As laranjas espalhadas pelo carpete pareciam zombar do caos mental que tomava conta da mente da designer de joias naquele instante.
Lucas permaneceu sentado no sofá, balançando as perninhas com um sorriso cúmplice e vitorioso estampado em seu rostinho angelical.
Enquanto isso, a quilômetros dali, o verdadeiro apocalipse financeiro desabava impiedosamente sobre o restante do clã Monteiro no Morumbi.
Nos escritórios centrais da construtora, a sirene da bolsa de valores ecoava como o sino fúnebre de um império construído sobre a mentira.
A investida conjunta e coordenada pelo Grupo Valente havia esmagado as últimas ações da empresa em menos de duas horas de pregão.
Contas bloqueadas, mandados de penhora e oficiais de justiça acumulavam-se na entrada da mansão como abutres famintos sobre uma carcaça.
No quarto principal, Valéria Castro arrastava malas de grife com as mãos trêmulas, jogando dentro delas joias legítimas e maços de dinheiro vivo.
O pânico a havia transformado em uma figura patética, cujos olhos arregalados de desespero traçavam planos desesperados de fuga para o exterior.
"Eu não vou ficar aqui para apodrecer na cadeia por causa da incompetência daquele velho imprestável!", sibilava ela para si mesma, ofegante.
Valéria sabia que o cerco estava se fechando e que a polícia federal já emitira ordens de busca e apreensão para todos os bens da família.
Ela roubara o cofre secreto de Rodrigo, levando cada centavo que o marido guardara para subornar antigos políticos e parceiros comerciais.
Com uma maleta pesada de dinheiro apertada contra o peito, ela abriu a porta do quarto e desceu correndo as escadas em direção à saída de serviço.
Ignorando os gritos abafados de Rodrigo que vinham do escritório, Valéria atirou-se dentro de seu sedã de luxo e acelerou cantando pneus.
O destino escolhido era o Aeroporto Internacional de Guarulhos, onde um jato particular alugado às pressas a aguardava para um voo sem volta.
Durante todo o trajeto pela Marginal Pinheiros, seu coração martelava no peito como um tambor de guerra prestes a estourar.
A imagem de Lúcia triunfante na gala beneficente asselhava sua mente, misturando-se ao pavor lancinante de perder toda a sua falsa majestade.
"Eu vou conseguir... eu vou fugir para a Europa e recomeçar do zero", repetia Valéria em voz alta, tentando convencer a si mesma no banco de trás.
Assim que o veículo encostou na área de desembarque do terminal internacional, ela saltou apressada, arrastando as malas pesadas pelo saguão lotado.
O movimento intenso de passageiros parecia embaçar sua visão, enquanto ela desviava dos turistas com uma pressa quase animalesca.
Aproxime-se do portão de embarque restrito, Valéria respirou aliviada ao ver que a fila estava vazia e que sua passagem parecia garantida.
"Documentos e passaporte, por favor", solicitou a funcionária da companhia aérea com um tom monótono e protocolar atrás do balcão de vidro.
Valéria abriu a bolsa com os dedos trêmulos, estendendo o passaporte falso que providenciara através de contatos escusos na calada da noite.
A atendente digitalizou o documento, mas o sistema emitiu um bipe vermelho e intermitente que congelou a aeromoça no mesmo instante.
"Há um impedimento judicial ativo para este passaporte, senhora Castro. A Polícia Federal foi acionada", anunciou a funcionária com frieza.
O sangue de Valéria congelou nas veias, transformando-se em gelo puro enquanto o pânico absoluto paralisava cada músculo de seu corpo.
"Não... deve haver algum engano! Eu sou Valéria Castro! Tenho imunidade e urgência!", gritou ela, perdendo totalmente a compostura de grande dama.
Antes que pudesse dar mais um passo para trás, duas figuras imponentes em trajes formais bloquearam sua rota de fuga no corredor de embarque.
Era Enrique, o braço direito de Lorenzo Valente, acompanhado por dois agentes federais à paisana com distintivos reluzindo na lapela.
"Boa Noite, Senhora Castro. A viagem foi cancelada permanentemente", disse Enrique com uma voz metálica e cortante que ecoou no terminal.
Valéria recuou esbarrando nas próprias malas, sentindo o terror absoluto inundar sua alma ao perceber que caíra em uma armadilha perfeita.
"Vocês não podem fazer isso! Isso é um abuso! Meu marido é Rodrigo Monteiro, vocês vão pagar caro!", guinchou a mulher de forma histérica.
"O seu marido está ocupado demais respondendo por fraudes fiscais e lavagem de dinheiro para se importar com a sua fuga", retrucou Enrique com desdém.
Com um gesto rápido e preciso, Enrique fez um sinal para os agentes federais, que avançaram sem hesitar para conter a ex-socialite.
Valéria debateu-se violentamente, arranhando o ar com as unhas manicuradas e gritando xingamentos impiedosos contra Lúcia e Lorenzo.
"Sua maldita! Lúcia, sua desgraçada! Você vai pagar por destruir a minha família!", berrava ela enquanto era imobilizada à força no chão limpo.
Os passageiros ao redor pararam para assistir ao espetáculo, apontando os celulares e gravando a queda estrondosa daquela que outrora esbanjava soberba.
O colar de esmeraldas falsas que ela usava desvencilhou-se do pescoço, espatifando-se em pedacinhos verdes sobre os azulejos do aeroporto.
Enrique abaixou-se calmamente, recolheu a maleta recheada com o dinheiro roubado e abriu-a para conferir o conteúdo confiscado pelo estado.
"Tudo devidamente inventariado. Entreguem os pertences dela à custódia do tribunal", ordenou o assistente com frieza cirúrgica aos policiais.
Aproximando-se da mulher que agora soluçava histericamente no chão, um dos agentes federais sacou um par de braceletes de metal prateado.
O som metálico do clique ecoou como a sentença definitiva de um mundo que desabara por completo sobre a cabeça daquela megera.
O brilho impiedoso das algemas prateadas fechou-se com força sobre os pulsos outrora manicurados de Valéria, estilhaçando de vez a máscara de rica e intocável dama que ela mantivera por toda a vida.
Valéria soltou um grito abafado e agudo, sentindo o peso do ferro frio cortar sua pele enquanto era erguida à força pelos agentes.
O cabelo escovado desgrenhou-se sobre o rosto suado, e a maquiagem cara borrou-se com as lágrimas de puro ódio e desespero acumuladas.
Ela foi arrastada para fora do terminal de embarque sob os flashes incessantes de repórteres que já aguardavam do lado de fora do aeroporto.
A queda de Valéria Castro era o prato principal de um banquete de vingança servido friamente pelos verdadeiros donos daquela cidade.
Enquanto a viatura policial arrancava com sirene ligada em direção ao presídio feminino, Enrique pegou o celular para reportar o sucesso da missão.
Ele discou o número direto de Lorenzo Valente, aguardando apenas dois toques para ser atendido pela voz grave e autoritária do patrão.
"Missão cumprida, chefe. A madrasta já está a caminho da cela preventiva. O dinheiro foi totalmente recuperado pelo banco", informou o assistente.
Do outro lado da linha, na sala de estar do apartamento nos Jardins, Lorenzo ouvia a confirmação enquanto olhava fixamente para Lúcia e o filho.
"Excelente, Enrique. Mantenha a pressão sobre os bens restantes de Rodrigo. O show principal está apenas começando", ordenou o magnata.
Lúcia cruzou os braços, respirando fundo enquanto o peso daquele momento histórico começava a se assentar em sua mente revigorada.
O império dos Monteiro jazia em ruínas absolutas, exatamente como ela previra no dia em que foi escorraçada na tempestade.