A notícia de que Eduardo Montenegro e Isabela estavam cada vez mais próximos começou a circular rapidamente entre as famílias mais importantes de São Paulo.
Mas não eram apenas os rumores que incomodavam Gabriel.
Era a forma como Eduardo olhava para ela.
Com orgulho.
Com cuidado.
Com respeito.
Tudo aquilo que Gabriel nunca percebeu que Isabela precisava.
Naquela manhã, Gabriel chegou à Torre Montenegro e encontrou Eduardo conversando com alguns diretores.
Isabela estava ao lado dele.
Ela não parecia uma mulher tentando provar que pertencia àquele lugar.
Ela parecia alguém que finalmente havia encontrado seu próprio espaço.
Um dos diretores comentou:
"Isabela trouxe ótimas ideias para o novo projeto."
Gabriel parou ao ouvir aquilo.
Ele nunca tinha visto Isabela sendo reconhecida daquela forma.
Não porque ela estava ao lado de alguém poderoso.
Mas porque as pessoas realmente ouviam o que ela tinha a dizer.
Eduardo percebeu a presença dele.
"Gabriel."
O tom era tranquilo.
Mas Gabriel sentiu uma distância que nunca existiu antes.
Ele olhou para Isabela.
"Então agora ela trabalha aqui?"
Isabela respondeu antes de Eduardo.
"Eu não trabalho aqui porque conheço você."
Ela manteve a calma.
"Eu estou aqui porque tenho capacidade."
A resposta atingiu Gabriel.
Porque aquela era a primeira vez que ele via Isabela se defender sem precisar de alguém fazendo isso por ela.
Naquela noite, Gabriel voltou para a mansão onde cresceu.
O lugar parecia maior do que antes.
Mais vazio.
Ele entrou no antigo escritório e viu uma caixa com algumas coisas guardadas.
Dentro havia lembranças.
Fotos.
Bilhetes.
Pequenos presentes.
Coisas que Isabela havia dado a ele durante os anos em que estiveram juntos.
Ele pegou uma fotografia.
Os dois estavam em um parque simples.
Não havia luxo.
Não havia festas.
Não havia sobrenomes importantes.
Apenas os dois sorrindo.
E naquele momento, Gabriel começou a lembrar.
Lembrou de quando ficou doente e Isabela passou a noite inteira cuidando dele.
Lembrou de quando ele perdeu uma importante oportunidade e ela foi a única pessoa que acreditou nele.
Lembrou de todas as vezes que ela esperou por ele enquanto ele estava ocupado demais tentando impressionar outras pessoas.
Ela sempre esteve ali.
E ele sempre achou que ela continuaria.
No dia seguinte, Gabriel encontrou Valentina em um restaurante nos Jardins.
Ela percebeu imediatamente que havia algo errado.
"Você parece diferente."
Gabriel permaneceu em silêncio.
Valentina sorriu.
"É por causa dela?"
Ele levantou os olhos.
"Por que você sempre fala dela como se ela fosse o problema?"
A expressão de Valentina mudou.
"Porque ela entrou em uma vida que não pertence a ela."
Gabriel ficou olhando para aquela frase.
E pela primeira vez percebeu algo.
Valentina nunca perguntava se ele estava feliz.
Nunca perguntava se ele estava bem.
Ela sempre falava sobre posição.
Família.
Imagem.
Status.
Tudo aquilo que envolvia o sobrenome Montenegro.
Gabriel baixou o olhar.
E uma verdade dolorosa começou a aparecer.
Valentina amava o homem que todos viam.
O herdeiro.
O nome.
O futuro poderoso.
Mas Isabela...
Isabela amava o homem que existia quando ninguém estava olhando.
Enquanto isso, Eduardo continuava tentando proteger Isabela dos comentários da alta sociedade.
Muitas pessoas ainda diziam que ela estava com ele por interesse.
Mas Eduardo nunca permitiu que ela enfrentasse aquilo sozinha.
Durante um evento beneficente no Museu da Casa Brasileira, uma convidada comentou:
"Algumas pessoas sabem exatamente como subir na vida."
Antes que Isabela respondesse, Eduardo se aproximou.
Ele ouviu.
E sua expressão mudou.
"Se você acredita que o valor de uma pessoa depende do sobrenome que ela carrega, talvez o problema não esteja nela."
O salão ficou em silêncio.
Eduardo continuou:
"Isabela está aqui porque merece estar."
Todos entenderam.
Ele não estava apenas defendendo uma mulher.
Estava escolhendo um lado.
E esse lado não era o da tradição.
Era o dela.
Gabriel viu tudo.
E naquele momento, algo dentro dele desmoronou.
Porque durante anos ele achou que Eduardo estava apenas protegendo uma pessoa vulnerável.
Mas agora ele entendia.
Eduardo admirava Isabela.
Respeitava Isabela.
E talvez...
Amava Isabela.
A ideia era insuportável.
Porque Gabriel finalmente percebeu que o homem que ele mais respeitava estava dando a Isabela exatamente aquilo que ele nunca deu.
Valor.
Naquela noite, Gabriel foi até Vila Mariana.
Ele ficou parado em frente ao prédio simples onde Isabela morava.
Durante alguns minutos, ele não teve coragem de subir.
Era estranho.
Ele sempre entrou na vida dela sem pedir.
Sempre acreditou que aquela porta estaria aberta.
Mas agora precisava pedir permissão.
Quando Isabela abriu a porta, ficou surpresa.
"Gabriel?"
Ele parecia diferente.
Não havia arrogância.
Não havia aquele olhar de superioridade.
Apenas cansaço.
"Eu preciso conversar com você."
Isabela hesitou.
Mas permitiu que ele entrasse.
Eles ficaram em silêncio por alguns segundos.
Gabriel olhou ao redor.
Aquele apartamento era simples.
Mas ela parecia mais feliz ali do que na cobertura dele.
"Você está bem?"
A pergunta fez Isabela quase rir.
Depois de tudo.
Depois de tantas semanas.
Ele finalmente perguntava.
"Agora eu estou."
Gabriel sentiu a resposta.
Ele respirou fundo.
"Eu errei."
Isabela não respondeu.
"Eu achei que você sempre estaria comigo."
A voz dele falhou.
"E eu achei que isso significava que eu podia fazer qualquer coisa."
Ela ficou em silêncio.
Gabriel se aproximou.
"Eu sinto sua falta."
Pela primeira vez, ele disse sem orgulho.
Sem tentar vencer.
"Eu quero você de volta."
Isabela olhou para ele.
Durante anos, aquela frase era tudo que ela queria ouvir.
Mas agora não causava o mesmo efeito.
Porque ela não era mais a mesma mulher.
Gabriel segurou a emoção.
"Eu posso mudar."
Isabela respirou fundo.
E respondeu:
"Eu acredito que você pode."
Ele se surpreendeu.
"Então..."
Ela interrompeu.
"Mas eu não posso voltar."
O rosto dele mudou.
"Por quê?"
Isabela olhou para o homem que um dia amou tanto.
"Porque eu amei você."
Ela fez uma pausa.
"Mas você destruiu a mulher que amava você."
O silêncio tomou conta do apartamento.
Gabriel não encontrou nenhuma resposta.
Porque pela primeira vez ele entendeu.
Ele não perdeu Isabela quando ela foi embora.
Ele perdeu quando decidiu que ela nunca teria coragem de partir.
Ele abaixou o rosto.
E, pela primeira vez em muitos anos...
Gabriel Montenegro chorou.