A descoberta do nome de Teresa Montenegro Vasconcelos como beneficiária do patrimônio de Gabriel mudou completamente a direção da investigação.
Até aquele momento, Gabriel ainda tentava acreditar que sua mãe havia perdido o controle.
Que talvez fosse apenas uma mulher dominadora tentando manter influência sobre a família.
Mas agora era diferente.
Documentos.
Assinaturas falsas.
Planejamento financeiro.
E uma tentativa de controlar tudo depois da sua morte.
Não era uma discussão familiar.
Era uma estratégia.
Na manhã seguinte, Gabriel voltou à Delegacia de Crimes Financeiros de São Paulo acompanhado de Isabela.
A Delegada Helena Ribeiro colocou novos documentos sobre a mesa.
"Encontramos mais informações sobre o plano."
Gabriel olhou para os papéis.
"O que mais existe?"
Helena respirou fundo.
"A transferência da casa era apenas uma parte."
Ela abriu uma pasta.
"Teresa também tentou alterar documentos relacionados ao seu seguro de vida."
Gabriel ficou imóvel.
"Meu seguro?"
"Sim."
"Ela queria mudar o beneficiário."
Isabela segurou a mão do marido.
"Para ela."
Helena assentiu.
Gabriel passou alguns segundos em silêncio.
Ele tentava entender como uma pessoa poderia planejar algo tão extremo contra o próprio filho.
"Ela queria meu patrimônio."
A delegada respondeu:
"Mais do que isso."
Ela apontou para outro documento.
"Ela queria controlar tudo que você deixaria para Lucas."
Gabriel franziu a testa.
"O que isso significa?"
Helena mostrou uma página.
Era uma proposta de criação de uma estrutura patrimonial familiar.
Uma empresa.
Uma espécie de administração dos bens da família.
O nome de Teresa aparecia como responsável principal.
Gabriel leu várias vezes.
"Ela queria criar uma empresa usando meus bens?"
"Sim."
"Sem minha autorização?"
"Essa era a intenção."
O silêncio tomou conta da sala.
Isabela olhou para o documento.
"Ela queria controlar o futuro do Lucas."
Gabriel sentiu um aperto no peito.
Lucas era apenas um bebê.
Não sabia nada sobre dinheiro.
Sobre herança.
Sobre disputas familiares.
E mesmo assim já estava sendo colocado no centro de uma guerra.
Helena continuou.
"Existe uma parte ainda mais preocupante."
Ela abriu outra pasta.
"Encontramos comunicações entre Teresa e um advogado."
Gabriel levantou os olhos.
"Quem?"
A delegada colocou uma fotografia sobre a mesa.
Um homem elegante.
Terno escuro.
Olhar calculista.
"Eduardo Ferraz Montenegro."
Gabriel reconheceu o sobrenome.
"Montenegro?"
"Sim."
Helena explicou:
"Ele trabalha com direito empresarial e sucessório."
Gabriel pegou a foto.
"Eu conheço esse nome."
Isabela olhou para ele.
"Como?"
Gabriel ficou pensativo.
"Minha mãe já mencionou esse advogado algumas vezes."
Helena observou a reação dele.
"Ele ajudava Teresa com documentos há anos."
Gabriel sentiu um arrepio.
"Há anos?"
A delegada assentiu.
"Encontramos registros de contato entre eles há mais de dez anos."
A informação pesou.
Mais de dez anos.
Enquanto Gabriel acreditava que sua mãe apenas cuidava da família, ela mantinha uma parceria escondida.
Uma parceria construída em silêncio.
"Então ele não apareceu agora."
Helena balançou a cabeça.
"Não."
"Ele já estava preparando isso."
Gabriel levantou.
Começou a andar pela sala.
Sua mente tentava juntar todas as peças.
A pasta escondida.
Os documentos.
As assinaturas.
A festa de aniversário.
Tudo tinha sido planejado.
"Minha mãe sabia exatamente o que estava fazendo."
Helena respondeu:
"Provavelmente."
Gabriel parou.
"Provavelmente?"
Ela escolheu as palavras com cuidado.
"Senhor Gabriel, pessoas como Teresa raramente agem sozinhas quando envolvem documentos, bancos e patrimônio."
Ele olhou para a foto de Eduardo.
"Então ele é o responsável?"
"Estamos investigando."
Naquele momento, o celular de Helena tocou.
Ela atendeu.
Ouviu por alguns segundos.
Depois sua expressão mudou.
"Tem certeza?"
Ela desligou.
Gabriel percebeu.
"O que aconteceu?"
Helena olhou para ele.
"Conseguimos acesso a uma parte dos arquivos de Eduardo Ferraz Montenegro."
"E?"
Ela colocou um novo documento sobre a mesa.
Era um contrato antigo.
Datado de dez anos atrás.
Gabriel pegou o papel.
No topo estava escrito:
"Consultoria Patrimonial Montenegro."
Ele olhou os nomes.
Teresa Montenegro Vasconcelos.
Eduardo Ferraz Montenegro.
E abaixo:
Planejamento sucessório familiar.
Gabriel sentiu o estômago apertar.
"Minha mãe e ele planejavam isso há dez anos?"
Helena não respondeu imediatamente.
Mas o silêncio dela confirmou.
Aquela não era uma decisão recente.
Era algo construído lentamente.
Durante uma década.
Enquanto isso, na cobertura de Eduardo Ferraz Montenegro nos Jardins, Teresa estava diante da janela observando a cidade.
Ela segurava uma taça de vinho.
Mas suas mãos tremiam.
Pela primeira vez, ela parecia insegura.
"Gabriel descobriu muita coisa."
Eduardo estava sentado atrás dela.
Calmo.
Como se nada tivesse acontecido.
"Ele descobriu apenas uma parte."
Teresa virou.
"Você disse que tudo seria simples."
Eduardo ajeitou o relógio.
"Era simples."
"Até ele chegar mais cedo naquela festa."
Ela ficou em silêncio.
Aquele detalhe havia destruído o plano original.
Gabriel deveria ter chegado depois.
Quando tudo já estivesse pronto.
Quando os documentos já tivessem sido retirados.
Quando ninguém pudesse impedir.
"Ele está contra mim agora."
Eduardo respondeu:
"Ele está contra a imagem que tem de você."
Teresa franziu a testa.
"Qual a diferença?"
Eduardo sorriu levemente.
"A diferença é que uma imagem pode ser destruída."
Ela se aproximou.
"O que você quer dizer?"
Eduardo pegou uma pasta.
Dentro havia novos documentos.
Informações.
Relatórios.
Fotos.
"Gabriel ainda tem apoio da esposa."
Teresa ficou séria.
"E daí?"
Eduardo fechou a pasta.
"Sem Isabela, ele fica sozinho."
Ela entendeu.
"Você quer atacar o casamento."
"Não."
Ele corrigiu.
"Eu quero destruir a confiança."
Teresa ficou olhando para ele.
Pela primeira vez percebeu que Eduardo não estava apenas ajudando.
Ele estava conduzindo tudo.
"Qual é o próximo passo?"
Eduardo se levantou.
Caminhou até a mesa.
Pegou uma folha.
E respondeu com calma:
"A última etapa."
Teresa esperou.
Eduardo olhou para ela.
"Precisamos fazer Gabriel perder o apoio de todos."
O silêncio tomou conta da sala.
Lá fora, São Paulo continuava iluminada.
Mas dentro daquela cobertura, uma nova fase da guerra começava.
Porque agora Gabriel não lutaria apenas contra documentos falsos.
Ele lutaria contra uma história criada para destruir sua própria imagem.