguntou:
"E qual é exatamente a situação?"
A médica explicou.
Sepse.
Resistência bacteriana.
Alergias.
Necessidade de uma medicação difícil de conseguir com rapidez.
Possibilidade de transferência para uma unidade privada que talvez tivesse acesso imediato ao tratamento.
Caio ouviu tudo sem interromper.
Quando ela terminou, ele perguntou:
"Quanto?"
A médica pareceu não entender.
"Desculpe?"
"Quanto vai custar essa brincadeira?"
"Neste momento, a questão principal não é..."
"Eu perguntei quanto."
Renato finalmente desviou os olhos para mim.
Não para meu rosto.
Para a manta.
Para o soro.
Para os equipamentos.
Como se estivesse calculando quanto ainda seria gasto antes de eu morrer.
A médica respondeu com firmeza.
"Se a família optar por uma transferência particular imediata e pela aquisição emergencial da medicação por uma distribuidora que confirmou disponibilidade, o custo inicial pode ser alto. Mas o hospital público continua buscando alternativas pelo sistema."
"Alto quanto?"
"Não posso fornecer um valor fechado sem a confirmação da unidade e da farmácia."
Caio soltou uma risada curta.
"Claro."
A médica endureceu a expressão.
"Seu pai está em estado grave."
"Eu entendi essa parte."
"Talvez não tenha entendido."
Ele olhou diretamente para ela.
"Então explique."
"Ele pode entrar em choque séptico. Os rins já apresentam sinais de comprometimento. A pressão está instável. Se houver piora respiratória..."
"Ele morre?"
O corredor pareceu ficar silencioso.
Talvez não tivesse ficado.
Talvez fosse apenas a febre.
A médica demorou um segundo para responder.
"Existe risco real de morte."
Caio assentiu.
Como quem acabara de receber uma informação financeira.
Então fez a pergunta que eu nunca esqueceria.
"Se a gente não fizer nada, quanto tempo ele ainda aguenta?"
A médica ficou imóvel.
"Como é?"
"Sem transferência. Sem essa medicação especial. Sem gastar uma fortuna para prolongar uma situação que talvez já esteja decidida."
"Estamos falando da vida do seu pai."
"Eu sei de quem estamos falando."
Minha mão tremia sob a manta.
Não por causa da febre.
Eu me lembrei de Caio aos nove anos.
Ele acordava gritando depois do incêndio que matou seus pais.
Durante meses, dormi numa poltrona ao lado da cama dele porque o menino entrava em pânico quando ficava sozinho.
"Não apaga a luz, pai."
Era o que ele dizia.
Pai.
A primeira vez que me chamou assim, chorei escondido no banheiro.
Agora ele queria saber quanto tempo eu levaria para morrer se simplesmente me deixasse ali.
Renato segurou o ombro do irmão.
"Vamos conversar."
Os dois se afastaram alguns metros.
Não o suficiente.
Eles achavam que eu estava inconsciente.
Esse foi o primeiro erro.
A sepse tinha roubado minha voz.
Não meus ouvidos.
"Você perdeu a cabeça?", Renato sussurrou.
"Eu só fiz uma pergunta."
"Na frente da médica?"
"E daí?"
"Você quer que alguém registre isso?"
Caio bufou.
"Para de paranoia."
"Não é paranoia. É prudência."
Mesmo quase delirando, senti uma velha familiaridade.
Renato sempre fora assim.
Quando criança, escondia os pedaços do vaso que quebrava.
Caio quebrava.
Renato limpava.
Trinta anos depois, pouca coisa havia mudado.
Caio passou a mão pelo cabelo.
"Você ouviu o que ela falou. Transferência particular, remédio importado, UTI. Sabe quanto isso pode virar?"
"Sei."
"E para quê?"
Renato não respondeu.
Caio continuou.
"Olha para ele."
Eu senti seus olhos sobre mim.
"Ele está acabando."
"Fala baixo."
"Você acha que eu estou errado?"
Renato demorou.
Foi esse silêncio que me feriu mais do que qualquer palavra.
Porque, naquele instante, ainda havia uma parte estúpida de mim esperando que meu segundo filho dissesse sim.
Que dissesse que eu era o pai deles.
Que dinheiro não importava.
Que eles fariam qualquer coisa.
Em vez disso, Renato perguntou:
"Helena trouxe algum documento novo para ele assinar?"
Meu coração pareceu falhar uma batida.
Helena Sampaio.
Minha advogada havia cuidado dos meus assuntos pessoais durante mais de vinte anos.
Caio respondeu:
"Não que eu saiba."
"Alguma alteração no testamento?"
"Não."
"Tem certeza?"
"Renato, eu vejo os relatórios."
"Você vê o que ele deixa você ver."