O corredor do Hospital São Gabriel Paulista estava silencioso naquela noite.
Gabriel Montenegro Almeida estava sentado ao lado da porta do quarto, olhando para o filho através do vidro.
Lucas dormia tranquilo depois de receber os cuidados médicos.
A febre finalmente começava a baixar.
Mas dentro de Gabriel, nada estava tranquilo.
Ele ainda conseguia ver a imagem da esposa na cozinha.
Isabela segurando o filho doente enquanto lavava pratos para pessoas que nem tinham sido convidadas.
Aquela cena não saía da sua cabeça.
Ele apertou as mãos.
Durante anos, ele acreditou que conhecia sua própria família.
Acreditou que sua mãe apenas era uma mulher forte.
Controladora às vezes.
Mas uma pessoa que queria ajudar.
Agora, pela primeira vez, ele começou a questionar tudo.
A porta do quarto se abriu.
Isabela saiu devagar.
Ela parecia exausta.
Gabriel levantou imediatamente.
"Como ele está?"
Ela sorriu levemente.
"O médico disse que ele está melhor. A febre está diminuindo."
Ele respirou aliviado.
Mas logo percebeu que havia algo errado.
Isabela estava evitando olhar diretamente para ele.
"Isabela."
Ela parou.
"O que foi?"
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
Então respondeu:
"Eu preciso te contar algumas coisas."
Gabriel sentiu um peso no peito.
"Coisas sobre minha mãe?"
Ela assentiu.
Eles se sentaram em duas cadeiras próximas ao corredor.
Durante alguns minutos, Isabela apenas olhou para o chão.
Como se estivesse escolhendo cuidadosamente cada palavra.
"Depois que você voltou ao trabalho, Teresa começou a aparecer todos os dias."
Gabriel ouviu em silêncio.
"No começo, ela realmente ajudava."
Isabela respirou fundo.
"Ela trazia comida."
"Ela lavava algumas roupas."
"Ela dizia que eu precisava descansar."
Gabriel assentiu.
Era exatamente a história que sua mãe contava.
Mas então Isabela continuou.
"Depois ela começou a mudar."
"Como?"
Ela levantou os olhos.
"Ela começou a perguntar sobre dinheiro."
Gabriel franziu a testa.
"Dinheiro?"
"Ela queria saber quanto você ganhava."
"Queria saber nossas contas."
"Queria saber onde ficavam nossos documentos."
O coração de Gabriel começou a bater mais forte.
"E você me contou isso?"
Isabela desviou o olhar.
"Eu tentei."
Aquela resposta doeu.
"Quando?"
"Algumas vezes."
Gabriel ficou quieto.
Ele tentou lembrar.
E então percebeu.
Havia momentos em que Isabela dizia que Teresa estava passando dos limites.
Mas ele sempre respondia que sua mãe só queria ajudar.
Ele sempre diminuía o problema.
Ele sempre dizia:
"Ela é assim mesmo."
Agora aquela frase parecia uma desculpa.
"Por que você não insistiu?"
Isabela respirou fundo.
"Porque eu tinha medo de colocar você no meio."
"Entre mim e ela?"
Ela balançou a cabeça.
"Não."
Ela olhou para ele.
"Entre seu casamento e sua mãe."
Gabriel sentiu a culpa crescer.
Naquele momento, uma enfermeira passou pelo corredor.
Depois que ela saiu, Isabela continuou.
"Gabriel, sua mãe dizia coisas diferentes para nós dois."
Ele ficou atento.
"Como assim?"
Ela segurou as mãos.
"Ela dizia para mim que você não confiava em mim."
Gabriel ficou imóvel.
"O quê?"
"Ela dizia que você achava que eu não sabia administrar dinheiro."
A expressão dele mudou.
"Eu nunca disse isso."
"Eu sei."
Isabela respondeu rapidamente.
"Mas naquela época eu acreditava."
Gabriel olhou para a janela do corredor.
Lá fora, São Paulo continuava funcionando normalmente.
Pessoas andando.
Carros passando.
Enquanto dentro daquele hospital, sua família estava desmoronando.
Então ele lembrou de algo.
"Isabela."
"Sim?"
"Você recebeu algum dinheiro da minha mãe?"
Ela pareceu confusa.
"Que dinheiro?"
Gabriel franziu a testa.
"Os três mil reais por mês."
O silêncio foi imediato.
Isabela apenas olhou para ele.
"Que três mil reais?"
Gabriel sentiu o corpo gelar.
"Eu envio três mil reais para ela todos os meses."
"Para ajudar vocês."
"Para ajudar você e Lucas."
Isabela ficou completamente surpresa.
"Gabriel..."
Ela balançou a cabeça lentamente.
"Ela nunca me deu esse dinheiro."
Ele ficou parado.
Sem conseguir responder.
"Como assim nunca?"
"Ela comprava algumas coisas."
"Alguns alimentos."
"Mas dinheiro?"
Ela negou.
"Nunca."
Gabriel levantou da cadeira.
Ele precisou andar alguns passos.
A informação parecia impossível.
Um ano.
Doze meses.
Trinta e seis mil reais.
Ele enviando dinheiro para a própria mãe acreditando que ela estava ajudando sua esposa.
Enquanto Isabela nem sabia que aquele dinheiro existia.
"Ela disse que usava o dinheiro para pagar as despesas da casa."
Isabela olhou para ele.
"Ela dizia que você tinha pedido para ela controlar tudo."
Gabriel fechou os olhos.
Agora tudo fazia sentido.
Teresa contava uma versão para cada pessoa.
Para ele, ela era a mãe dedicada.
Para Isabela, ela era a autoridade da casa.
Ela criava uma distância entre os dois.
E enquanto eles tentavam manter a paz, ela ganhava controle.
Na manhã seguinte, Gabriel foi até a Delegacia de Crimes Financeiros de São Paulo.
A Delegada Helena Ribeiro já esperava por ele.
Sobre a mesa estavam os documentos encontrados na mansão.
O falso documento da transferência da casa.
As cópias pessoais.
Os registros.
Gabriel sentou.
"Eu preciso entender o que minha mãe estava tentando fazer."
Helena abriu uma pasta.
"Senhor Gabriel, encontramos mais informações."
Ela colocou alguns papéis na frente dele.
"Esses documentos estavam escondidos junto com a tentativa de transferência da propriedade."
Gabriel olhou.
E reconheceu o nome.
Banco Imperial Paulista.
"O que é isso?"
Helena respondeu:
"Uma confirmação de reunião."
"Com quem?"
"Com sua mãe e Matheus Montenegro."
Gabriel sentiu um arrepio.
"Para quê?"
A delegada ficou séria.
"A reunião estava marcada para discutir uma linha de crédito usando um imóvel como garantia."
Gabriel ficou em silêncio.
"Meu imóvel."
Helena assentiu.
"Sim."
Ele passou a mão pelo rosto.
"Mas eles não podem fazer isso."
"Não legalmente."
"Então por que estavam tentando?"
Helena não respondeu imediatamente.
Ela virou outra página.
"Porque alguém acreditava que conseguiria."
Gabriel olhou os documentos novamente.
A reunião estava marcada para segunda-feira.
Dois dias depois do aniversário de Lucas.
O aniversário.
A festa.
A humilhação de Isabela.
Tudo parecia fazer parte de um plano.
"Ela queria usar minha casa para conseguir dinheiro."
Helena respondeu:
"É o que parece."
Gabriel sentiu a raiva aumentar.
"Minha própria mãe."
A delegada manteve a expressão séria.
"Senhor Gabriel, existe outra coisa."
Ele levantou os olhos.
"O quê?"
Helena colocou um novo documento sobre a mesa.
"Encontramos comunicações entre alguém se passando pelo senhor e o banco."
Gabriel pegou a folha.
Era uma troca de emails.
Mas o endereço parecia estranho.
Parecia o dele.
Mas não era exatamente o dele.
"Esse email não é meu."
Helena assentiu.
"Nós sabemos."
Gabriel continuou lendo.
As mensagens falavam sobre a casa.
Sobre a renda.
Sobre sua família.
Sobre Lucas.
Informações que apenas alguém próximo poderia saber.
"Quem enviou isso?"
Helena fechou a pasta.
"Ainda estamos investigando."
Gabriel olhou para ela.
"Minha mãe?"
"Pode estar envolvida."
"E Matheus?"
"Também."
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
Então perguntou:
"Como alguém conseguiu tantas informações minhas?"
A delegada respirou fundo.
Porque a resposta era pior do que ele imaginava.
"Alguém teve acesso à sua vida pessoal."
Gabriel sentiu um frio na barriga.
"Minha mãe tinha acesso."
Helena balançou a cabeça.
"Talvez."
Ela empurrou outro documento.
"Mas existe algo que nos preocupa."
Gabriel olhou.
Era um relatório de acesso.
Contas.
Documentos.
Informações pessoais.
Tudo organizado.
Como se alguém estivesse montando um perfil completo dele.
Helena olhou diretamente para Gabriel.
"Senhor Montenegro."
Ele levantou os olhos.
A delegada falou lentamente:
"Alguém não está apenas tentando roubar seu dinheiro."
Ela fez uma pausa.
"Alguém está tentando roubar quem você é."