Naquela noite, a Mansão Albuquerque, no Morumbi, parecia o centro do mundo em São Paulo. As luzes douradas refletiam nos enormes cristais do salão principal, os carros de luxo ocupavam toda a entrada e os sobrenomes mais poderosos da cidade estavam reunidos para comemorar o aniversário de Valentina Albuquerque Ferraz.
Isabela Martins Ribeiro entrou naquele lugar segurando o braço de Gabriel Montenegro Almeida, tentando ignorar todos os olhares sobre ela.
Ela sabia que não pertencia àquele mundo.
Sabia que, para muitas pessoas naquela festa, ela era apenas a garota comum que apareceu ao lado do herdeiro dos Montenegro.
Mas, durante anos, ela acreditou que o amor de Gabriel seria suficiente.
Acreditou que, ao lado dele, poderia enfrentar qualquer julgamento.
Gabriel, porém, naquela noite parecia outra pessoa.
Ele sorria mais quando Valentina estava perto.
A antiga namorada.
A garota que todos naquela sala esperavam ver ao lado dele.
Valentina usava um vestido vermelho elegante, feito sob medida para aquela noite. Ela caminhava pelo salão recebendo elogios, abraços e olhares de admiração.
Era como se aquela festa fosse uma celebração dela.
E talvez fosse.
Isabela percebeu isso quando Gabriel soltou lentamente seu braço para cumprimentar alguns amigos.
Ela ficou sozinha por alguns segundos.
Foi quando Felipe Andrade, um dos melhores amigos de Gabriel, aproximou-se com um sorriso irônico.
"Então você é a famosa Isabela."
Ela tentou ser educada.
"Sim. Prazer em conhecer você."
Felipe olhou para o vestido simples dela e depois para o salão luxuoso.
"Interessante. Eu sempre achei que Gabriel escolheria alguém que combinasse com o mundo dele."
Algumas pessoas próximas começaram a rir.
Isabela sentiu o rosto esquentar.
Antes que pudesse responder, Lucas Ferraz, primo de Valentina, completou:
"Algumas pessoas confundem estar ao lado de alguém poderoso com realmente pertencer a esse lugar."
Os risos aumentaram.
Isabela procurou Gabriel com os olhos.
Ele estava a poucos metros dali.
Ele tinha ouvido.
Mas não fez nada.
Apenas continuou conversando.
Aquela pequena atitude doeu mais do que as palavras dos outros.
Porque ela esperava que ele a defendesse.
Sempre esperava.
E sempre encontrava uma desculpa para ele.
Valentina apareceu logo depois, cercada por amigas.
Ela abraçou Gabriel como se os dois nunca tivessem se separado.
"Você veio mesmo."
Gabriel sorriu.
"Claro. Eu não perderia seu aniversário."
A frase pareceu simples.
Mas para Isabela, foi como uma lâmina.
Ela observou os dois.
A forma como se entendiam.
A forma como todos ao redor pareciam esperar que eles voltassem.
Mesmo ela estando ali.
Mesmo sendo a namorada dele.
Algumas horas depois, durante o jantar, aconteceu o acidente.
Isabela estava segurando uma taça de vinho quando alguém esbarrou nela.
O líquido vermelho caiu diretamente sobre o vestido branco de Valentina.
O salão inteiro ficou em silêncio.
Valentina olhou para a mancha no vestido.
Por alguns segundos, ela não disse nada.
Então respirou fundo.
"Esse vestido foi feito exclusivamente para mim."
Isabela ficou desesperada.
"Valentina, me desculpa. Eu juro que foi sem querer."
Mas ninguém parecia ouvir.
As pessoas começaram a cochichar.
"Que vergonha."
"Ela não sabe se comportar."
"Era óbvio que isso aconteceria."
Isabela sentiu todas aquelas vozes esmagando seu peito.
Então Gabriel apareceu.
Por um segundo, ela acreditou que ele iria defendê-la.
Acreditou que ele lembraria que ela era a mulher que sempre esteve ao lado dele.
Mas Gabriel olhou primeiro para Valentina.
Depois para ela.
E escolheu.
"Você sempre consegue estragar momentos importantes."
Isabela ficou imóvel.
"Gabriel..."
Ele ignorou a dor no rosto dela.
Na frente de todos, pegou uma garrafa de uísque que estava sobre a mesa.
As pessoas ficaram em silêncio.
Ele colocou a garrafa diante dela.
"Beba."
Ela olhou sem entender.
"O quê?"
Gabriel manteve a expressão fria.
"Você ouviu."
Alguns convidados começaram a sorrir.
Isabela sentiu o coração acelerar.
"Você está falando sério?"
Gabriel se aproximou um pouco.
"Você quer provar que não fez isso de propósito? Então beba essa garrafa inteira."
Ela não conseguia acreditar.
Mas a pior parte ainda estava por vir.
Ele olhou para o vestido de Valentina.
"Ou tire esse vestido e entregue para ela usar."
O mundo pareceu parar.
Ninguém naquela sala estava mais olhando para Valentina.
Todos estavam olhando para Isabela.
Esperando sua reação.
Ela procurou algum sinal de arrependimento nos olhos de Gabriel.
Não encontrou nada.
Naquele momento, ela entendeu uma coisa.
Ele realmente acreditava que ela nunca iria embora.
Acreditava que ela o amava demais para abandoná-lo.
Acreditava que poderia machucá-la e depois pedir desculpas.
Porque sempre tinha funcionado antes.
Com as mãos tremendo, Isabela pegou a garrafa.
O primeiro gole queimou sua garganta.
O segundo fez seus olhos lacrimejarem.
As vozes ao redor ficaram distantes.
Ela bebeu enquanto todos assistiam.
Bebeu enquanto Gabriel permanecia parado.
Bebeu enquanto percebia que o homem que ela amava era capaz de destruí-la apenas para agradar outra pessoa.
Quando terminou, colocou a garrafa sobre a mesa.
O salão explodiu em comentários.
Mas Isabela já não escutava.
Alguma coisa dentro dela havia mudado.
Ela olhou para Gabriel.
Pela primeira vez, não havia amor naquele olhar.
Havia decisão.
Se ele só respeitava poder, então ela mostraria a ele o que era perder alguém.
Poucos minutos depois, Isabela saiu da festa.
Ela não foi para casa.
Não voltou para Gabriel.
Ela subiu até o último andar do Clube Privé Aurora, nos Jardins.
Ela sabia exatamente quem estava hospedado naquela cobertura.
Eduardo Montenegro Vasconcelos.
O homem que Gabriel admirava mais do que qualquer pessoa.
O homem que todos dentro da família Montenegro respeitavam.
Ela sabia quem ele era.
E sabia exatamente o impacto que sua presença ali causaria.
Quando a porta da cobertura se abriu, Eduardo ficou surpreso.
Ele esperava qualquer coisa naquela noite.
Menos encontrar uma jovem mulher com olhos cheios de raiva e tristeza parada diante dele.
"Você está perdida?"
A voz dele era calma.
Diferente de Gabriel.
Sem julgamento.
Sem desprezo.
Isabela entrou lentamente.
"Não."
Eduardo observou melhor.
Ela estava claramente alterada pela bebida, mas havia algo no olhar dela que chamava atenção.
"Você sabe onde está?"
Ela levantou os olhos.
"Sei."
Eduardo franziu a testa.
"Então sabe quem eu sou?"
Isabela deu um pequeno sorriso.
"Sei."
Ela sabia.
Mas ele não sabia quem ela era.
Para Eduardo, aquilo parecia apenas um encontro inesperado.
Uma mulher ferida procurando esquecer uma noite ruim.
Ele não sabia que ela era a namorada de Gabriel.
Não sabia que aquele momento carregava uma verdade capaz de destruir uma família.
Eles conversaram por alguns minutos.
Isabela falou sobre se sentir invisível.
Sobre amar alguém que nunca enxergava seu valor.
Eduardo ouviu em silêncio.
Pela primeira vez naquela noite, alguém realmente estava ouvindo.
E isso confundiu Isabela.
Porque ela tinha ido ali para vencer uma guerra.
Mas encontrou alguém que não parecia querer lutar contra ela.
Quando ela se aproximou, Eduardo percebeu a intenção dela.
Ele ficou imóvel.
Isabela tocou o rosto dele.
E antes que ele pudesse perguntar qualquer coisa, ela o beijou.
Por alguns segundos, tudo ficou em silêncio.
Eduardo ficou surpreso.
Mas não a segurou.
Não aproveitou aquele momento.
Apenas olhou para ela tentando entender aquela mulher misteriosa diante dele.
Então o celular de Isabela tocou.
Na tela apareceu um nome.
Gabriel Montenegro Almeida.
Eduardo viu.
E naquele instante, tudo mudou.
Ele olhou para Isabela.
Depois para o telefone.
A verdade finalmente chegou.
"Você é a namorada do Gabriel?"
Isabela ficou em silêncio.
E o silêncio respondeu por ela.
Eduardo deu um passo para trás.
O encanto daquele momento desapareceu.
Porque agora ele sabia.
A mulher diante dele não era uma desconhecida.
Era a pessoa que jamais deveria estar ali.
Sem dizer mais nada, Eduardo pegou o próprio casaco e colocou sobre os ombros dela.
Depois saiu.
No elevador, sozinho, ele encarou o reflexo no espelho.
Pela primeira vez em muitos anos, sentiu algo que não conseguia controlar.
Algo que não deveria existir.
As portas começaram a se fechar.
E Eduardo Montenegro murmurou baixinho:
"Esse sentimento nunca deveria existir."