《“Hospital Não É Caridade”… Até Uma Menina Desmaiar》Parte 4

PUBLICIDADE

Na manhã seguinte, Mariana mal tinha dormido.

Sofia permanecia internada, ainda fraca por causa da cirurgia, enquanto ela passava a noite sentada ao lado da cama, com a cabeça encostada na parede e os olhos inchados.

Toda vez que a filha se mexia, Mariana acordava assustada.

Toda vez que algum aparelho apitava, seu coração disparava.

Arthur apareceu cedo.

Levava dois cafés e uma sacola com pão de queijo.

Mariana recusou no primeiro instante.

"Eu não consigo comer."

"Mesmo assim, precisa tentar."

Ela olhou para Sofia.

A menina dormia.

Arthur colocou o café sobre a mesa.

"Como ela passou a noite?"

"Teve dor, mas o médico disse que é esperado."

Mariana apertou os dedos.

"Eu só consigo pensar que ela podia não estar aqui."

Arthur não respondeu.

Ele também pensava nisso.

Antes que pudesse dizer qualquer coisa, alguém bateu à porta.

Uma mulher de terno cinza entrou acompanhada de Patrícia.

"Senhora Mariana?"

"Sim."

"Meu nome é doutora Beatriz Falcão. Eu represento o setor jurídico do Hospital São Gabriel."

Mariana imediatamente ficou tensa.

Arthur também.

"Jurídico?"

Beatriz abriu uma pasta.

"Precisamos conversar sobre os acontecimentos de ontem."

Mariana olhou para Sofia.

"Agora?"

"Seria melhor resolver algumas informações o quanto antes."

Arthur deu um passo à frente.

"Ela passou a noite inteira cuidando da filha."

Beatriz olhou para ele.

"Entendo, mas é importante registrar os fatos."

Mariana respirou fundo.

"Pode falar."

Beatriz puxou uma cadeira.

"Revisamos parte das imagens de segurança."

Mariana se virou.

"Tem gravação?"

"Sim."

Arthur imediatamente perguntou:

"Completa?"

Patrícia respondeu:

"Temos o que o sistema registrou."

Arthur estreitou os olhos.

"Isso não foi o que eu perguntei."

Beatriz ignorou.

"Nas imagens, Sofia aparece entrando sozinha no hospital."

Mariana ficou imóvel.

"Eu já expliquei isso."

"Sim, mas precisamos registrar que ela estava desacompanhada."

"Ela estava com dor."

"Também precisamos saber por quanto tempo ficou sem supervisão antes de sair de casa."

Mariana sentiu o peito apertar.

"Pouco tempo."

"Quanto?"

"Eu não sei."

"Dez minutos?"

"Talvez."

"Vinte?"

"Eu disse que não sei."

Beatriz anotou alguma coisa.

Mariana olhou para a caneta.

Aquilo começou a parecer menos uma conversa e mais um interrogatório.

Arthur percebeu.

"Por que isso é relevante para o atendimento que ela recebeu aqui?"

Beatriz ergueu os olhos.

"Porque o hospital precisa avaliar toda a cadeia de responsabilidade."

Arthur soltou uma risada curta.

"Cadeia de responsabilidade?"

"Sim."

"Então vocês finalmente vão falar sobre quem ignorou uma criança com dor?"

Patrícia respondeu:

"Estamos falando de todos os envolvidos."

Mariana apertou as mãos.

"Eu sou envolvida porque sou mãe?"

Beatriz respondeu com voz neutra:

"Porque a senhora era a responsável legal."

Mariana engoliu em seco.

"Eu estava trabalhando."

"Isso já foi registrado."

"Eu não abandonei minha filha."

"Ninguém usou essa palavra."

"Mas vocês estão pensando."

Silêncio.

Arthur se aproximou.

"Mostrem as imagens."

Patrícia cruzou os braços.

"Não podemos liberar gravações internas."

"Então descrevam."

Beatriz abriu outra folha.

"A menina entra às dezenove e cinquenta e dois."

PUBLICIDADE

Mariana assentiu.

"Depois aparece na recepção."

Arthur perguntou:

"E antes de desmaiar?"

"Há um intervalo."

"Qual intervalo?"

"Alguns minutos."

"Quantos?"

Beatriz olhou para Patrícia.

Patrícia respondeu:

"Isso está sendo analisado."

Arthur ficou sério.

"Conveniente."

Patrícia se irritou.

"Senhor Arthur, ninguém aqui está escondendo nada."

"Então mostre tudo."

"Não é assim que funciona."

Arthur respirou fundo.

Mariana, porém, estava começando a perder a força.

"Por que vocês estão fazendo isso comigo?"

Beatriz virou-se para ela.

"Estamos tentando entender."

"Não."

Mariana balançou a cabeça.

"Vocês estão tentando provar que a culpa foi minha."

Patrícia interveio:

"Ninguém está dizendo isso."

"Então parem de perguntar por que eu estava trabalhando."

A voz dela tremia.

"Eu já me culpei mil vezes desde ontem."

Beatriz manteve a expressão fria.

"Senhora Mariana, em situações envolvendo menores, existem protocolos."

Essa palavra fez Mariana congelar.

"Que protocolos?"

"Dependendo das circunstâncias, o hospital pode precisar comunicar o Conselho Tutelar."

Mariana ficou pálida.

Arthur se virou imediatamente.

"Como é?"

Beatriz continuou:

"Não estou dizendo que isso vai acontecer."

Mariana levantou da cadeira.

"Vocês querem tirar minha filha de mim?"

"Não foi isso que eu disse."

"Foi."

"Não."

"Foi sim."

Mariana começou a chorar.

"Eu trabalho dez horas por dia."

Sofia se mexeu na cama.

Mariana abaixou a voz imediatamente.

"Eu pago aluguel."

"Eu compro comida."

"Eu levo ela para escola."

Beatriz tentou interromper.

"Senhora Mariana..."

"Eu nunca deixei faltar nada."

Mariana apertou o peito.

"Às vezes falta para mim."

"Mas para ela, não."

Arthur olhou para Beatriz com indignação.

"Isso é uma ameaça."

"Não é."

"É exatamente o que parece."

Patrícia respirou fundo.

"Estamos apenas explicando possíveis procedimentos."

Mariana limpou as lágrimas.

"Eu não quero problema."

Arthur virou o rosto.

"Mariana..."

Ela levantou a mão.

"Não."

A voz estava quebrada.

"Eu não posso perder minha filha."

"Você não vai."

"Como você sabe?"

Arthur ficou em silêncio.

Mariana olhou para Beatriz.

"Eu não quero processo."

Beatriz não respondeu.

"Eu não quero televisão."

Silêncio.

"Eu não quero nada."

Arthur ficou chocado.

"Mariana, eles quase deixaram..."

"Eu sei."

Ela fechou os olhos.

"Eu sei."

Quando abriu novamente, parecia menor.

Cansada.

Assustada.

"Eu só quero levar minha filha para casa."

Patrícia descruzou os braços.

"Parece sensato."

Arthur olhou para ela.

"Você está gostando disso?"

Patrícia respondeu friamente:

"Estou tentando evitar que a situação piore."

"Para quem?"

Ninguém respondeu.

Mariana deu mais um passo.

Olhou para Patrícia.

Depois para Beatriz.

E então disse algo que Arthur jamais imaginou ouvir.

"Desculpa."

Arthur ficou imóvel.

Patrícia franziu a testa.

Mariana começou a chorar outra vez.

"Se eu fiz alguma coisa errada..."

Arthur se virou.

"Não."

"Arthur..."

"Não pede desculpa."

Mariana balançou a cabeça.

"Eu devia ter saído do trabalho antes."

"Mariana, não."

"Eu devia ter buscado ela."

"Você não é a culpada."

"Eu sou mãe."

A voz dela falhou.

"Eu devia estar lá."

Arthur sentiu uma raiva profunda subir pelo peito.

Não contra Mariana.

Contra o fato de que tinham conseguido fazer exatamente aquilo.

PUBLICIDADE

Uma mãe cuja filha quase morreu por falta de atendimento estava pedindo desculpa para o hospital que falhou com ela.

A porta se abriu novamente.

Rafael entrou.

Ele ouviu a última frase.

E entendeu imediatamente o que estava acontecendo.

"Por que ela está pedindo desculpa?"

Patrícia virou-se.

"Rafael, isso não é assunto seu."

"É assunto meu quando envolve uma paciente."

Beatriz respondeu:

"Estamos apenas revisando procedimentos."

Rafael olhou para Mariana.

"Você não fez nada errado aqui dentro."

Mariana abaixou a cabeça.

Patrícia mudou o tom.

"Cuidado com o que você está dizendo."

Rafael se virou.

"Eu sei exatamente o que estou dizendo."

"Então escolha melhor as palavras."

"Não preciso."

Rafael apontou para a porta.

"Sofia chegou com dor abdominal intensa, sudorese, palidez e dificuldade para ficar em pé."

Beatriz ficou séria.

"Isso consta no prontuário?"

"Consta na minha avaliação."

"Depois que ela desmaiou."

Rafael travou o maxilar.

"Porque ninguém fez a triagem antes."

Patrícia respirou fundo.

"Rafael..."

"Ela deveria ter sido avaliada imediatamente."

"Você não estava na recepção."

"Não precisava estar."

"Então não pode afirmar o que aconteceu."

"Posso afirmar o estado clínico em que ela chegou até mim."

Beatriz fechou a pasta.

"Isso será analisado internamente."

Rafael deu um passo à frente.

"Não precisa de análise para saber que uma criança com aqueles sinais não deveria ter esperado."

Patrícia endureceu o rosto.

"Você está ultrapassando seu papel."

"Meu papel é cuidar."

"Seu papel também é respeitar a hierarquia."

Rafael soltou o ar lentamente.

"Se a hierarquia manda ignorar uma criança com dor, então a hierarquia está errada."

O quarto ficou em silêncio.

Beatriz olhou para Patrícia.

Patrícia não respondeu na hora.

Mas seu rosto mudou.

Arthur percebeu.

Rafael também.

Havia alguma coisa decidida naquele olhar.

Menos de uma hora depois, Rafael foi chamado à administração.

Arthur encontrou Mariana no corredor.

Ela ainda parecia abalada.

"Você não devia ter pedido desculpa."

Mariana olhou para ele.

"Você não entende."

"Entendo que estão tentando colocar medo em você."

"Eu tenho uma filha."

"E justamente por isso..."

"Arthur."

Ela respirou fundo.

"Se alguém disser que eu fui negligente, se alguém inventar qualquer coisa..."

"Não vão."

"Você não sabe."

Mariana olhou para a porta do quarto.

"Eu não tenho dinheiro para advogado."

"Eu não tenho família rica."

"Eu não conheço ninguém importante."

Ela voltou o olhar para ele.

"Eu só tenho ela."

Arthur ficou sem resposta.

Nesse instante, Rafael apareceu no fim do corredor.

Ainda estava de jaleco.

Mas segurava uma caixa de papelão pequena.

Arthur percebeu primeiro.

"O que aconteceu?"

Rafael parou.

Mariana também se aproximou.

"Rafael?"

Ele soltou uma risada amarga.

"Fui suspenso."

Mariana arregalou os olhos.

"O quê?"

"Até segunda ordem."

Arthur olhou para a caixa.

"Por quê?"

Rafael ergueu um papel dobrado.

"Violação de protocolo interno."

Mariana levou a mão à boca.

"Por minha causa?"

"Não."

"Foi sim."

"Não foi."

Arthur apertou o maxilar.

"Eles suspenderam você por dizer que Sofia precisava ter sido atendida?"

Rafael não respondeu.

Não precisava.

Mariana começou a chorar.

"Eu estraguei a vida de todo mundo."

Rafael se aproximou.

"Olha para mim."

Ela tentou.

"Você não fez isso."

"Mas se eu..."

"Não."

Rafael falou com firmeza.

"Quem decidiu punir quem fez o certo fez isso por escolha própria."

Arthur observou o médico.

Depois olhou para a caixa em suas mãos.

"Vale a pena perder o emprego por alguém que você nem conhece?"

Rafael ficou em silêncio por alguns segundos.

Então olhou para o quarto onde Sofia estava.

"Eu não virei médico para conhecer o paciente."

Arthur sustentou o olhar.

Rafael terminou:

"Virei médico para cuidar dele."

Naquele mesmo instante, o elevador se abriu.

Dois homens de terno saíram acompanhados de Patrícia.

Um deles segurava uma pasta vermelha.

E caminhava diretamente na direção do quarto de Sofia.

PUBLICIDADE

você pode gostar

compartilhar

compartilhar liderança
link de cópia